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Segunda parte do discurso: homem social

1.1. Jean Jacques Rousseau

1.1.3. Segunda parte do discurso: homem social

Rousseau, no seu segundo momento do Discurso da Desigualdade, descreve que, após muitos anos de convivência naquele primitivo estado natural, os homens passaram a viver uma segunda etapa. Outros sentimentos começaram. O desenvolvimento do amor de si faz com o homem se aproxime mais de uns do que de outros. O amor de um pelo outro é identificado como o desdobramento dessa preferência advinda da aproximação: por força de se verem, não podem mais deixar de se ver.

Os primeiros desenvolvimentos do coração decorreram de uma situação nova que reunia numa habitação comum os maridos e as mulheres, os pais e os filhos. O hábito de viver juntos fez nascer os mais doces sentimentos porventura conhecidos pelos homens, o amor conjugal e o amor paterno. Cada família tornou-se uma pequena sociedade, ainda mais unida por serem o apego recíproco e a liberdade os seus únicos vínculos; foi então que se estabeleceu a primeira diferença de viver dos dois sexos, que até então tinham apenas um. (ROUSSEAU, 2005, p. 208)

Rousseau destaca que a espontaneidade e as disposições naturais do coração humano teriam sido, nesse movimento, substituídas por uma arte de representação de si para os outros. Essa nova civilidade, arte de agradar os outros, tinha como meta padronizar comportamentos e homogeneizar costumes.

O gênero humano viveria, portanto, em uma “enganosa uniformidade” (p. 209), já que todos integrariam um mesmo molde. Os homens se veriam transformados em grupos, todos fazendo as mesmas coisas e fingindo ser o que os outros desejavam que fizessem. Ao seguir o decoro social e a polidez, as pessoas comprariam uma sociedade corrupta e corruptora, sem olhar para si mesmas. O pretenso refinamento dos costumes seria traduzido nos inúmeros vícios coletivos e na perda da simplicidade natural.

Assim, com o processo da instituição familiar e o nascimento da sociedade, teria sido produzida a sociedade civil. Rousseau supõe que o homem, não vivendo mais em harmonia, naquela segunda etapa do estado da natureza, competiria pelos melhores

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frutos da terra. Até que um dia, alguém resolveu cercar um terreno e dizer: “Isto é meu.”, e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditar nele. (p. 221). Naquele momento, concluiu Rousseau, havia terminado o estado de natureza, a instauração da propriedade fundava a sociedade civil. O homem jamais regressaria ao estado natural.

Tal foi ou deve ter sido a origem da sociedade e das leis, que criaram novos entraves para o fraco e novas forças para o rico, destruíram em definitivo a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade, de uma hábil usurpação fizeram uma irrevogável e, para o lucro de alguns ambiciosos, sujeitaram daí para frente todo gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria. Vê-se facilmente como o estabelecimento de uma única sociedade tornou indispensável o de todas as outras e como, para fazer frente a forças unidas, foi preciso unir-se por sua vez. A sociedade se multiplicando ou estendendo com rapidez. [...] Tornando-se assim o direito civil a regra comum dos cidadãos. (ROUSSEAU, 2005, p. 222)

Assim, na sociedade nascida, o homem natural agora ganha o status de homem social; esmagando-se uns contra os outros, os homens criam, então, o primeiro pacto, proposto pelos proprietários, sobretudo, como estratégia de proteção e ordem. Foram instituídos regulamentos para organização da vida coletiva, regulamentos, os quais, em princípio, todos deveriam respeitar e obedecer, dado que, por suposto, a lei deverá proteger os membros da comunidade contra a sempre presente eterna discórdia, fruto das paixões e das desavenças humanas.

O movimento civilizador foi, diz Rousseau, conduzido pela faculdade que o ser humano possui para aperfeiçoar o conhecimento, para transformar o ambiente natural. Essa sociedade civilizada, no entanto, valorizará o luxo, a ostentação, a ganância e a opressão.

