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A primeira grande polêmica em torno da convocação da constituinte começou com o modelo que foi escolhido. Micheles (1989) relembra que uma “constituinte exclusiva” era o modelo sugerido por organizações como a OAB e muitos pensadores brasileiros, por

significar uma ruptura com o status quo e pelo desejo de que o poder constituinte originário se manifestasse sem as amarras e práticas já estabelecidas na função legislativa ordinária. Iniciou-se um grande debate em torno da questão do caráter da constituinte, ou seja, se seria uma assembleia constituinte exclusiva ou do cumprimento das funções constituintes pelos membros do Congresso (senadores e deputados) que seriam eleitos de acordo com o calendário e regras regulares, ou uma constituinte congressual (MICHELES et al., 1989, p. 20).

A opinião da sociedade se dividiu quanto ao caráter da Constituinte. Uns acreditavam que ela deveria ser autônoma e independente, ou seja, a eleição de membros exclusivos para esta função; outros aprovaram a conversão do Congresso Nacional em Assembleia Constituinte. Veja o trecho da Carta de Goffredo Telles Junior:

Afirmamos que razões poderosas justificam a referida proibição. Parece-nos necessário insistir na profunda diferença existente entre a missão atribuída pelo povo aos legisladores do Congresso Nacional e a missão por ele atribuída aos legisladores da Assembleia Constituinte. No Congresso Nacional, os legisladores fazem as leis reguladoras das relações comuns entre os homens, em sua vida quotidiana. Fazem as leis que procuram atender às conjunturas de cada tempo, de cada lugar, de cada grupo social. Tais leis, sendo conjunturais, podem ser revogadas e substituídas por outras leis conjunturais, em razão das mutáveis exigências da vida. Para a proposição e defesa dos projetos dessas leis, o que se exige do legislador, como requisito essencial, é que ele seja fiel intérprete dos interesses que tais leis visam reger. E este é o motivo pelo qual um analfabeto, pela sua competência nos ofícios de sua categoria de trabalho, e pela sua fidelidade aos interesses que ele representa, pode ser eventualmente, nas matérias específicas de sua vivência, um parlamentar eficaz e um bom deputado. Na Assembleia Constituinte, porém, os legisladores fazem uma só lei. Esta lei é um Estatuto; é o Estatuto de uma importantíssima instituição – da instituição chamada Governo. Como todos sabem, tal Estatuto é o que se denomina Constituição do Estado (TELLES apud MICHELES et al., 1989, p. 26).

Venceu a escolha por uma constituinte congressual. O presidente José Sarney propôs e o Congresso Nacional aprovou que os constituintes seriam os deputados e senadores eleitos em pleito já previsto. A eleição parlamentar de 1986 passou a ser, pelo ato convocatório, eleição de um corpo legislativo regular, mas com poderes especiais para elaborar, em assembleia unicameral, uma nova Constituição. Esta decisão pode ser vista como mais um fator desmotivador ou frustrante para o entusiasmo e a participação da população, devido ao apelo que a “constituinte exclusiva” exercia sobre movimentos populares e opinião pública.

Em 1º de fevereiro de 1987, em sessão presidida pelo presidente do Superior Tribunal Federal, ministro José Carlos Moreira Alves, instala-se formalmente a Assembleia

Nacional Constituinte. A sessão solene teve a presença do presidente da República, José Sarney com direito a pompas oficiais. O presidente do STF fez o único pronunciamento da sessão solene. Num trecho, lembrou aos constituintes e à opinião pública:

São candentes de verdade estas palavras de Loewenstein: “A massa do povo é suficientemente lúcida para reclamar um mínimo de justiça social e de segurança econômica. Porém, nem a mais perfeita Constituição está em situação de satisfazer essas aspirações, por mais pretensioso que possa ser o catálogo dos direitos fundamentais econômicos e sociais. A Constituição

não pode solver o abismo entre a pobreza e a riqueza. [...] Srs.

Constituintes: Na feitura de uma Constituição, as questões são múltiplas, e as dificuldades várias. Resolvê-las com prudência e sabedoria é o grande desafio que se apresenta a esta como a todas as Assembleias Constituintes. Os olhos conscientes da nação estão cravados em vós. A missão que vos aguarda é tanto mais difícil quanto é certo que, nela, as virtudes pouco exaltam, porque esperadas, mas os erros, se fatais, estigmatizam. Que Deus vos inspire. (BACKES et al., 2009, p. 25).

Seu alerta não foi bem compreendido, ou simplesmente, foi ignorado pelos nossos constituintes e pela opinião pública, que não conseguiram, no decorrer do processo, discernir entre o real e a ilusão.

A segunda sessão da ANC, através do voto do Plenário, definiu a questão de ordem sobre o direito de voto na Constituinte dos senadores que integravam o terço do Senado Federal com mandato remanescente das eleições de 1982 e também a eleição do seu presidente. Em relação ao voto dos senadores, havia uma discussão levantada por Plínio Sampaio (PT/SP) quanto à participação dos senadores eleitos em 1982, mas que não receberam delegação direta do povo, constituindo, segundo suas palavras, “afronta à legitima representatividade constituinte”. Após manifestação das lideranças partidárias, a Assembleia fez sua primeira votação e manteve os senadores de 1982 como constituintes (LOPES, 2008, p. 27).

Ainda, segundo o relato de LOPES (2008), em seguida passaram à eleição do Presidente da Assembleia Nacional Constituinte. Concorreram o deputado Ulysses Guimarães PMDB/SP e o deputado Lysâneas Maciel (PDT-RJ). Com 425 votos, contra 69 votos, foi eleito Ulysses Guimarães. Ulysses era o presidente da Câmara dos Deputados e do PMDB, partido majoritário na época e havia se destacado imensamente como principal líder da Campanha Diretas Já.

Ao abrir a sua primeira sessão como presidente (a terceira do processo), Ulysses Guimarães, que fez uma manifestação enfática e emocionada na qual consta uma de suas várias afirmações que marcaram a história do processo constituinte: Srs. Constituintes, esta

Assembleia reúne-se sob um mandato imperativo: o de promover a grande mudança exigida pelo nosso povo. Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A nação quer mudar, a nação deve mudar, a nação vai mudar (BACKES et al., 2009, p. 25).