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Presente de grego e judeu: imagens na História

2. Revendo o papel da imagem nas comunicações humanas

2.1. Presente de grego e judeu: imagens na História

Como já apontado nesta tese, as bases da criação da sociedade ocidental são as culturas grega e judaica, ambas utilitárias da tecnologia da escrita verbal, e ambas crentes de que essa escrita representaria de forma satisfatória a fala. Ao mesmo tempo, as duas culturas tiveram em mais de um momento relações tempestuosas com as imagens propriamente ditas – de certo modo, essas culturas se esqueceram de que as letras também são imagens, conforme vimos no capítulo anterior. Assim, houve uma separação entre as funções que cada sistema semiótico poderia cumprir. Alain Besançon (1997) pesquisou a fundo o tema e tece comentários muito interessantes a respeito das imagens na História, a começar pelos gregos: até o século V a.C., os gregos acreditavam que homens e deuses tinham os mesmos atributos físicos. Os homens eram como os deuses, então, esculpir ou desenhar um corpo humano não implicava qualquer questionamento moral ou teológico. Pelo contrário, era perfeitamente aceitável e desejável. Na verdade, somente a elite se preocupava com questões filosóficas e

religiosas, que quase sempre andavam juntas para os gregos.49 O povo e os artistas, por sua vez, tinham a imaginação solta e muitas obras primas gregas vêm desse período, incluindo os vasos gregos com pinturas de narrativas heroicas e dos deuses.

Ao longo do tempo, porém, alguns filósofos pensaram diferente: se os homens morriam e os deuses não, não fazia sentido dizer que deuses e homens eram iguais em aparência e caráter. Xenófanes de Cólofon, do séc. VI a.C., foi um desses, tendo inclusive atacado a obra de Homero, já que nos escritos deste os deuses agiam como homens, matando, roubando e mentindo. Com o tempo, já no séc. IV a.C., a ideia de representar deuses iguais a homens passou a ser considerada uma heresia. O maior “ícone” do período e maior contestador das imagens foi Platão. Para ele, o mundo das ideias era a perfeição, e as coisas do mundo sensível, ou real, nada mais eram do que cópias mal feitas das ideias. As imagens artísticas então eram a cópia da cópia, o que as tornava ainda mais imperfeitas. Dessa vez, a opinião dos filósofos pesou mais e até os artistas foram censurados. Um agravante é que as obras mais valorizadas, as que mais davam destaque a um artista, eram as representações do corpo humano, e se os artistas já não podiam fazer isso, não se importavam muito em fazer outras formas de arte e uso das imagens. Essa situação perdurou pelos séculos seguintes, até os gregos serem absorvidos pelos romanos, com eventuais momentos de maior valorização das imagens (BESANÇON, 1997).

Na cultura judaica, desde o início a imagem foi objeto de discussão intensa, pois ao mesmo tempo em que Deus disse, logo no primeiro capítulo da Bíblia, que o homem seria feito à sua imagem e semelhança,50 também determinou, alguns capítulos depois, que não toleraria a adoração de outros deuses (através de imagens esculpidas).51 Mas a tolerância dos judeus aos demais tipos de imagens variava conforme a época: em épocas de prosperidade e paz, gostavam de adornar suas casas e templos. Já em épocas de perseguição e diáspora, qualquer desenho, adorno ou escultura eram mal vistos. A própria Bíblia mostrava contradições: logo depois de proibir a adoração de imagens, Deus determinou que se fizessem dois querubins para adornar a Arca da Aliança.52 De modo geral, continua Besançon, o tabu se concentrava mesmo, e assim como os gregos, nas imagens humanas, mas acabava que todas as outras imagens “sofriam” juntas.

49 Apesar de os diálogos e ensinamentos de Platão e Aristóteles serem usados até hoje para guiar áreas do

conhecimento como o direito, parece que ninguém se lembra de que tais textos estão impregnados de questões religiosas (para os gregos). Igualmente, o que entendemos hoje como arte grega prestava-se quase exclusivamente a fins religiosos.

50 Conforme Gênesis, 1:26,27. Foi consultada a Bíblia Sagrada – Edição Pastoral 1991. 51 Conforme Êxodo, 20:4. Idem nota anterior.

Os primeiros cristãos absorveram e misturaram os aspectos e dogmas das duas culturas quando Paulo de Tarso, no primeiro século d.C., começou a espalhar a sua versão do Evangelho (selecionando alguns aspectos e rejeitando outros).53 Paulo foi romano, mas converteu-se à então incipiente seita de Jesus. Os filósofos posteriores da nova religião mantiveram os velhos debates sobre até que ponto as imagens poderiam ser ou não criadas e de que forma poderiam ser ou não valorizadas e adoradas. Percebemos até agora, e conforme também afirmam Christin (2006) e Foster (1986), que no passado as imagens não eram consideradas passíveis de comunicação, narrativa e sintaxe. Eram vistas mais como pontes entre o mundo real e o sobrenatural, e talvez por isso mesmo não fossem valorizadas quando se tratava de comunicar com outros humanos.

