5 RESSIGNIFICAÇÃO HERMENÊUTICA DO ARTIGO 234 DO
5.1.4 Sujeito passivo
5.1.4.1 O titular do bem jurídico como sujeito consenciente
5.1.4.1.3 Pressupostos de validade
Certos pressupostos devem ser verificados a fim de que o consentimento do sujeito
passivo seja eficaz à exclusão do tipo.
De início, cabe destacar que nada impede que o consentimento do titular do bem
jurídico inserto sob proteção penal compareça no tipo objetivo como um seu requisito tácito.
121Aliás, este é um dado frequente na realidade, inclusive na seara do direito penal sexual.
122Ultrapassada essa premissa, releva enunciar que a aplicação da figura do
consentimento jurídico-penal subordina-se à indeclinável reunião de uma série de pressupostos,
que se sugere sejam divididos em duas classes complementares, “requisitos positivos” e
“condições negativas”. Inserem-se no primeiro grupo: i) a natureza do bem jurídico; ii) a
capacidade para consentir do titular do bem jurídico; iii) o momento de expressão do
consentimento; iv) a forma de expressão do consentimento. Já as condições negativas do
consentimento dizem sobre a ausência de vícios que interferem na formação da vontade do
“consentimento”, para os citados penalistas, ambos os institutos sempre excluem, embora sob diferentes aspectos, unicamente a tipicidade.
119 Sob esse mesmo formato, cf. a terminologia proposta por Roxin (Derecho penal..., t. I, p. 517). Para além da
nomenclatura afeta à natureza jurídica do instituto, Jescheck e Weigend apontam, como “importantes” autores que concebem o consentimento como circunstância excludente do tipo, entre outros: Eser/Burkhardt, Armin Kaufmann, Kientzu, Maurach, Göbel, Kühne, Roxin, Rudolphi, Sax, Schmidhäuser, Schlehofer, Weigend, Zipf, Wimmer (cf. JESCHECK; WEIGEND. Tratado..., p. 402, nr. 19). Na doutrina nacional, registra Fábio Suardi D’Elia (Tutela penal da dignidade sexual e vulnerabilidade. São Paulo: Letras Jurídicas, 2014. p. 80) que “a teoria de que o consentimento constitui causa de atipicidade da conduta é atualmente a mais difundida na doutrina. Isso porque o estudo voltado ao bem jurídico, que predomina no avanço dos estudos de Direito Penal, conforma a visão da disposição, ou melhor, a liberdade na disposição dos bens, o que interfere diretamente na conformação do tipo objetivo, ensejando a atipicidade da conduta”.
120 A tomada de posição ora anunciada redunda num mesmo locus jurídico prático, i.e., a não aplicação da pena.
“Acordo” ou “consentimento”, percebidos como causas de exclusão da tipicidade ou da antijuridicidade, serão, ambos, em uma perspectiva dogmática mais abrangente, causas de exclusão do injusto: nesse sentido, pontifica Mezger (Tratado... t. I, p. 365-366) que “el consentimiento del ofendido constituye ejemplo clásico de la exclusión del injusto con arreglo al principio de la ausencia del interés. Pues supone el abandono consciente de los intereses por parte del que legítimamente tiene la facultad de disposición sobre el bien jurídico”.
121 Fernando Galvão (Direito penal..., p. 384) registra: “Mesmo nos casos não explícitos, a tipicidade será sempre
excluída quando a elaboração do modelo de comportamento proibido fundamentar-se na vontade contrária da vítima e, diante do consentimento do ofendido, não se materializar à finalidade preventiva da norma.”
