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Capítulo 3 – O Plano Nacional de Educação na arena do jogo

3.1 Iniciando a partida: concepção e elaboração do PNE /

3.1.1 Primeira rodada: o debate de gênero na CONAE

Conforme já exposto a CONAE contou com um documento norteador das discussões e este estava estruturado em seis eixos, sendo um deles diretamente responsável pelo debate sobre igualdade entre homens e mulheres na educação, bem como sobre o combate a

preconceitos. Entretanto, é possível identificar ao longo de todos os outros eixos a presença de referências ao debate de gênero e orientação sexual, indicando que estes foram temas transversais no documento produzido pela Comissão Organizadora da conferência.

No primeiro eixo, por exemplo, que trata da organização e regulação para um sistema nacional de educação há no item iv das proposições a ideia de “reconhecimento e valorização da diversidade, com vistas à superação (...) das desigualdades sociais, étnico-raciais, de gênero e de diversidade sexual, capacitando profissionais para atuarem nas diversidades existentes na educação (...)”. Ainda neste eixo, mas já nas proposições estratégicas há novamente menção à garantia de condições institucionais que assegurassem uma educação que contenha gênero e vai além ao tratar de combate a homofobia:

[...] respeito aos direitos humanos como premissa de formação cidadã, tendo como perspectiva o direito à diversidade e formação para a cultura de direitos humanos, sob orientações curriculares articuladas de combate ao racismo, sexismo,

homofobia (grifo nosso), discriminação social, cultural, religiosa, prática de

bullying e outras formas de discriminação no cotidiano escolar, para o debate e a promoção da diversidade étnico-racial e de gênero, orientação sexual (grifo nosso), por meio de políticas pedagógicas e de gestão específicas para este fim. (BRASIL. MEC, 2010)

A mesma perspectiva é encontrada no eixo 2 do documento. Uma das proposições estratégicas fala em assegurar e garantir a implementação de políticas de valorização da diversidade, como forma de superação das desigualdades religiosa, sexual, de identidade de gênero, e também como mecanismo de prevenção às violências, mediação de conflito e inclusão escolar. O mesmo eixo previa também a necessidade de uma política de valorização dos/as profissionais da educação na discussão de raça, etnia, gênero, identidade de gênero, diversidade sexual, dentre outras.

A adoção de práticas de superação do racismo, do machismo, do sexismo, da homofobia, da lesbofobia, da transfobia, do proselitismo, da intolerância religiosa e de toda forma de preconceito e discriminação, figuram entre as proposições deste eixo. Chamo atenção para a presença das expressões “educação antirracista, não homo/lesbo/transfóbica, não sexista e não discriminatória”, que tem origem com os movimentos de identidade e que foram incorporadas ao documento.

Este segundo eixo também sinalizou a importância de se desenvolver políticas de produção e disseminação de materiais pedagógicos que promovam a igualdade racial, de gênero, por orientação sexual e identidade de gênero, de se garantir financiamento público e pesquisas nestas temáticas e destacou a necessidade de se assegurar a promoção e efetivação dos direitos humanos e a superação das desigualdades raciais, de gênero, identidade de gênero na educação superior, mediante o acesso e permanência destes estudantes.

Foram inúmeras as referências neste eixo ao debate de gênero e de respeito à diversidade. As proposições faziam referência às novas medidas e políticas a serem adotadas, mas também a alterações em programas já existentes, como o Programa Nacional do Livro Didático e o Programa Nacional Biblioteca da Escola, para que criassem critérios eliminatórios para obras que veiculem preconceitos à condição social, regional, étnico-racial, de gênero, orientação sexual, identidade de gênero ou qualquer outra forma de discriminação ou de violação de direitos humanos.

Dentre as medidas novas propostas pelo eixo estavam a de incluir como tema de estudo no currículo, em todos os níveis e modalidades de ensino, a Lei Maria da Penha, fazendo alusão a este ponto ser uma resolução da III Conferência de Políticas para as Mulheres e da I CONAE e a de criação de mecanismos para garantir as especificidades do público LGBT nas escolas, destacando-se o acesso dos transexuais e travestis ao banheiro de acordo com sua identidade de gênero.

Nos eixos seguintes de forma bastante uniforme identifica-se a orientação de se considerar na formulação de políticas para a educação em todos os níveis, etapas e modalidades as relações étnico-raciais, a discussão sobre igualdade de gênero, sobre orientação sexual e identidade de gênero como fundamentais à democratização do acesso, da permanência e da aprendizagem. Estes eixos também propunham a ampliação das políticas e programas de formação inicial e continuada dos profissionais da educação nestas temáticas, ou seja, em gênero, diversidade e orientação sexual.

