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Primeira parte do discurso: homem natural

1.1. Jean Jacques Rousseau

1.1.2. Primeira parte do discurso: homem natural

Rousseau (2005) parte de dois princípios básicos para defender sua ideia do homem natural: como um ser solitário, possuindo o instinto de autopreservação, dotado de sentimentos de compaixão por outros de sua espécie, e dispondo da razão apenas potencialmente. Essa posição de Rousseau sobre o homem natural vai contra a tese de Hobbes1, e de outros que tratam do mesmo assunto, mas que enxergavam o homem natural a partir da visão do homem social (o homem do homem).

Escreve Rousseau 1755/2005, p. 188;

Não vamos, concluir com Hobbes que, por não ter a menor ideia da bondade, o homem seja naturalmente mau; que seja vicioso por não conhecer a virtude; que sempre recuse aos seus semelhantes favores que não crê dever-lhes; nem que, em virtudes do direito, que se atribui com razão, às coisas de que necessita, imagine loucamente ser o único proprietário do universo. Hobbes viu muito bem o defeito de todas as definições modernas do direito natural; mas, as consequências que tira da sua mostram que a toma em um sentido que não é menos falso.

Essa posição decorre da ideia que o autor tem do homem natural, considerando-o como um ser solitário e com instintos de autopreservação. Nos relatos sobre o estado do homem primitivo, prevê a sua sobrevivência na floresta, com todas as diversidades, a busca pela comida para saciar sua fome e a água para saciar sua sede. Para Rousseau, o amor de si mesmo é um sentimento que leva todo animal a velar pela própria conservação e que, no homem dirigido pela razão e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. Com essas posições, Rousseau se coloca contra Thomas Hobbes, que proclama a não consciência da bondade no ser humano.



1 Hobbes quis fundar a sua filosofia política sobre uma construção racional da sociedade, que permitisse explicar o poder absoluto dos soberanos. A justificativa de Hobbes é que o ser humano não tem consciência da bondade; seria, no estado de natureza, naturalmente mau. O que Hobbes admite é a existência do pacto social.

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Na situação primitiva, os homens não teriam entre si nenhuma espécie de consciência de relação moral e nem de deveres conhecidos, não podiam ser bons nem maus, nem tinham vícios ou virtudes. Ainda para Rousseau, vícios ou virtudes, na consciência primitiva, deveriam ser entendidos em um sentido físico: chamam-se vícios, no indivíduo, as qualidades que podem prejudicar a sua própria conservação, e virtudes as que podem contribuir para essa conservação. Nesse caso, seria preciso chamar de mais virtuoso aquele que menos resistisse aos simples impulsos da natureza.

Nesse processo de autopreservação, são apreciadas as doenças, que Rousseau considera como temíveis inimigos dos quais não temos como nos defender:

[...] são as enfermidades naturais, a infância, a velhice e as doenças de toda espécie, tristes sinais de nossa fraqueza, os dois primeiros comuns a todos os animais e o último pertence principalmente ao homem que vive em sociedade. (ROUSSEAU, 2005, p.167)

O homem tem consciência do seu estado de saúde e bem-estar, mas também tem o sentimento de tristeza, comum ao homem que vive em sociedade. A vida social do homem natural tem suas raízes, quando as suas ideias começaram a se estender e a se multiplicar, e se estabeleceu entre eles uma comunicação, ainda que estreita e precária. Para tanto, procuraram sinais mais numerosos e uma linguagem mais extensa, multiplicaram as inflexões da voz e lhe juntaram os gestos, que, por natureza, são mais expressivos, dependendo menos o seu sentido de uma determinação interior. Deve-se considerar que os primeiros vocábulos de que os homens fizeram uso tiveram no seu espírito uma significação muito mais extensa e profunda de sentimentos e significados do que hoje os que se empregam nas línguas já formadas, vale dizer, a cada palavra o sentido de uma proposição inteira.

Conforme Rousseau (2005, p. 181), “se os homens precisaram da palavra para aprender a pensar, precisam ainda saber a pensar para descobrir a arte da palavra”. Quando os homens começaram a distinguir o sujeito do atributo e o verbo do nome, os substantivos não passavam, a princípio, de outros tantos nomes próprios, sendo o presente do infinitivo o único tempo dos verbos; e, em relação aos adjetivos, a noção

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não devia ter sido desenvolvida senão muito dificilmente, porque todo adjetivo é uma palavra abstrata, e as abstrações são operações penosas e pouco naturais.

Nessa etapa, digamos que cada objeto recebeu primeiro um nome particular, sem relação com os gêneros e as espécies. Se, por exemplo, um carvalho se chamava A, outro carvalho se chamava B; porque a primeira ideia que se deduz de duas coisas é que elas não são as mesmas; e, em geral, é preciso muito tempo para observar o que têm em comum; de sorte que, quanto mais limitados eram os conhecimentos, tanto mais extenso se tornava o dicionário.

O embaraço de toda essa nomenclatura não pode ser suprimido facilmente, porque, para colocar em ordem os seres sob denominações genéricas e comuns, era preciso conhecer-lhes as propriedades e as diferenças; eram necessárias observações e definições, isto é, a história natural e metafísica, muito mais do que os homens daquele tempo podiam ter.

