À medida que se muda o contexto histórico e estrutural de um lugar, concomitantemente altera-se a paisagem, surgem novas funções e novos elementos que revelam características mais modernas condizentes com a contemporaneidade. Neste sentido, foi pedido aos entrevistados que fizessem uma comparação entre sua infância, juventude e o momento atual, no sentido de apreendermos a percepção deles frente às mudanças ocorridas no povoado no decorrer dos últimos anos. Essas mudanças se referem às questões sociais, culturais, educacionais, saúde, infraestrutura e política do lugar. os relatos foram longos:
Hoje está bem melhor, mas continua a falta de transporte, falta de interesse do prefeito, a educação e saúde no povoado tá tudo péssimo, não tem médico, falta remédio, só tem uma enfermeira e um dentista que chegou agora no posto (Adenilson Obitério, ‘Popô’, pescador, 42 anos).
Hoje tá pior, não tem comparação não, há uns 12 anos atrás era melhor. Agora tá pior, porque aqui hoje em dia evolui tudo n/é, a tecnologia tá avançada, então significa que aqui tá pior. Não tem nada aqui. Praça não tem, um asfalto não tem aqui, que deveria ter há muito tempo. A Petrobrás, ela explora aqui há mais de 35 anos,
só tirando petróleo daqui e nada, e nada vem acontecer aqui. A educação é fraquinha aqui, a professora ensina os menino ai e é mesmo que não ensinar. A saúde aqui é devagar também, eu acho que devia ser mais evoluido, porque não tem só aqui o povoado Pedreiras, tem o Tinharé, que o povo do Tinharé vem pra cá, tem o Malacabado que vem pra cá, então deveria ser mais evoluído (Alessandro S. Oliveira “Fier”, pescador, 34 anos).
O passado mais distante e o mais próximo são postos como marcos da vida. é evidente que o cotidiano está melhor, com energia e/ou possibilidades de congelar o pescado, com linha de ônibus regular que facilita a comercialização no principal mercado que é a sede, São Cristóvão. No entanto, as benfeitorias que facilitaram a vida há 40 ou 30 anos atrás já não mais satisfazem as exigências dos dias atuais. Por ser um povoado antigo há a percepção da centralidade de Pedreiras com relação aos arredores e, consequentemente, a preocupação da pressão no uso dos serviços aí existentes o que confere maior legitimidade nas reivindicações.
Uma das maiores queixas da comunidade diz respeito a estrada que liga o povoado a sede do município de São Cristóvão. Esta, ainda é de terra batida, apenas a área urbana do povoado possui calçamento (Figura 18). Em épocas de muita chuva são muitos os transtornos para os motoristas e moradores do povoado Pedreiras, bem como do povoado Tinharé e das localidades Olhos d’Água, Malacabado e Purga que também são interligados à sede por esta estrada.
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Figura 18 - Término da estrada na entrada do Povoado Pedreiras. Organização: TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.
Como já mencionado uma estrada precária foi construída no inicio do século passado, pelas mãos dos próprios moradores, encabeçada por uma figura muito
importante da região da época. Naquela época foi um marco ao permitir o tráfego de carroças, carros de aluguel e “até caminhões”! Ainda de acordo com os relatos, essa estrada já deveria ter sido asfaltada, já que a Petrobrás, que possui uma estação coletora de gás e petróleo no povoado há mais de 35 anos e que melhorou o leito da estrada, repassa os royalties para a Prefeitura Municipal. O valor dos royalties pago pela Petrobrás à prefeitura de São Cristóvão gira em torno dos R$ 100, 000.007. Os moradores tem conhecimento desse repasse e cobram que este dinheiro seja empregado em obras de infraestrutura no povoado, principalmente a cobertura asfáltica da estrada.
A presença da Petrobrás (Figura 19) no povoado é de grande importância para alguns moradores, estes até atribuem o relativo “desenvolvimento” do lugar à empresa. Pois, alegam que foi partir de sua instalação que surgiram as primeiras mudanças na rotina do povoado.
Está mais desenvolvido por causa da Petrobrás, tem transporte, telefone, lotação. Se a Petrobrás acabar, a Pedreira acaba junto [...] (Rosenise Gonzaga dos Santos, marisqueira, 32 anos).
Figuras 19 – Estação Coletora da Petrobrás – Povoado Pedreiras. Organização. TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.