Chamo atenção para o fato de não ter havido notas públicas ou tentativas de vetos tanto ao documento de referência da CONAE, quanto à realização de debates como este do Colóquio por parte de agentes e instituições religiosas e tão pouco do governo:

Não houve nada deste tipo. A relação na Comissão excelente entre toda sociedade civil e governo. Os representantes do governo que acompanhavam eram ex- dirigentes sindicais, ligados a CONTEE. Por isto, a relação era de muita colaboração. Não me recordo de nenhum veto por parte do governo nestes temas, nem por parte de outras entidades da sociedade civil (TIAGO VENTURA, ex-vice- presidente da UNE. Entrevista concedida à autora em janeiro de 2017).

Não é demais ressaltar a composição do governo petista com evangélicos e católicos, como exponho no capítulo anterior, e o quanto estes atuaram intensamente para impedir políticas e programas que intervissem nestas pautas. Em uma primeira análise podemos atribuir esta posição de não enfrentamento adotada pelos religiosos como parte de uma estratégia de levar a disputa para outras esferas. Ao identificarem que estavam excluídos da Comissão Organizadora e, portanto, com pouco poder de intervenção e capital político para

atuarem na CONAE, os mesmos podem ter optado por postergar o embate ou por realiza-lo em outros espaços:

Na CONAE 2010, ainda que houvesse representação minoritária de setores mais conservadores, havia uma hegemonia de setores progressistas e naquele período ocorreu um certo constrangimento dos que poderiam expressar alguma discordância às propostas de igualdade. Na conferência nacional, tive a oportunidade de coordenar o grupo que debateu o Eixo V e posso afirmar que as disputas foram maiores entre as diferentes representações organizadas dos setores específicos, numa disputa de protagonismo e defesa dos seus pontos de vista, do que divergências externas que de caráter excludente e preconceituoso. A Plenária Final praticamente referendou os debates do grupo que foram os mais extensos entre todos os eixos (JOSE TADEU DE ALMEIDA – CONTEE. Entrevista concedida à autora em fevereiro de 2017).

Essa perspectiva em relação ao documento base também permeia a avaliação feita pelo representante da União Nacional dos Estudantes na Comissão Nacional:

O documento final da CONAE tinha total apoio da UNE. Não houve um ponto de discordância. O nosso centro era no ponto de financiamento e de destinação de recursos do pré-sal. Aprovamos isso. Nossa estratégia foi se aliar com outros movimentos parceiros, CONTEE, CNTE, Campanha Nacional pela Educação, UBES, e os setores que lhe disse do MEC, sobretudo ligados à secretaria executiva. A partir deste núcleo, aprovamos a maior parte da nossa agenda da CONAE (TIAGO VENTURA– ex-vice-presidente da UNE. Entrevista concedida à autora em janeiro de 2017).

Assim, é possível compreender como se deu a aceitação de emendas com estas temáticas nas etapas que precedem a CONAE, bem como a aprovação do documento final. Este reafirmou a consolidação de um sistema nacional de educação que articulasse a educação nacional com a urgente necessidade de superação das desigualdades sociais, étnico-raciais, de gênero e relativas à diversidade sexual ainda presentes na sociedade e na escola brasileira. Para isso o documento previu que o Sistema Nacional de Educação deveria prover “condições institucionais que permitam o debate e a promoção da diversidade étnico-racial e de gênero, por meio de políticas de formação e de infraestrutura específicas para este fim” (BRASIL. MEC, 2010).

Nessa direção, o documento aponta a gestão democrática dos sistemas de ensino e das instituições educativas como princípio da educação nacional, sintonizada com a luta pelo reconhecimento e a valorização da diversidade, com vistas à superação das desigualdades sociais, étnico-raciais, de gênero e de orientação sexual. A implementação efetiva dessa política educacional deveria contemplar, portanto, a diversidade com vistas à igualdade, por meio de estrutura física, recursos materiais e humanos e apoio à formação, com qualidade social, de gestores/as e educadores/as nas escolas públicas.

A ideia de educação das relações étnico-raciais e a discussão sobre igualdade de gênero, através de políticas de ação afirmativas como fundamentais à democratização do

acesso, à permanência e ao sucesso em todos os níveis e modalidades de ensino também aparecem no documento final da conferência. Outro ponto importante tratado foi o referente à elaboração e implementação de políticas e programas de formação continuada, de pós- graduação, acerca de gênero, diversidade sexual e orientação sexual para todos/ as os/as profissionais da área da saúde, educação, serviço social, esporte e lazer.

Como forma de garantir esta implementação o documento fala em criação de linhas de pesquisa nos cursos de pós-graduação do Brasil que visem ao estudo da diversidade étnico- racial, de gênero e de orientação sexual. A introdução, junto a Capes e CNPq, de políticas de pesquisa voltadas para as temáticas de educação e relações étnico-raciais, em gênero e orientação sexual também apareceram como medidas para promover a ampliação do debate destes temas nas Universidades.

