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CAPÍTULO I: A REFORMA DO ESTADO BRASILEIRO: UMA NOVA

1.7 Pressupostos que embasam o discurso do Estado social-liberal

A ideologia social-liberal que embasou o discurso da Reforma do Estado traz à tona os

valores do liberalismo, corrente ideológica que representa a “ascensão da burguesia como

nova classe social e a sua consolidação como classe dominante” (COUTINHO, 2003, p. 12).

Na sua origem, o liberalismo não era uma ideologia preocupada em discutir a questão da

democracia. Seus primeiros pensadores estavam preocupados em acabar com o Estado

absolutista e instalar uma nova ordem social de domínio burguês, portanto, o aspecto

democrático não estava em questão. Segundo Coutinho (2003) foi a partir da Revolução

Francesa, do surgimento do comunismo e particularmente do nascimento da corrente

socialista no início do século XIX, que começaram a surgir um conjunto de reflexões que se

colocaram em confronto com o movimento liberal, marcando a ascensão da democracia

moderna (COUTINHO, 2003). Nesse primeiro momento e até o início do século XX, segundo

Coutinho (2003), a corrente liberal colocou-se abertamente contra a democracia,

apresentando-se como uma alternativa à democracia.

A teoria liberal clássica:

parte do reconhecimento de uma pluralidade de sujeitos individuais autônomos e supõe [...] que os interesses plurais de tais sujeitos serão automaticamente harmonizados e coordenados: a mística ‘mão invisível’ de Adm Smith se encarregaria de fazer com que a máxima explicitação dos interesses egoístas individuais desembocassem no aumento do bem estar geral (COUTINHO, 1979, p. 39).

O Estado liberal caracterizava-se pela sua crença na propriedade privada, na

capacidade individual de alcançar o progresso. A liberdade dos indivíduos era entendida como

a capacidade de possuir e usufruir de bens materiais, inclusive o direito de participar das

decisões políticas, através do voto, estava restrita aos indivíduos que dispunham de

propriedade privada ou aos que pagavam uma determinada quantia em impostos

(COUTINHO, 2003). Assim, nos primeiros regimes liberais o direito ao voto estava restrito a

uma parcela muito pequena da população. A conquista de direitos sociais como a fixação

legal da jornada de trabalho e o voto universal, foram alcançados através da luta dos

movimentos operários que tiveram início na Inglaterra no século XIX. Segundo Coutinho

(2003), a conquista destes direitos sociais podem ser considerados “vitória da democracia

contra o liberalismo. Mais que isso: [uma] conquista da classe trabalhadora” (p. 15).

Outros direitos políticos também negados pelos primeiros regimes liberais eram a

organização sindical e o direito de greve, por serem contrários às leis do mercado. De acordo

com Coutinho, apenas nos anos 1870 do século XIX é que esses direitos foram conquistados

na França. E, assim, progressivamente os regimes liberais foram sendo pressionados a

assimilar alguns direitos de cidadania que não faziam parte do ideário liberal, mas eram,

claramente, demandas democráticas (COUTINHO, 2003). De acordo com o autor: “no século

XX, sobretudo, a partir dos anos 1930 o liberalismo assume a democracia e passa a

defendê-la, mas reduzindo-a e minimizando-a, empobrecendo suas determinações, concebendo-a de

modo claramente redutivo” (COUTINHO, 2003, p. 11).

A ideologia social-liberal que embasa as políticas dos Estados capitalistas modernos

congrega o conceito de democracia assimilado pelo liberalismo, limitando as suas

potencialidades, reduzindo-as a formalidades, conforme afirma Coutinho (2003). Por isso,

quando a Reforma do Estado brasileiro de 1995, afirma se colocar a favor da democracia, é

preciso ter clareza de que o conceito de democracia presente no Plano Diretor é o da ideologia

social-liberal e não necessariamente a democracia defendida pelos movimentos sociais dos

anos 1980 e que se faz presente na Constituição Federal de 1988.

Em relação a essa questão podemos destacar a análise realizada por Evelina Dagnino

(2004a; 2004b) sobre a sociedade brasileira da década de 1990. A autora afirma a ocorrência

de um processo de ressignificação dos princípios que nortearam a construção da democracia

no Brasil especialmente nos anos 1980 no período pós-ditadura militar e que culminaram na

conquista de diversos direitos sociais, garantidos na Constituição Federal de 1988, chamada,

por esse fato, de Constituição Cidadã.

Na visão da autora, todo esse movimento pela construção da democracia no Brasil

apontava para a existência, de uma sociedade civil, forte e organizada, que despontava após

um longo período de regime autoritário. Na década de 1990, os princípios neoliberais, na

medida em que se materializaram no Brasil, acabaram encontrando-se com as barreiras

impostas pelos movimentos sociais que lutavam por democracia. Então, de um lado tínhamos

uma sociedade civil organizada, que lutava pela ampliação da participação popular

especialmente na tomada de decisões e na conquista dos direitos sociais e de outro lado, o

projeto neoliberal de sociedade que buscava a diminuição do Estado e a limitação de suas

funções sociais, que, apesar disso também se dizia democrático. Esse confronto e a

ressignificação, principalmente, das noções de sociedade civil, participação e cidadania pelo

projeto neoliberal, Dagnino (2004b) chama de “confluência perversa” (p. 147).