No bojo das manifestações de rua em 2013 no Brasil, causadas pela insatisfação popular frente a uma série de problemas no país, os moradores dos Povoados Pedreiras e Tinharé organizaram um protesto contra as más condições da via de acesso que liga a sede de São Cristóvão ao povoado Pedreiras. Em julho de
2013, mais precisamente no dia 18, acompanhamos momentos tensos em que população interditou a estrada com a queima de pneus, arbustos e galhos secos, impedindo a passagem de caminhões da Petrobrás para retirada dos produtos, como forma de protesto e reivindicação da pavimentação asfáltica da estrada (Figura 20). Na ocasião membros da Petrobrás juntamente com representantes da prefeitura de São Cristóvão estiveram no local e ouviram as reivindicações. Posteriormente foram feitas algumas reuniões entre moradores e os órgãos envolvidos para discutir melhorias, mas até o fechamento desta pesquisa nada tinha sido feito em relação pavimentação da estrada. Eles ainda esperam Este acontecimento foi noticiado em sites de noticias do estado, a exemplo de: Infonet, Jornal do Dia online, Cajunews.
Figuras 20 – Protestos dos moradores dos Povoados Pedreiras e Tinharé Organização: TORRES, R. P. de A.
Fonte: Trabalho de campo, 2013.
A violência também é fato recorrente no local, assim como a falta de respeito dos mais jovens em relação aos mais velhos, como podemos observar nos relatos:
Tá tudo mais difícil, pescaria tá fraca. Tudo mudado hoje em dia, antigamente "nera" as pessoas respeitava os outros, hoje em dia respeita não, é problema um com o outro, só "vevi" na delegacia. Tudo vai mal, posto de saúde falta remédio, colégio passou muito tempo sem professora, os alunos tudo sem estudar, sem gás, sem merenda. A diretora preocupada, na casa de um na casa de outro pedindo. Rodagem ruim, se não for a Petrobrás com esse prefeito que tá aí, tá destruindo é tudo, só faz o que? Só panha a laminha da
Pedreira, o “roialte” de petróleo e passa pro bolsinho dele. (Adenilson Santos da Silva, pescador, 48 anos).
A diferença é muito grande em tudo, no modo de viver. Hoje você num pode ficar com sua porta aberta até 10, 11 horas da noite. Antigamente se fosse possível. Se fosse possível não, você dormia com tudo aberto, porta e janela aberta aí, hoje você não tem mais esse direito. Hoje você sai pra de divertir, vai ter uma coisinha ali, você sai, quando chega ali, só tem briga. É briga, é um querendo matar o outro. Hoje em dia graças a Deus sou evangélico, a coisa já é diferente. É de casa pra igreja, da igreja pra pescaria. É isso aí. Deixa muito a desejar educação e saúde, porque você vê passar na televisão, o dinheiro do governo vai investir na educação e saúde, não vê nada, vai pros hospitais, vai tá morrendo nos corredô. Enquanto isso, o que tá lá preso ganha dinheiro, a mulher tá lá recebendo, e o pai de família se acabando aí. A estrada deixa muito a desejar (José Santos Filho, pescador, 46 anos).
A preocupação com a violência não está mais apenas nas grandes cidades. O medo da violência vem crescendo e já atinge pequenas localidades a exemplo de Pedreiras. Antes se podia dormir com as portas das casas abertas que não oferecia nenhum perigo, mas hoje isso já não é mais possível. Algumas casas já possuem grades nas portas e janelas. O álcool e as drogas são os principais fatores responsáveis pela mudança na tranquilidade do lugar. Ressaltamos que não existe posto policial na comunidade, mas que a comunidade evangélica empenha-se cotidianamente no “combate” à bebida.
A igreja evangélica foi uma coisa que Deus mandou pra aqui e que tirou muita gente das drogas, tirou muitas pessoas dos caminhos ruins, é a única coisa em prol que tá sendo até agora é essa igreja evangélica, que tá "recadando" muitos jovens, levando pra lá pra ouvir a palavra de Deus [...] (Miriam, moradora, 42 anos).
A religiosidade no povoado demarca territórios e territorialidades. Os cristãos se colocam como fundadores enraizados e os evangélicos como aqueles que tem como missão a ordem social, zelosos pelos bons costumes. A convivência pacífica entre os grupos dá-se pelo respeito familiar com relação à opção religiosa, pois é comum membros de uma mesma família frequentarem as duas igrejas.
De poucos anos pra cá Nita chegou botando na cabeça do povo pra ficar crente e dizem que fica mais direito, dizem [...] Acho que a maioria do povoado hoje tem como ocupação ser crente, eram todos do apostolado como eu [...] Acho que não melhorou não, pois é desse tempo que os roubos começaram por aqui (Dona Áurea, moradora, 84 anos)
No contexto relacional entre o passado e presente há aqueles que reconhecem os avanços e as melhorias e tal como colocado por Le Goff (1992) reforça a identidade individual e coletiva valorizando os bens materiais e imateriais:
Tá muito mudado, muito diferente. O povoado cresceu. Antigamente eram poucas casas, hoje parece uma cidade. antes era tudo mais difícil. Antigamente quem quisesse vender peixe tinha que colocar na bacia e ir andando até São Cristóvão, hoje tem ônibus, lotação. Tem posto médico, é bom, tem enfermeira, médico. A escola é boa, e que não estuda na escola do povoado, tem ônibus escolar que leve pra São Cristóvão. (Antonio Ferreira Santos, pescador, 57 anos).