122 Cerezo Mir (Derecho Penal: parte general. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais; Lima, PE: ARA Editores,
2007. p. 755-756), assevera: “En la moderna Ciencia del Derecho penal se considera que el consentimiento del portador del bien jurídico excluye ya em algunos casos la tipicidade de la acción o la omisión. Se trata de aquellos tipos en los que aparece como um requisito expreso o tácito, que la acción u omisión se realice en contra o sin la voluntad del sujeto pasivo. Este es el caso, sin duda, cuando el bien jurídico protegido es la libertad individual. […]. En los delitos de agresiones sexuales […] y de abusos sexuales […], el consentimiento excluye el ataque a la libertad sexual y con ello, la tipicidad da conducta.”
titular do bem jurídico, vista desde o plano da autonomia que a fundamenta; assim, o erro, a
fraude e a coação compõem o segundo grupo.
Apresentado esse panorama, compete registrar que o primeiro fator de redução
teleológica do tipo é aquele diretamente implicado com a própria objetividade jurídica tutelada,
pois, para que o sujeito possa renunciar validamente à proteção penal ao bem jurídico de que é
titular, esse mesmo bem deve possuir natureza individual,
123assim como ser disponível.
124É verdade, porém, que a lei não estabelece um rol de infrações penais que indique
quais são os bens jurídicos que podem ser objeto de disponibilidade por parte do titular. Nessa
medida, a racionalidade é ferramenta indeclinável ao encontro das soluções dogmáticas, posto
que demarca as fronteiras invioláveis de legitimação de um direito penal verdadeiramente
democrático. José Henrique Pierangeli — em tópico destinado à distinção entre bens
disponíveis e indisponíveis —, preceitua que o exegeta deve, na análise dos limites do
consentimento, “percorrer não só um ramo do Direito, mas todos os princípios gerais que
formam a base do ordenamento jurídico estatal”,
125bem como “reportar-se a todas as fontes do
direito (imediatas e mediatas), e, a partir daí, examinar os decretos, atos administrativos,
regulamentos, portarias e pesquisar o direito consuetudinário”.
126Esse último confim do dito
percurso investigativo resvala na questão dos “bons costumes”, cogitados, sob determinados
aspectos e dimensionados até certos marcos, como restringentes à validade do consentimento.
Os “bons costumes” (em especial, no plano de comportamentos sexuais,
perquiridos sob uma inadmitida moral global) já não são admissíveis à objetividade jurídico-
penal; logo, não podem, per se, limitar o exercício da liberdade, haja vista a distinção que há
entre direito e moral, sobretudo no grave campo dos delitos e das penas. Oposições à liberdade
são sempre excepcionais, circunscritas às hipóteses estritas e expressamente assinaladas pela
lei: a indiscriminada aplicação do limitador dos bons costumes relativizaria a estrutura basilar
do próprio direito penal comprometido com os fundamentos do Estado Democrático de Direito.
123 Welzel (Derecho penal alemán…, p. 139) é assertivo: “sólo puede consentir aquel que sea titular único del
interés juridicamente protegido.” No mesmo sentido, na doutrina pátria, Alessandra Orcesi Pedro Greco e João Daniel Rassi assinalam que “quando se tratar de bens jurídicos cuja lesão se dirige contra a comunidade, o consentimento restará excluído. [...]. Serão objeto de consentimento os bens jurídicos individuais, excluindo- se, portanto, aqueles coletivos ou difusos, porque não estão à disposição de qualquer titular específico que possa exteriorizar sua vontade, como ocorre, por exemplo, no crime de denunciação caluniosa”. (GRECO; RASSI. Crimes contra a dignidade sexual..., p. 105).
124 Fernando Galvão (Direito penal..., p. 384) acentua que o consentimento que exclui a tipicidade diz respeito a
bens disponíveis. Esse posicionamento abona, na prática, a relevância do bem jurídico na teoria do delito, porquanto impede a separação do bem jurídico de seu titular, dado que poderia, em última análise, levar à negação do próprio conceito de bem jurídico (cf. ZAFFARONI; BATISTA; ALAGIA; SLOKAR. Direito penal brasileiro..., v. 2, p. 237).