As palavras como forte e fraco não conseguem traduzir o conceito do estabelecimento do direito de propriedade e o dos governos políticos. O significado desses termos seria bem mais perfeito se fossem substituídos pelas palavras pobre e rico, porque, com efeito, um homem não tinha, antes das leis, outro meio de sujeitar seus iguais senão assaltando os bens alheios, ou lhes dando uma parte dos seus. (ROUSSEAU, 2005, p. 224)

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Nesse contexto, o homem, vivendo em sociedade, chamará a atenção dos outros. O amor de si será ramificado na ideia de amor próprio. O homem deseja que reparem nele. Procura a estima pública. Surgem aí, então, a vaidade, o desprezo, o orgulho, a vergonha e a inveja. Já se saíra de um estado de felicidade natural. Viva-se agora, como dissera Hobbes2, uma guerra de todos contra todos.

Resumindo, Rousseau no discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens expõe a origem da condição natural e do estado natural do homem, além de esclarecer sobre qual é essa natureza própria do homem que precisa ser levada em conta para se buscar a melhor forma de reunião dos homens numa sociedade. Em condição de membro da natureza, o homem, enquanto obra dela, é por excelência definível como um ser livre. Nenhuma outra qualidade exprime tão bem a sua natureza própria quanto a sua liberdade. Ela é constitutiva dele.

No contexto do mundo natural, ser livre para o homem quer dizer ser autossuficiente e, assim, independente de qualquer outro homem, só dependendo da natureza, que permite sua autossuficiência. Mas, ao contrário do que ocorreria relativamente a um outro homem, essa dependência da natureza nada lhe custa, em nada sacrifica sua liberdade. Sendo livre e autárquico, o homem não precisa de seu semelhante.

A insociabilidade é o segundo movimento do homem natural, a sociedade trará para ele um elemento novo, até então desconhecido: a dependência dos semelhantes, uma vez que o estado de sociedade se caracteriza, sobretudo, pela dependência mútua, esta inicialmente econômica e material. Em sociedade, quando o homem deixa de ser autossuficiente, ele necessita do auxílio dos demais para poder sobreviver. Não havendo para ele a possibilidade de retorno à vida na condição anterior, ver-se-á compelido, a fim de sobreviver, a se associar aos outros e formar com eles a sociedade.



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A obra de Hobbes, Leviatã (publicada em 1651), trata um assunto que o obcecou durante mais de vinte anos: os males da guerra civil e a anarquia que a acompanharia. Esse autor, Rousseau critica na primeira parte do seu discurso. 

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Neste momento da história da humanidade, narrada no Discurso da Desigualdade, em que o homem natural se coloca na situação da dependência e da desigualdade entre “forte” e o “fraco”, ou entre “rico” e o “pobre”; embora tenha nascido livre, o homem, penetra nessa situação funesta, para viver em sociedade com os seus semelhantes.

Diante do exposto, é possível encontrar um fascínio, na descrição do homem natural e a complexidade da constituição desse homem em sociedade formada a partir do desenvolvimento da linguagem, do sentimento do amor próprio e pela necessidade de conviver com o outro. Mesmo tendo a perda da virtude natural e adquirido vícios, a evolução conquistada é para sempre.

Nesse processo evolutivo diferenciado dos outros animais, o homem fez valer a sua liberdade e a perfectibilidade. Portanto, cabe a reflexão do homem social do século XXI, que se utiliza do mecanismo da linguagem para expressar suas dores, alegrias, conquistas, medos, ambições, para proclamar a Paz e a Guerra. Que continua a perpetuar a união familiar e o amor próprio. Pode-se constatar que o homem social contemporâneo tem na essência as mesmas virtudes e vícios.

Mas, o que contemporiza em todo esse processo é a possibilidade de rever e propor novamente a ideia que moveu Rousseau a entender a desigualdade entre os homens, anunciada no prefácio da sua obra “conheça a ti mesmo”, para dar um sentido para o termo moral que, na atual sociedade, necessita ser repensado e reconstruído. Como o filosofo Sócrates, já interrogava os valores da sociedade ateniense e ditava como máxima: conhecer a mim mesmo para saber como modificar minha relação para comigo, com os outros e com o mundo. Essa máxima também pode ser seguida neste momento por todos os homens, como alicerce para uma nova sociedade em que os valores morais sejam amparados no autoconhecimento.

Diante do exposto, fundamentamos a primeira visão deste trabalho na busca do entendimento e da proposta da Construção para a Paz no Processo Educativo.

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