ANÁLISE DE DANO
5.5 Previsão da vida à fadiga com base no modelo de Kanvinde-Deierlein
Ao contrário do modelo proposto por Coffin-Manson, o modelo proposto por Kanvinde e Deierlein (modelo KD) [5-6] resulta de uma evolução dos modelos de dano plástico propostos para solicitações monotónicas, baseados no crescimento de microvazios. O efeito de um carregamento cíclico, provoca uma alternância positiva e negativa da triaxilidade nas regiões críticas dos componentes. Tal alternância de sinal provoca um crescimento ou contração dos microvazios. A partir da análise elasto-plástica, realizada
equivalente e a triaxilidade, ambas presentes nas equações do modelo de KD apresentadas na revisão bibliográfica, no Capítulo 2. Através dos valores da triaxilidade e a deformação plástica equivalente obtidos com uma simulação por elementos finitos, realizada no Capítulo 4, foi possível identificar os pontos críticos para os provetes lisos e entalhados. Tal iniciação de fendas dá-se onde a deformação plástica equivalente acumulada e triaxilidade são máximas, no entanto a deformação plástica equivalente acumulada é proporcional ao número de ciclos de rotura.
A evolução do dano durante o carregamento cíclico é condicionada pelo comportamento de duas variáveis, o índice de crescimento de microvazios cíclico (ICVcíclico) e o índice de crescimento de microvazios cíclico crítico (ICVcíclicocrítico) (Equações 2.51 e 2.53). O índice de crescimento de microvazios cíclico depende de dois parâmetros que foram determinados experimentalmente por Pereira [7], nomeadamente o índice crítico de microvazios monotónico (ICVmonotónicocrítico ) e a constante O índice crítico de microvazios monotónico foi obtido através da média de resultados de quatro séries de provetes testados experimentalmente, a partir de ensaios monotónicos de tração, ver Tabela 5.5 [7]. O parâmetro é determinado a partir do ajuste de uma função exponencial, à distribuição dos pontos experimentais resultantes da conjugação de ensaios monotónicos e cíclicos, representados num gráfico razão do (ICVcíclicocrítico)/ (ICVmonotónicocrítico )
versus deformação plástica equivalente acumulada, como ilustrado nas Figuras 5.15 e
5.16 [7]. Como se pode ver na Figura 5.16, o parâmetro não apresenta um valor constante para cada tipo de geometria. Como tal foi definido um novo sendo este determinado de uma função exponencial que resultou do ajuste do parâmetro da Figura 5.16 com a deformação de fratura monotónica desses provetes, Figura 5.17.
Figura 5.15 - Ajuste da função de dano proposta por Kanvinde e Deierlein [7].
Figura 5.16 - Ajuste da função de dano, proposto por Kanvinde e Deierlein tendo em conta uma separação dos provetes por geometrias [7].
A rotura ocorre quando se verifica a seguinte condição, ICVcíclico ICVcíclicocrítico. Como estamos perante um carregamento cíclico harmónico simétrico, optou-se pelo cálculo da resposta do ICVcíclico para um número reduzido de ciclos e extrapolar a mesma para o número de ciclos desejado, a fim de diminuir a acumulação de erros aquando da resolução do integral presente na Equação (2.51). A evolução do dano no ponto crítico do provete entalhado, com deslocamento imposto de 35 mm, encontra-se ilustrada na Figura 5.18. Tal evolução permitiu determinar o número de ciclos para a rotura. Este procedimento foi repetido para todos os provetes testados. Na Tabela 5.10 estão presentes os valores da vida à fadiga obtidos segundo o modelo de KD original e modificado, assim como os valores médios da vida à fadiga experimentais. Na Figura 5.19 está presente a relação entre as previsões segundo o modelo KD e os resultados obtidos via experimental.
Figura 5.18 – Evolução do dano no ponto crítico do provete ULCF_BEND-13.
Tabela 5.10 – Valores da vida a fadiga médios obtidos experimentalmente e segundo o modelo de Kanvinde-Deierlein.
Provetes
lisos Provetes entalhados
Deslocamento 150 100 70 50 35 25 Ni Médio experimental 116 7 12 16 37 105 Ni KD original 169 12 20 30 48 - Ni KD modificado 153 12 18 28 44 -
Figura 5.19 - Número de ciclos experimentais para os diferentes provetes versus número de ciclos segundo a previsão de Kanvinde-Deierlein.
Tendo sido detetados possíveis problemas com o ensaio do provete entalhado sujeito à gama de deslocamento de 35 mm, optou-se por não incluir este resultado na análise realizada com o modelo de Kanvinde e Deierlein. A análise das previsões mostra que ao contrário dos outros modelos de dano analisados neste capítulo, o modelo de Kanvinde- Deierlein tende a sobrestimar a vida à fadiga, caindo grande parte das previsões fora da gama de precisão de ±25% da vida experimental média.