125 PIERANGELI. Consentimento..., p. 111. 126 PIERANGELI, loc. cit.
Ao contrário do que ocorre nas codificações penais alemã
127e lusitana,
128os bons costumes
como obstáculos ao exercício do consentimento excludente do injusto sequer constam na ordem
jurídico-penal pátria, motivo pelo qual a questão apresenta-se, entre nós, desvestida de
127 Dita o § 228 do Código Penal Alemão: “Quem pratica lesão corporal com a concordância da pessoa ferida age
de modo ilícito apenas quando a conduta, a despeito da concordância, ofende os bons costumes” (cf. DECOMAIN, Pedro Roberto. Código penal alemão: tradução, comparação e notas. Porto Alegre: Núria Fabris, 2014. p. 277). De início, cabe apontar que, nos expressos termos do citado dispositivo apontado, os bons costumes somente poderiam constituir limites ao consentimento justificante. Além disso, o âmbito da restrição diz respeito somente às lesões corporais. Nesse sentido, Jakobs registra que a limitação dos bons costumes restrita ao âmbito das lesões corporais constitui o entendimento dominante, apontando, para fundamentar a sua anotação, os seguintes autores e respectivas obras: “Berz, GA 1969, p. 145 e ss., 150; Ceppert, ZStW 83, p. 947 e ss., 956 e ss.; Roxin, Einwilligung, p. 34; SK-Samson, n. marginal 45, perante o art. 32; Jescheck, AT, § 34, III, 1, com outras remissões; também Schmitt, Schröder-Gedächtnisschrift, p. 263 e ss” (cf. JAKOBS, Günther. Tratado de direito penal: teoria do injusto penal e culpabilidade. Luiz Moreira, coordenador e supervisor; Gercélia Batista de Oliveira Mendes e Geraldo de Carvalho, tradutores. Belo Horizonte: Del Rey, 2008. p. 625, nr. 359). Vale destacar, ademais, o magistério de Roxin, pois o autor, além de assinalar que a sua opinião é a dominante na atualidade (i.e., aquela que restringe a limitação dos bons costumes à eficácia do consentimento justificante ao âmbito do delito de lesões, sem permitir a sua aplicabilidade a outros tipos), avalia a literalidade e a posição sistemática do aludido preceito, as quais não oferecem, segundo ele, pontos de apoio à analogia em outros casos de consentimento, com ensejo à ampliação da punibilidade (nesse sentido, cf. ROXIN. Derecho penal..., t. I, p. 532); nessa linha, hipóteses de bons costumes que impediriam reconhecimento do consentimento justificante seriam, v.g. e conforme Roxin, as lesões suportadas pelo sujeito passivo que pudessem redundar na sua própria morte, ou as que objetivassem frustrar obrigações militares, ou as que visassem ao recebimento de seguro, ou, ainda, as que levassem a um aborto, cujas manobras fossem permitidas a um curandeiro (cf. Ibidem, p. 530). No mesmo sentido, Polaino-Orts se posiciona contrariamente à interpretação ampliativa do citado dispositivo: de acordo com esse doutrinador, “os autores que defendem uma aplicação da cláusula restritiva da liberdade de autonomia individual mais além dos limites que marca o § 228 StBG se baseiam em uma interpretação extensiva desse parágrafo de forma não convincente, já que supõem uma limitação da liberdade de disposição de bens jurídicos pessoais, que também constitui uma analogia ampliadora in malam partem, que, duvidosamente, se pode considerar constitucional”. (cf. apud GRECO; RASSI. Crimes contra a dignidade sexual..., p. 103, nr. 109).