A redefinição do papel da Sociedade Civil, segundo Dagnino (2004b) fica evidente

com o crescimento e com o novo papel desempenhado pelas Organizações

não-governamentais (ONG), o surgimento do chamado terceiro setor e a marginalização dos

movimentos sociais. Segundo a autora: “o resultado tem sido uma crescente identificação

entre “sociedade civil” e ONG, onde o significado da expressão “sociedade civil” se restringe

cada vez mais a designar apenas essas organizações, quando não em mero sinônimo de

‘terceiro setor’” (DAGNINO, 2004b, p. 149).

As ONG, por serem, aparentemente, portadoras de competência técnica e ampla

inserção na sociedade, na visão de Dagnino (2004b), são vistas como parceiras ideais pelos

diferentes setores do Estado “empenhados na transferência de suas responsabilidades para o

âmbito da sociedade civil” (DAGNINO, 2004b, p.149).

Na visão da autora:

O predomínio maciço das ONGs expressa, por um lado, a difusão de um paradigma global que mantém estreitos vínculos com o modelo neoliberal, na medida em que responde às exigências dos ajustes estruturais por ele determinados. Por outro lado, com o crescente abandono de vínculos orgânicos com os movimentos sociais que as caracterizava em períodos anteriores, a autonomização política das ONGs cria uma situação peculiar na qual essas organizações são responsáveis perante as agências internacionais que as financiam e o Estado que as contrata como prestadoras de serviços, mas não perante a sociedade civil, da qual se intitulam representantes, nem tampouco perante os setores sociais de cujos interesses são portadoras, ou perante qualquer outra instância de caráter propriamente público (DAGNINO, 2004b, p.150).

Nessa relação entre Estado e ONG acontece de forma evidente que a autora chama de

“confluência perversa” uma vez que o papel da sociedade civil se resume na execução de

algumas tarefas que antes eram do Estado sem, contudo, representar os interesses dos que são

beneficiários dos seus serviços. Nessa parceria entre Estado e sociedade civil há um

esvaziamento do sentido político que constituía a base dos discursos dos movimentos sociais.

Outro elemento central no processo de construção da democracia no Brasil e que

assume novo sentido junto com o conceito de sociedade civil é a noção de participação, que se

desloca para a ideia de uma “participação solidária”, do trabalho voluntário e da

responsabilidade social de indivíduos e empresas (DAGNINO, 2004b, p. 151). Na visão da

autora, a participação passa a ser entendida num sentido privatista e individualista,

substituindo o sentido coletivo da participação social. Junto com esse novo sentido, a

participação passa por um processo de despolitização, uma vez que perde o sentido do debate

e da discussão conjunta, para individualizar-se. Outra situação na qual fica evidente a

despolitização da participação da sociedade civil na formulação das políticas públicas, de

acordo com Dagnino (2004b) é que a maioria dos espaços abertos para a participação da

sociedade civil se resumem em “assumir funções e responsabilidades restritas à

implementação e a execução de políticas públicas, provendo serviços antes considerados

como deveres do Estado, do que compartilhar o poder de decisão quanto à formulação dessas

políticas” (DAGNINO, 2004, p. 152).

Juntamente com a ressignificação das noções de sociedade civil e participação, o

conceito de cidadania também adquire novo sentido no projeto neoliberal de sociedade,

constituindo elemento central na mudança. De acordo com Dagnino (2004b) a conquista da

cidadania “foi frequentemente definida por aqueles que lutavam por ela como sendo o próprio

processo de constituição de sujeitos sociais ativos (agentes políticos) definindo coletivamente

o que consideram ser seus direitos e lutando para seu reconhecimento como tais”

(DAGNINO, 2004b, p. 154). Assim, a cidadania possuía um sentido fundamentalmente

político, de ampliação dos espaços de participação e de tomada de decisões.

No contexto de redefinição do papel do Estado e da diminuição da sua

responsabilidade na garantia dos direitos sociais, o mercado passa a regular a garantia desses

direitos. Assim, por exemplo:

Os direitos trabalhistas estão sendo eliminados em nome da livre negociação entre patrões e empregados, da “flexibilidade” do trabalho, etc., e os direitos sociais garantidos pela Constituição Brasileira desde os anos 40, eliminados sob a lógica de que eles constituem obstáculos ao livre funcionamento do mercado, restringindo assim o desenvolvimento e a modernização (DAGNINO, 2004b, p. 156).

Na década de 1990, os encargos sociais do Estado constituem um empecilho para a

inserção do país na economia mundial, sendo necessária a sua redefinição e a regulação

desses serviços pelo mercado como forma de alavancar a economia e promover o progresso

do país. Essa redefinição do papel do Estado implicou no processo de privatização de

empresas estatais, uma das principais marcas do governo Fernando Henrique, e a um novo

direcionamento na gestão das políticas sociais.

1.8 Os governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula em relação às políticas sociais