5.6 Conclusões
Neste capítulo foram aplicados 4 modelos de dano na previsão da vida à fadiga dos provetes lisos e entalhados submetidos a ensaios de dobragem cíclica. Os modelos selecionados foram escolhidos de entre os modelos de dano desacoplado disponíveis atualmente na literatura. Em particular, foram escolhidos os modelos de Coffin-Manson, Tateishi, Xue e Kanvinde-Deierlein. Estes modelos foram identificados usando resultados experimentais obtidos por Pereira [7] e foram testados com os resultados propostos no presente estudo.
A análise de resultados permitiu concluir que os modelos de Coffin-Manson e Xue se apresentaram como adequados para a previsão dos resultados experimentais. Com efeito, ambos os modelos produziram previsões muito satisfatórias, dentro das margens de precisão habituais para previsões de fadiga. No entanto, importa referir que o sucesso de tais previsões se deveu exclusivamente ao facto de os modelos terem sido identificados com resultados de fadiga no domínio oligocíclico extremo. Com efeito, a utilização de resultados experimentais no domínio de fadiga oligocíclica, realizados em provetes lisos, na identificação das constantes do modelo de Coffin-Manson, conduziu a previsões excessivamente conservadoras. A realização de ensaios de fadiga no domínio da fadiga oligocíclica extrema é normalmente facilitada usando provetes entalhados pois evita os problemas de instabilidade devido à concentração de deformação. Assim, é necessário usar uma definição multiaxial de deformação.
Enquanto o modelo de Coffin-Manson apenas tem em conta o efeito da geometria através da definição de deformação equivalente usada, o modelo de Xue usa uma deformação equivalente assim como uma deformação de fractura que tem em conta a triaxilidade/geometria do detalhe.
As previsões baseadas com o modelo de Tateishi mostraram ser ligeiramente mais conservadoras do que as propostas com o modelo de Coffin-Manson. Com efeito, o modelo de Tateishi tem por base o modelo de Coffin-Manson, distinguindo-se deste apenas para resultados de vida à fadiga muito curtos. Este modelo recorre ao parâmetro
quando se tratam de geometrias entalhadas. A aplicação do modelo revelou previsões ligeiramente mais conservadoras do que as propostas por Coffin-Manson.
Finalmente, o modelo de dano proposto por Kanvinde e Deierlein mostrou ser o menos conservador, mesmo usando uma correção do parâmetro de dano como proposto por Pereira [7]. A análise de dano foi realizada neste caso extrapolando a resposta cíclica dos provetes, tendo por base os primeiros dois ciclos simulados. No entanto, pequenas oscilações na resposta cíclica podem resultar no final em previsões da vida à fadiga muito distintas, pois o dano é calculado com base num integral de uma função da triaxilidade ao longo de toda a história de deformação plástica.
Em suma, a utilização dos modelos propostos quer por Coffin-Manson, quer por Xue resultam em boas previsões desde que estes modelos sejam identificados convenientemente com resultados no domínio da fadiga oligocíclica extrema.
5.7 Referências bibliográficas
[1] Coffin Jr LF. (1962) “Low cycle fatigue – a review.” Appl Mater Res, 1(3):129–41.
[2] Manson SS. (1954), “Behavior of materials under conditions of thermal stress.” Technical Report NACA-TR-1170, National Advisory Committee for Aeronautics.
[3] Tateishi K., Hanji T., Minami K., (2007). “A prediction model for extremely low cycle fatigue strength of structural steel.” International Journal of Fatigue, 29(5):887– 96.
[4] Xue L., (2007). “A unified expression for low cycle fatigue and extremely low cycle
fatigue and its implication for monotonic loading.” International Journal of Fatigue,
30:1691–1698.
[5] Kanvinde, A.M., Deierlein, G.G., (2007). “Cyclic void growth model to assess ductile fracture initiation in structural steels due to ultra‐low cycle fatigue”, Journal of Engineering Mechanics, 133(6): 701‐712.
[6] Kanvinde, A.M., Deierlein, G.G., (2004). “Micromechanical simulation of earthquake‐induced fracture in steel structures.” Technical Rep. 145, John A. Blume Earthquake Engineering Center, Stanford University, CA, USA.
[7] Pereira, J.C.R., Xavier, J.M.C., de Jesus, A.M.P., Fernandes, A.A., (2014). “ULCF
Fatigue Beahaviour of Pipeline Steels” XIV Portuguese Conference on Fracture,
University of Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal.
[8] Coffin, Jr. L.F., (1954). “A study of the effects of cyclic thermal stresses on a ductile
metal.” Transactions of the American Society of Mechanical Engineers, 76:931–50.
[9] Coffin, Jr. LF., (1971). “A note on low cycle fatigue laws.” Journal of Materials JMLSA, 6(2):388–402.