128 O Código Penal Português reconhece que o consentimento opera como causa justificante, conforme estabelece
o seu art. 38, 1, assim redigido: “Além dos casos especialmente previstos na lei, o consentimento exclui a ilicitude do facto quando se referir a interesses jurídicos livremente disponíveis e o facto não ofender os bons costumes.” Sobre essa cláusula, comenta Jorge de Figueiredo Dias (Direito penal: parte geral: tomo I: questões fundamentais: a doutrina geral do crime. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais; Portugal: Coimbra Editora, 2007. p. 481) que, “com ela, se não quer remeter para a contrariedade à moral do fato consentido nem — ainda menos — do consentimento como tal, parece absolutamente seguro. Pode acreditar-se que na origem da exigência tenha estado a oposição do sentimento comunitário dominante a certas práticas sexuais, nomeadamente a prática de sadomasoquistas e análogas, bem como a intervenções do tipo da esterilização ou interrupção consentida da gravidez. Mas, perante a função própria da intervenção penal no contexto social democrático, laico e pluralista, não pode mais ser esse o seu entendimento”. Desta feita, o autor considera que fatos consentidos constituem ofensas aos bons costumes sempre que (mas só quando) eles possuírem gravidade e, sobretudo, irreversibilidade que ultrapassem, segundo valorações assentadas pela própria lei, os interesses do consenciente; exemplos de consentimento ineficaz por ofensa aos bons costumes seriam aqueles que recaem sobre a disposição da própria vida e da integridade corporal em mutilações que não sejam simples e passageiras: com isso, o renomado penalista português pontua que, nesse mesmo âmbito, a cláusula dos bons costumes assume e praticamente esgota o seu relevo. (cf. Ibidem, p. 481-482). Ainda no Código Penal lusitano consta: “Art. 149. (Consentimento): 1 – Para efeito de consentimento a integridade física considera-se livremente disponível. 2 – Para decidir se a ofensa ao corpo ou à saúde contraria os bons costumes tomam-se em conta, nomeadamente, os motivos e os fins do agente ou do ofendido, bem como os meios empregados e amplitude previsível da conduta.” Diante do preceito, sobre os “bons costumes”, pontua Marine Carrière de Miranda (Reflexos da vitimodogmática..., p. 97) que “a sua aplicação, na realidade, limita-se à integridade física”.
perplexidades: o próprio princípio da proibição da analogia em matéria punitiva resolve-a muito
bem, com acento no entendimento pro libertate.
129Notabilizado desde esse prisma, o consentimento jurídico-penal evidencia a sua
implicação com o primado de autorrealização da pessoa,
130cuja autonomia merece ser
dignificada até as divisas da autodeterminação alheia.
131A reboque disso, emerge o segundo
requisito à validade do consentimento, pois o diagnóstico de sua eficácia demanda a certeza de
que o titular do bem jurídico compreende o sentido e as consequências da vontade por ele
exteriorizadas, em cuja base está a exigência de uma integral capacidade de discernir a natureza
e o alcance da renúncia à tutela penal.
132O terceiro requisito é de ordem cronológica: nada obstante divergência doutrinária
a respeito, entende-se que o consentimento deve ser expresso em momento anterior ou pelo
menos simultâneo à conduta,
133mas sempre antecedente à produção do resultado.
134Essa
tendência, longe de desmerecer respeitáveis opiniões em sentido contrário,
135é a que melhor se
harmoniza com as balizas de um direito penal alicerçado na ultima ratio.
O quarto e último requisito positivo à validade do consentimento diz respeito à sua
forma, que não depende de qualquer solenidade, podendo ser expressa ou tácita,
136embora deva
sempre se manifestar de maneira concludente.
137Não há necessidade, pois, que o consentimento
seja o resultado de uma anunciada vontade, nos moldes preconizados pela teoria do negócio
jurídico.
138Isso não quer dizer, porém, que o critério apontado por Mezger — o consentimento
129 De toda sorte, insista-se: os bons costumes poderiam limitar a eficácia do consentimento justificante. No
entanto, a linha dogmática que, por todos os motivos já expostos, figura mais consentânea ao direito penal como expressão da ultima ratio é a que considera o consentimento (sinônimo de acordo) como causa de exclusão do tipo. Assim, a alusão quanto ao apontado limite serve de registro à pesquisa, mas não comparece como obstáculo à aplicação do consentimento do ofendido na perspectiva temática da dissertação.