Mudou muita coisa, porque antigamente a gente ia pra São Cristóvão, pagava uma pessoa pra dormir lá pra marcar uma ficha. Até hoje a gente paga, é 15 reais no Valadares, que aqui não tem médico. Agora melhorou, dentista tem, dia de terça e quinta tem. Tem uma enfermeira pra acompanhar quem é hipertenso, eu mesma sou uma. E os taxistas, porque o povo antigamente, meu pai sempre dizia que saia de pé pra ir pra São Cristóvão, porque antigamente não tinha carro, que era de trem, que iam de trem. Ele mesmo já foi muitas vezes pra São Cristóvão pra pegar o trem pra ir pra Aracaju pra vender o pescado, e melhorou muito. Os ônibus não tem não é de vez em quando, tem os horários, mas taxistas melhorou muito (Patrícia Vitória da Paixão, marisqueira, 37 anos).
Com efeito, o fluxo de automóveis aumentou, principalmente de caminhões, os quais fazem o transporte dos produtos extraídos, não só o fluxo de automóveis, mas também de pessoas, funcionários da empresa e terceirizados circulam diariamente pelo lugar. Como consequência desse processo intenso, surgiram pequenos restaurantes, mercearias, para atender a nova demanda. Mas a importância maior que os moradores atribuem à Petrobrás é porque estes têm conhecimento acerca dos royalties pagos pela empresa à Prefeitura de São Cristóvão, e esperam que estes sejam revertidos em benefícios para a população.
A vida social do povoado é comandada pelas práticas religiosas das igrejas católica e evangélica.
Com exceção da festa da padroeira Santa Cruz no mês de maio, não há outras festas de grande relevância no povoado. As outras festas são geralmente festas particulares que acontecem no espaço da Associação Comunitária. O São João é comemorado pelas famílias em suas próprias casas, assim como o Natal e o Ano Novo. No passado, quem animava as festas juninas era um senhor chamado
Antônio “Sanfoneiro” que com sua sanfona “colocava todo mundo pra dançar forró”. O Sr. Antônio é, pois uma referência. As festas cívicas são comemoradas na escola, assim como os dias das mães, dos pais, das crianças dentre outras. As festas na escola contam com a participação dos pais dos alunos.
As festas da igreja evangélica são festas fechadas que acontecem dentro do templo e mobilizam a comunidade evangélica do lugar.
Percebe-se veladamente as relações de poder estabelecidas a partir destas duas religiões: a católica e a evangélica, presentes no povoado. Observamos essa luta pelo domínio do território religioso entre a igreja católica e a igreja evangélica no cotidiano por meio de suas práticas, como também por meio dos símbolos presentes no povoado, a exemplo da imponência do templo evangélico e da Santa Cruz em frente a igreja católica. Estes símbolos auxiliam na construção de suas representações.
Atualmente não existe nenhum tipo de manifestação cultural no povoado. Mas no passado existiu um reisado, que era comandado por Seu Antônio, falecido recentemente (não é o sanfoneiro). O reisado do Seu Antônio aos poucos foi acabando até deixar de existir, mesmo porque os mais jovens não quiseram dar continuidade, mas ele ainda existe na lembrança dos mais velhos que lembram com nostalgia das danças e das cores dos brincantes. Hoje, algumas pessoas do Pedreiras participam do samba de coco da Ilha Grande, cujo grupo é reconhecido no Estado devido as suas apresentações em eventos culturais.
A atividade artesanal do lugar está ligada à pesca, desde a prática em si, até a confecção dos apetrechos e embarcações, pois, não foi registrado nenhum outro tipo de artesanato. No passado sim, já houve quem fizesse bordados, crochê e até mesmo rendas.
O peixe e o camarão são os ingredientes principais dos pratos servidos nos bares do povoado, os bares mais frequentados são: Bar Maria do Peixe; Bar da Miriam e Bar do Dedé. O pirão de peixe é o carro-chefe desses bares, mas também são servidos outros pratos, como galinha de capoeira, o camarão ao alho e óleo, aratu dentre outros frutos do mar. Os bares movimentam o povoado nos finais de semana quando recebem frequentadores dos arredores, de São Cristóvão, Aracaju, bem como os proprietários de segunda residência e seus convidados. Uma
pequena fabriqueta de queijadinhas foi identificada ao acaso, embora não tenha sido mencionada nas entrevistas. As “queijadinhas de São Cristóvão” são reconhecidas por sergipanos como típica, singular desse município, elas são comercializadas em feiras, mercados, lojas de produtos regionais e, sazonalmente em barracas de festas religiosas de padroeiros.