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Preparando os Canteiros para receber as mudas

4.3 P ARTICULARIDADES DE CADA AGRICULTOR NO DESEMPENHO DA MESMA ATIVIDADE

4.3.2 Preparando os Canteiros para receber as mudas

Para dispor as mudas no canteiro, o produtor segue um roteiro, que ele mesmo organiza. O primeiro passo é verificar o tamanho da área que o canteiro vai ocupar, logo depois, analisa como será feita a divisão do canteiro e também a distância entre as mudas, de modo que não atrapalhe seu desenvolvimento.

Acompanhamos essa atividade nos dois sítios na qual visitamos, e reparamos que cada produtor tem um jeito de realizar a mesma tarefa. Vale ressaltar que, nem sempre, em nossas visitas de campo foi possível acompanhar a mesma função desempenhada pelos sujeitos, entretanto quando possível, procuramos observar a maneira de cada um, suas convergências e o que tal atividade representava para cada um deles.

Com a intenção de ganhar tempo, nosso pesquisado Armindo desenvolveu uma ferramenta própria, que auxiliasse ele na preparação do canteiro antes de receber as mudas. Essa preparação trata-se de fazer pequenos buracos no chão, na qual Armindo chama de cova. Em cada fileira de mudas são feitas 4 covas com um

espaçamento de 30cm de largura, então visando poupar trabalho e tempo o produtor criou uma ferramenta que faz os 4 buracos de uma só vez.

Vale destacar a posição de Matos e Mattos (2016) sobre a criatividade no meio rural,

A criatividade no meio rural é algo indispensável nos dias atuais. O trabalhador precisa mais do que nunca se valer da criatividade para diminuir suas despesas. Assim como, ao construir seu próprio utensílio de trabalho [...], ele estará subsidiando seus gastos. (MATOS E MATTOS, 2016, p. 101) A ferramenta criada por Armindo, ilustrada na figura 12, trata-se de um tipo de arado feito com madeira tem as dimensões necessárias para a execução do trabalho. Abaixo podemos observar a ferramenta criada e as mudas no canteiro da horta:

Figura 12: Ferramenta de trabalho do agricultor e canteiro com mudas

Fonte: Arquivo da pesquisadora

O improviso desta ferramenta (Figura 12) proporcionou agilidade no trabalho do Armindo, pois sem a mesma, o agricultor teria de fazer uma cova por vez, porém utilizando este arado ele faz quatro covas para mudas de uma só vez.

Vale destacar que, para Armindo, economizar tempo de trabalho é uma prioridade visto que existem outras ocupações em sua propriedade que lhe tomam muito tempo, como por exemplo a plantação de café. Com o objetivo de economizar

o tempo gasto com a horta ele desenvolveu a ferramenta, por outro lado, ele argumenta que, com o novo utensílio não foi preciso contratar mão de obra externa, trazendo uma economia financeira para a família.

Edson faz o transplante de mudas diferente de Armindo, o agricultor não abre mão dos saberes tradicionais de sua comunidade, deixados por outras gerações. O instrumento de medição utilizado como referência para calcular o espaçamento de 30 cm entre as mudas é a palma da mão, onde o mesmo diz com naturalidade que a utilização desse método fosse comum, “minha filha, é só você pegar um palmo e mais um pouquinho que vai dar 30cm, num tem erro desde o tempo do meu avô nós mede assim”. Dasen (2004), comenta que todas as sociedades, têm uma forma de transmitir sua cultura de geração em geração.

Premièrement, toutes les sociétés, qu’elles soient du Nord ou du Sud, ont une façon de transmettre leur culture de génération em génération endehors de I’institution particulière que represénte l’école. [...] une bonne connaissance de l’éducation informelle peut servir à rendre les systèmes scolaires plus adaptés aux contextes culturels dans lesquels ils se situent15 (Dasen, 2004, p. 23)

Os ensinamentos deixados pelo avô de nosso pesquisado ainda se fazem presentes e, ao que nos parece essa técnica também é utilizado por outras comunidades, como medida de comprimento.

Observamos na pesquisa de Queiroz e Lucena (2013), que se desenvolveu em comunidades ribeirinhas de Belém do Pará, cuja principal atividade de trabalho é o cultivo de açaí, cacau e cupuaçu, que essa estratégia também se repete por lá:

Uma forma de medida diferenciada que a comunidade ainda utiliza é o palmo, como medida de comprimento, quer dizer, são usados 5 palmos para contabilizar um metro. Comprovam, entretanto, essa medida contando quantos palmos tem do umbigo para baixo de um homem que, segundo os moradores, sempre dará 5 palmos, se o homem for muito baixo, são acrescentados de três a quatro dedos acima do umbigo (QUEIROZ E LUCENA, 2013, p. 32-33)

Em nossa pesquisa, a “comprovação” de que o palmo mais um pouquinho, correspondia a uma distância de 30cm, foi pedida pelo próprio agricultor, “vamos ver

se eu tô fazendo certo ou errado, pega a trena aí pra gente medir”.

15 Todas as sociedades, sejam elas do Norte ou do Sul, têm uma forma de transmitir sua cultura de geração em geração, fora da instituição particular representada pela escola. [...] um bom conhecimento da educação informal pode servir para que os sistemas escolares fiquem mais adaptados aos contextos culturais nos quais eles se situam (Dasen, 2004, p. 23, apud SOUZA MAFRA, J. R., & FANTINATO M. C. 2016, p. 183)

Acompanhamos como ele fazia e depois medimos com uma trena e os espaçamentos estavam todos próximos de 30cm. As medidas deram ora 29cm ou 31cm ora 30cm. A fotografia abaixo ilustra a maneira do agricultor para dividir a área do canteiro em fileiras com distanciamento semelhante.

Figura 13: Canteiro da horta de Araraí – Alegre/ES.

Fonte: Arquivo da pesquisadora.

No canteiro acima foram plantadas cenouras em sementes, neste dia (18/Nov/2015) em especial acabamos participando do processo de plantação e foi um aprendizado e tanto. Enquanto Edson demarcava os canteiros, ia nos explicando o cuidado que deve ter ao plantá-las, que as sementes são frágeis e que também

não podíamos colocar muitas sementes, se não “sufocava” as mudas, ao mesmo tempo ele comentava da importância da mulher no cultivo da horta: “eu não gosto de plantar cenoura, eu só preparo a terra, esses coisas é com a Cenira ela que tem o jeito, tem paciência, quando é ela que planta as cenoura fica uma belezura só” (Edson, 18/Nov/2015)

Vale destacar a importância de cada membro da família nas atividades desenvolvidas por eles no campo. Os seus saberes se complementam e a valorização desses saberes são reconhecidos entre eles, ao mesmo tempo que Cenira fala da importância de Edson nos cálculos, o mesmo comenta da paciência dela no plantio da cenoura.

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