130 “Se a relevância do consentimento advém do respeito pelo valor da autorrealização pessoal, só a pessoa
(individual, em regra, mas podendo também tratar-se de pessoa coletiva, quando ela seja titular de um interesse juridicamente relevante lesado pela conduta: [...]), pode prestar de forma eficaz o seu consentimento” — conforme observa Jorge de Figueiredo Dias (Direito penal..., t. I, p. 479). Seja como for, não custa demarcar: a “sociedade” e/ou a “coletividade” não são, a rigor, pessoas coletivas, em acepção dogmático-penal: de logo, vê-se que lhes falta até mesmo personalidade jurídica e, bem por isso, podem ser, no máximo, reconhecidas como entidades político-sociológicas que servem de contraponto à indicação da pessoa humana individual.
131 Stratenwerth (Derecho penal…, v. 1, p. 129) pondera que “una desconsideración respecto de la
autodeterminación ajena queda sin efecto por obra del consentimiento”.
132 Sobre a aptidão em consentir, Cerezo Mir (Derecho Penal…, p. 758) a concebe como “la capacidad para
comprender el sentido y trascendencia de la resolución de voluntad en relación con el bien jurídico protegido”.
133 Também adepto da validade do consentimento simultâneo à realização da conduta, cf. Cerezo Mir (loc. cit.).
No mesmo diapasão, a posição de Marine Carriére de Miranda (Reflexos da vitimodogmática..., p. 78) ao aduzir que “o consentimento deve ser anterior ou, pelo menos, simultâneo à conduta do agente de ação consentida”.
134 Nesse sentido, cf. MEZGER. Tratado..., t. I, p. 270.
135 Nessa esteira, cf., v.g., o escólio de Fernando Galvão (Direito penal..., p. 385): “O consentimento não precisa
ser expresso, mas é necessário que exista anteriormente ao início da conduta”.
136 Nesse sentido, cf. CEREZO MIR, loc. cit.; TAVARES. Fundamentos..., p. 247; MIRANDA, op. cit., p. 79. 137 Para Roxin (Derecho penal..., t. I, p. 533): “Basta un consentimiento mediante una acción concluyente.” 138 Ibidem, p. 534.
não precisa ser declarado, porquanto à sua verificação “es suficiente que exista en el ofendido
como dirección de su voluntad”
139— possa ser irrestritamente acolhido.
140É que essa
concepção, adstrita à ambiência puramente anímica do consenciente, não traduz níveis de
aferição seguros, pois, conforme acentua Roxin, “un pensamiento no manifestado no es
expresión de la voluntad y, por falta de comprobabilidad, no es adecuado para vincular
consecuencias jurídicas al mismo”.
141Diante desse quadro, a visão da “teoria intermediária”,
encampada pelo Professor catedrático da Universidade de Munique, figura juridicamente
segura e suficiente: não exige que o titular do bem jurídico expresse a renúncia da proteção
penal por palavras ditas ou escritas,
142mas assinala que o consenso possa ser, por qualquer
meio, apreensível de seu comportamento.
Ademais, urge sublinhar que “não é necessário que o consentimento seja declarado
frente a quem atua”,
143uma vez que, consoante frisa Cerezo Mir, “el consentimiento excluye
en estos casos la tipicidad de la conducta, aunque no fuera conocido por el sujeto activo del
delito”.
144Por fim, cabe o registro de que o consentimento é livremente revogável, mas, para
tanto, já não basta a pura mudança de vontade interna, sendo exigível a manifestação exterior
que a demonstre.
145No que tange às condições negativas de validade ao consentimento jurídico-penal,
Fernando Galvão sintetiza que,
nos casos de consentimento para fato doloso, a manifestação de vontade do ofendido só é válida se consciente das consequências da ação consentida. O consentimento válido é somente aquele que decorre da perfeita compreensão da situação fática. O ato de consentir é apenas válido se não for influenciado por erro, fraude ou coação.146
139 MEZGER. Tratado..., t. I, p. 367.
140 Embora Roxin (Derecho penal…, t. I, p. 534) admita a hegemonia do entendimento, para os casos de acordo. 141 ROXIN, loc. cit.