A política de valorização e formação dos/ das profissionais da educação, incluindo a discussão de gênero e diversidade sexual, adotando para o currículo de todos os cursos de formação de professores/as um discurso de superação da dominação do masculino sobre o feminino, foi outro ponto presente dentre as proposições. Também foram aprovadas medidas que visassem aprimorar e aperfeiçoar a avaliação do livro didático, para estes não apresentassem resquícios de discriminação, sobretudo em relação àquelas temáticas referentes às famílias compostas por pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

O documento aprovado na CONAE (BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2010) trazia também a ideia de inserir os estudos de gênero, identidade de gênero, orientação sexual, diversidade sexual educação sexual, como disciplina obrigatória, no currículo da formação inicial e continuada, nas atividades de ensino, pesquisa e extensão, nas licenciaturas e bacharelado, na pós-graduação, no ensino fundamental e médio, e em todas as áreas do conhecimento.

Outra preocupação exposta no documento era a de garantir medidas que assegurassem às pessoas travestis e transexuais o direito de terem os seus nomes sociais acrescidos aos documentos oficiais das instituições de ensino. Lembrando que neste momento o uso do nome social ainda não estava garantido, sendo, portanto relevante esta posição da CONAE. Além disso, a educação foi uma das primeiras áreas a adotar o uso do nome social.

A necessidade de produção de materiais e campanhas também compuseram o rol de propostas aprovadas. Dentre elas estavam as voltadas para estimular e ampliar a produção nacional de materiais sobre educação sexual, diversidade sexual e assuntos relacionados a gênero, em parceria com os movimentos sociais, no intuito de garantir a superação do preconceito que leva à homofobia e ao sexismo. Para isso, foi destacado que o MEC deveria

assegurar, por meio de criação de rubrica financeira, os recursos necessários para a implementação destes projetos, em especial para o Projeto Escola sem Homofobia.

Promover a formação das mulheres jovens e adultas para o trabalho, inclusive nas áreas científicas e tecnológicas, visando reduzir a desigualdade de gênero nas carreiras e profissões foi outro ponto explorado no documento. Além disso, foi sinalizado que em todo documento da CONAE deveria reconhecer o feminino na linguagem, superando a linguagem sexista. Atendendo a este ponto todo o texto da conferência foi produzido com flexão para o feminino. Mais tarde este se tornou um dos elementos questionados no Congresso Nacional.

As propostas aprovadas também incluíram a criação de grupos de trabalhos permanentes nos órgãos gestores da educação dos diversos sistemas, para discutir, propor e avaliar políticas educacionais para a diversidade sexual e relações de gênero, compostos por representantes do poder público e da sociedade civil. Estes grupos deveriam produzir levantamentos de dados e censos escolares contendo informações sobre evasão escolar causada por homofobia, racismo, sexismo e outras formas de discriminação individual e social.

Fechando as proposições o documento traz a ideia de construção de um plano pedagógico sobre gênero e diversidade sexual para nortear o trabalho na rede escolar de ensino, visando assim eliminar quaisquer conteúdos sexistas e discriminatórios. Contudo, é importante destacar que cada um dos eixos debatidos pela CONAE resultou não apenas em proposições objetivas, mas também em textos norteadores da visão geral a ser trabalhada pelo sistema de educação do país. Dessa forma, um dos desafios apresentados nestes textos foi o da inclusão e da diversidade na implementação de políticas públicas, desmistificando do lugar de neutralidade estatal. A concepção abordada foi a de que cabe ao poder público garantir a universalidade dos direitos, superando as desigualdades sociais e que tal superação precisa também incorporar a diversidade.

Nesse sentido, os textos reafirmam o papel dos movimentos sociais, sobretudo os de caráter identitário, como os principais atores políticos que problematizam essa situação. Os coletivos políticos, tais como os movimentos negro, feminista, de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, seriam os responsáveis por estarem denunciando, no período mais recente, o caráter de neutralidade que tentam impor as políticas públicas. Assim, eles têm cobrado que as políticas se abram para o princípio da equidade, na garantia do acesso aos direitos universais aos homens e às mulheres, por meio de ações específicas e afirmativas voltadas aos grupos historicamente discriminados.

Vimos, portanto, que a temática de gênero, orientação sexual e diversidade esteve presente de forma transversal em todos os documentos da CONAE, tanto o que serviu de referência para os debates nas etapas municipais e estaduais, quanto no documento final aprovado em plenária final com delegados e delegadas de todo país. Como resultado tivemos a consolidação de um texto norteador para o sistema educacional, que dialogava com as pautas dos movimentos identitários, e também um documento balizador para o projeto de Plano Nacional da Educação:

Nós usamos a CONAE para pressionar o governo e o congresso sobre nossa agenda e sobre emendas nesta primeira proposta do PNE. E tudo de forma muito unificada com outros movimentos sociais. Fizemos emendas comuns ao PNE. Processo muito interessante. O próprio governo foi aderindo a diversas dessas agendas, como por exemplo, a destinação do pré-sal para educação (TIAGO VENTURA, ex-vice- presidente da UNE. Em entrevista concedida à autora em janeiro de 2017).

Encerrava-se assim o processo de conferência nacional de educação. O documento final foi encaminhado ao Ministério da Educação para que fosse transformado em projeto de lei a ser submetido ao Congresso Nacional.