Uma mudança radical, segundo Besançon (1997), aconteceu quando o imperador romano Constantino, já no começo do séc. IV, abraçou o cristianismo e “converteu” todo o seu império. A primeira ação de Constantino foi mandar destruir todo tipo de imagem pública do império, menos as suas... Suas imagens, tanto desenhos e quadros como esculturas, permaneceram intactas, o que criou nos séculos seguintes um efeito muito interessante sobre o uso das imagens pelo povo então convertido. Nas palavras de Besançon (1997, p. 186):

Nos séculos VI e VII, o ícone e o culto do ícone experimentam uma extraordinária difusão. A prática da imagem móvel cristã remonta a um passado longínquo. Numa Vida apócrifa do apóstolo São João (datada do século II), menciona-se um retrato desse apóstolo conservado por um discípulo, que ficava posto sobre uma mesa ladeado por dois círios acesos. Era assim que se veneravam as imagens imperiais. O culto dos imperadores criara o hábito de se considerar como tendo valor sagrado não apenas suas imagens, mas tudo o que houvesse tido contato físico com eles: palácios, insígnias, escritos. O culto das relíquias sai do mesmo molde.

Ou seja, foi a contradição de Constantino que criou nos católicos o hábito da veneração de imagens e relíquias. Depois disso, era fácil encontrar nas residências das pessoas imagens de Cristo, de Maria e de algum imperador, todas lado a lado.

Besançon continua explicando que no séc. VIII novo abalo sobre o uso das imagens aconteceu graças à ascensão do Islamismo, que começava a ganhar na época extensas populações de fieis no norte da África e na Ásia próxima de Roma. Os muçulmanos não admitiam qualquer tipo de imagem, mas, diferente dos judeus, que consideravam a proximidade excessiva do homem com Deus o motivo para a proibição das imagens, os muçulmanos entendiam que Deus estava longe demais dos homens, e por isso seria inadmissível representá-lo. Os novos questionamentos sobre o uso ou não da imagem para adoração, e até para simples adorno e estética de lugares, levaram quase um século para serem

debatidos e causaram uma profunda divisão entre os pensadores da Igreja. Segundo Besançon, esse foi o primeiro grande motivo que causaria no séc. XI o Grande Cisma, quando a Igreja dividiu-se entre a ocidental (católica apostólica romana) e a oriental (ortodoxa).

Mas os líderes católicos do ocidente preferiram continuar admitindo e tolerando os usos das imagens para adoração, pois, como afirma Besançon (1997, p. 13), “a Igreja (e, em primeiro lugar, os papas) tinha em vista sobretudo os ganhos em termos pastorais, as possibilidades que oferecia a imagem no sentido de educar e de empolgar a devoção.”

O historiador Peter Burke (1989) confirma essa hipótese quando dá o exemplo do papa Gregório, o Grande (que foi papa de 590 a 604) e sua forte sugestão aos missionários de sua época para que não destruíssem os templos pagãos na Inglaterra, visando assim uma adaptação gradual dos pagãos ao cristianismo, ao mesmo tempo em que dizia que “as pinturas eram os livros dos iletrados” (p. 254), ou seja, admitindo também a tolerância à veneração das imagens.

Importante notar que as letras nunca são questionadas. Entre os gregos, as palavras escritas foram mal vistas apenas no começo da civilização, antes do séc. IX a.C., quando o trabalho de memória e narração dos poetas era considerado sagrado e a palavra escrita seria então uma ameaça a esse trabalho. Entre os judeus, a palavra escrita sempre fora sagrada e intocável. E entre os pensadores cristãos de todas as épocas, a palavra escrita sempre fora uma ferramenta essencial na evangelização – as cartas de Paulo são o primeiro e mais importante exemplo. E como mostrado, na verdade o grande problema das imagens era a possibilidade de elas representarem homens e deuses, mas, como nunca houve interesse em discutir mais amplamente a questão, ou talvez pelo tabu de uma discussão como esta ser tão grande, nunca se pensou que outras imagens além das letras poderiam ser transmissoras de sentidos e capazes de diálogos tanto quanto a fala e a escrita de letras.

Flusser (2007) também corrobora a tese de que houve uma valorização histórica dos códigos escritos pelos povos ocidentais, decorrência direta da fusão dos pensamentos grego e judaico.

Figura 15: O não santo idolatrado.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/ Constantino

Ronaldo Entler (2014, p. 140) oferece outro ponto de vista sobre o assunto: “É contra o esquecimento que a imagem ganhou espaço no mundo, desde as civilizações antigas.” A imagem é a negação do esquecimento, ela serve para nos lembrarmos dos deuses, dos mortos e até dos vivos ausentes ou distantes. E é por isso que ela está em tantas culturas, mais ou menos valorizada conforme a época. E foi também pela possibilidade do esquecimento que muitos tiraram proveito da imagem de forma poética, ambígua e flexível, nascendo assim o que conhecemos por “arte”. Relembrando o exemplo de Constantino e a preservação de suas próprias imagens, faz sentido pensar que, apesar do caráter religioso, as imagens serviram mesmo como transmissoras de memórias, mesmo quando essa memória fosse essencialmente religiosa. Por outro lado, as palavras exercem a mesma função de negação do esquecimento. Podemos dizer então que ambas comunicam, o que muda é o jeito que fazem para comunicar e evocar sentidos.

As coisas iriam mudar, mais uma vez, entre os séculos XIV e XV, quando da abertura econômica e cultural da Europa para os mundos árabe e asiático, que levaram à Renascença e à valorização da arte em geral, bem como com a invenção da prensa móvel e com a descoberta do Novo Mundo.