142 “No es preciso que eso ocurra mediante palabras, pero se debe desprender de la reacción de la víctima”,
consoante ensina Roxin (loc. cit.).
143 GRECO; RASSI. Crimes contra a dignidade sexual..., p. 108.
144 CEREZO MIR. Derecho Penal..., p. 760. A posição que atribui a toda aprovação eficaz do portador do bem
jurídico o efeito excludente do tipo repercute no plano subjetivo do agente, pois, mesmo que este não conheça a aquiescência do sujeito passivo, no “acordo”, a conduta é atípica, ao passo que, no consentimento justificante, o seu conhecimento por parte do autor é requerido (cf., nesse sentido, PIERANGELI. Consentimento..., p. 111). De fato, a concepção ora apresentada no corpus do texto desta dissertação, melhor se ajusta à realidade do art. 234 do CP, pois não faz mesmo sentido que o artista, o galerista, o diretor etc. — que, no mais das vezes, não têm contato individual com as pessoas que fruem de suas obras — conheçam o consentimento daqueles que, diante das invenções por eles publicadas, aquiescem com os temas, formas e conteúdos que nelas constam.
145 Nesse sentido, cf. ROXIN, op. cit., p. 535. 146 GALVÃO. Direito penal..., p. 385.
Considerados os limites desta pesquisa, basta destacar que as condições negativas
de validade ao consentimento jurídico-penal possuem um denominador teleológico comum:
aquele que está a dispor da proteção do bem jurídico não pode ser impedido de formar
livremente, e por inteiro, a compreensão sobre a afetação do interesse de que é portador.
Destarte, a fim de que possa exercitar o consentimento de forma eficaz, o sujeito
passivo deve contar com informações claras disponibilizadas pelo sujeito ativo, nas quais nada
de relevante lhe venha a ser omitido ou distorcido e, muito menos, imposto mediante ameaça
ou violência. Quaisquer dessas circunstâncias tornam viciada
147a liberdade do sujeito passivo:
dela privado, desintegram-se as condições necessárias à formação da própria vontade, essencial
ao consentimento.
De fato, ninguém consente com aquilo que não lhe foi posto a exatamente
compreender (erro), com aquilo que lhe foi objeto de engano (fraude) ou com aquilo que lhe
comprometeu a capacidade de resistência (vis corporalis ou compulsiva atuantes em detrimento
do respeito à autonomia).
Logo, para que tenha a eficácia excludente da tipicidade,
148a decisão de consentir,
empenhada pelo sujeito passivo, jamais pode revelar que ele: i) não era detentor da plena
compreensão quanto aos elementos do tipo; ii) apesar de possuir esse conhecimento, não
exercitou livremente a vontade de renunciar à proteção do bem jurídico de que é portador.
Em arremate, é importante considerar que, ainda subordinado à totalidade dos
pressupostos supraelencados, o consentimento poderá ser prestado “pelo curador ou tutor do
incapaz, sempre que se trate de bens acerca dos quais esteja em posição de garantidor”.
149147 Observam Zaffaroni, Nilo Batista, Alejandro Alagia e Alejandro Slokar (Direito penal brasileiro..., v. 2, p.
241) que “a vontade de quem aquiesceu não deve estar viciada, ou seja, requer-se no aquiescente uma plena capacidade de compreensão da situação e que não intervenham fraude, violência, coação ou erro”.
148 Segundo Alessandra Orcesi Pedro Greco e João Daniel Rassi (Crimes contra a dignidade sexual..., p. 104), “a
exclusão do tipo se dá com a ocorrência do consentimento eficaz, já que não há desvalor do resultado e, com isso, o desvalor da ação. Até porque, na maioria das vezes, o titular se beneficia com a ação consentida que, no mais, é socialmente normal e aceita pela sociedade. Da mesma forma, ainda que a ação consentida não provoque um bem-estar no titular do bem jurídico ou não esteja no âmbito do que geralmente é aceito, não há que se falar