Assim, a linguagem humana, para Rousseau, teria evoluído pouco a pouco, a partir da necessidade de exprimir os sentimentos, até formas mais complexas e abstratas. Podemos exemplificar com o "grito da natureza", que era usado pelos primeiros homens para implorar socorro no perigo ou como alívio de dores violentas, mas não era de uso comum.

Neste momento com o surgimento da linguagem e a expressão dos sentimentos, o homem, até então no estado em condição animal, diferencia-se dos outros animais apenas pela liberdade e a perfectibilidade, ou seja, a capacidade que o homem possui de aperfeiçoar-se. Nesta primeira parte do discurso da desigualdade, Rousseau estabelece amoralismo moral. No estado natural, segundo Rousseau, o ser humano desenvolve valores. Não há uma convivência social para que se pense na necessidade de regulamentação do comportamento pelo sentimento com que se possa garantir o respeito ao outro, deixando espaço para cada um se firmar como um ser autônomo e moral.

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Cabe aqui uma reflexão, ao indagarmos que o homem natural em seu amoralismo moral sente a necessidade do outro, assim entendendo que a moral constitui um conjunto de normas, princípios e valores que os seres humanos escolhem para si mesmos, e também para os outros. Para que se torne viável o convívio entre si, há de se perguntar pela possibilidade de uma moral, quando pensamos que o ser humano, vivendo isolado, não apresenta ainda a necessidade do outro.

Ficam as questões: O homem natural, vivendo sozinho, não teria possibilidade de avaliar a moral de alguém que ainda não tem consciência dos direitos e dos deveres? Seria possível definir a moralidade para quem ainda não sabe o que são as virtudes?

É necessário, deste modo, buscar a compreensão naquilo que pode ter sido o comportamento do homem natural nesse estado, para que se afirme algo a respeito de uma perspectiva moral em seu caráter, o mais natural possível, ou seja, buscar significados em elementos que expressam a possibilidade de uma moralidade, quando princípios se estabelecem para definir o certo e o errado no convívio com os outros homens e mesmo com a natureza em geral. É importante destacar que, nesse momento de evolução, a regulamentação do comportamento humano, estava sendo constituída, com vistas não somente ao outro de sua espécie, mas a todos os demais seres sensíveis, estando o homem entre estes animais de outras espécies.

Portanto, Rousseau considera que esses elementos que regulam o comportamento humano apontam para a possibilidade de afirmação do direito natural, que não se reduz a uma convenção humana, mas que tem por base o que é inerente à natureza de todo ser dotado de sensibilidade.

Nesse percurso, para explicar o homem natural, Rousseau consegue expor em seus escritos o fato de ser o homem formado de corpo e alma. O amor de si, não sendo uma simples paixão, funda-se em dois princípios que constituem o ser inteligente e o ser sensível.

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Deixando, pois, todos os livros científicos que só nos ensinam a ver os homens tais como eles se fizeram, e meditando sobre a primeiras e mais simples operações da alma humana, creio nela perceber dois princípios anteriores à razão, dos quais um nos interessa ardentemente ao nosso bem-estar e à conservação de nós mesmos e o outro nos inspira uma repugnância natural a ver perecer ou sofrer qualquer ser sensível, principalmente os nossos semelhantes. É do concurso e da combinação que nosso espírito é capaz de fazer desses dois princípios, sem que seja necessário incluir-lhes o da sociabilidade, que me parecem decorrer todas as regras do direito natural; regras que a razão depois vê-se forçada a restabelecer sobre outros fundamentos, quando, por seu desenvolvimento sucessivo, conseguiu sufocar a natureza. (ROUSSEAU 2005, p. 154)

A cada um desses princípios, corresponde um bem-estar. Para o ser sensível, está o apetite que conduz ao homem o bem-estar do corpo; mas para o ser inteligente está o amor pela ordem que conduz o homem ao bem-estar da alma. Quando esse amor se desenvolve pela ordem, o homem toma consciência de si mesmo, fazendo comparações e, por isso, tomando consciência de suas relações.

O primeiro sentimento do homem foi o de sua existência, seu primeiro cuidado, o de sua conservação. As produções da terra lhe forneciam todos os socorros necessários, o instinto levou-o a utilizá-los. Como a fome e outros apetites o faziam experimentar sucessivamente maneiras diversas de existir, houve um que o convidou a perpetuar a espécie; e essa inclinação cega, desprovida de qualquer sentimento do coração, não produzia mais que um ato puramente animal. (ROUSSEAU, 2005, p. 204)

A reflexão a que essa primeira parte do discurso da desigualdade nos leva é sobre o fato de que o homem natural, não conhecendo os valores em seu estado de natureza, seria o mesmo, o do não conhecimento das virtudes e dos vícios? Nesse estado, em que a ausência da moralidade não impossibilitou ao homem natural de ter, hoje no estado civil, uma moralidade que tem origem do estado de natureza, que guardava em si a necessidade de conservação e bem-estar da espécie, ao mesmo tempo em que se compadecia do sofrimento dos outros seres igualmente sensíveis, sobretudo, quando se tratava daqueles da própria espécie. Isto expressa a bondade natural do homem, corrompida no estado civil.

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