3.1 Dos encontros e relatos 53
3.1.1 Primeiro encontro: confiar e sentir-se confiante 54
Neste primeiro encontro constatei que as educadoras chegaram à sala de educação física dispostas emocional e corporalmente. Estavam eufóricas e, ao mesmo tempo, curiosas para saber em que consistiria o trabalho, visto que, teoricamente, era de seu conhecimento apenas o número de encontros, que se restringiriam às educadoras de educação infantil e anos iniciais e que deveriam frequentá-los utilizando roupa confortável. Após esclarecer os momentos dos encontros e os objetivos, conduzi o início do primeiro encontro.
A sensibilização: roda de integração (TALEMA, 2004, p.48). Para isso as participantes foram convidadas a formar círculos concêntricos. Orientei que elas deveriam circular para a direita olhando-se, olhos nos olhos; ao sinal os círculos deveriam parar de girar e disporem-se frente a frente, dando-se as mãos; afastando-se alguns passos das demais duplas e em voz baixa, deveriam contar à parceira os três melhores momentos da sua vida. A dinâmica foi repetida duas vezes, porém na segunda vez deveriam revelar os três momentos mais interessantes de sua vida e, na terceira vez, contar qual era seu maior desafio hoje.
Nessa atividade as educadoras iniciaram tímidas, mas foram se soltando e adquirindo confiança no decorrer da atividade. Pela linguagem não verbal constatei que a maior dificuldade residiu no ato de olharem uma nos olhos da outra e de fixarem o olhar sem desviá- lo enquanto giravam na roda. Porém, no momento da verbalização, as educadoras falaram bastante; a postura de escuta de algumas se destacou, demonstrando interesse no ouvir, dividindo experiências com entusiasmo, envolvimento e respeito. Como esse foi um momento de escuta e privacidade, não tive conhecimento do conteúdo de suas conversas.
As atividades corporais: caminhares e bailares (TALEMA, 2004, p.49). Ao som de uma música, organizei uma caminhada pelo espaço disponível, orientando que fosse imbuída de muita determinação, com olhar direcionado a um objetivo, com foco, sempre dirigindo o olhar para o horizonte, para o longe, para o transcendente. Ao parar a música, as participantes deveriam parar no lugar, cruzar os braços no peito, olhos fechados, punhos cerrados, desafiando-se a enfrentar os desafios da vida, assumindo a postura do guerreiro, aquele que luta, vence e é forte.
Percebi que a postura sugerida para a atividade foi introjetada e externalizada de forma significativa. A linguagem não verbal expressada pelas educadoras com essa postura demonstrou um corpo robusto, determinado, olhar focado, transcendendo. Ao permanecer no lugar cruzando os braços sobre o peito na posição do guerreiro, todas estavam de cabeça erguida, peito aberto, assumindo e enfrentando os desafios da vida, com força, otimismo, perseverança. Ao término da atividade, o grito do guerreiro demonstrou a descontração e a desculpabilização.
Na sequência dançaram livremente; após, em duplas, uma seguindo o caminhar da outra; em seguida, quatro a quatro e, finalmente, todas formando um único grupo, sem perder o contato. Nesse momento ficou evidente a necessidade que as educadoras têm de expressar, extravasar, descontrair, pois externavam risos, gargalhadas, gritos e muita empolgação. Quando motivadas a dançar duas a duas, o contato corporal e o permitir serem tocadas foram dando asas à imaginação. Em trios foram experimentando novas formas de se movimentar, foram se conectando umas às outras, permitindo-se ocupar os diversos espaços. A dança criativa possibilita o emergir da ação inventiva, imaginária. Nesse sentido Cunha destaca:
Uma das principais características da dança criativa é a identificação da estrutura corporal, através dos mecanismos senso-psicomotrizes que condicionam à descoberta da formação de uma imagem corporal. [...] Outra característica é o uso de formas e conteúdos que se relacionam com as qualidades de movimento (grande - pequeno, longe - perto, forte - fraco, entre outros. [...] outro aspecto da dança criativa é a probabilidade de transferir os conceitos básicos da psicomotricidade para o movimento expressivo, através da utilização do princípio da totalidade, que caracteriza a integração do trinômio corpo, intelecto e emoção. O indivíduo se identifica consigo mesmo, tornando-se o único possuidor desse momento de movimento (1988, p. 11).
Verônica, uma das educadoras, instigou as demais a se entrelaçarem, a se aglomerarem e a estabelecerem novos contatos com outras partes do corpo, evidenciando a dança criativa. O clima que emergiu do grupo foi contagiante, pois pareciam tão envolvidas e tomadas pela alegria que não queriam parar.
Ao participarem da atividade de conduzir a colega com venda nos olhos, ao som da valsa de Strauss (2011), percebi que conduziram e foram conduzidas com muito cuidado e envolvimento. Nesse momento Síntique disse: “Já me sinto confiante”, e ensaiou uma fuga da companheira, mas não o fez. Seus corpos se deslocaram no espaço de forma comedida no
início e com mais facilidade ao término. Noemi exclamou: “Ai que alívio a luz! Senti-me tonta”.
O relaxamento: dinâmica do ninho (TALEMA, s.d). Organizei o relaxamento no sentido de buscar aconchego, tranquilidade, paz interior, confiança e segurança. Quando a última participante se aconchegou, formou-se o grande ninho. Então, conduzi o relaxamento por meio de exercícios de respiração. Houve entrega total: elas se aconchegaram no emaranhado que seus corpos formaram, remetendo-as a uma conexão com o vital, com a essência de seu ser, com o cosmos. Conforme Talema:
É a intimidade com a natureza. É o sentimento de estar vivo e fazer parte de uma totalidade. É, portanto, a conexão com a Essência (natureza básica) e com o Universo, o Cosmos. É a vivência pura da religiosidade: Religar= ligar-se de novo. É transcender o Ego, o excesso de pensamentos, o diálogo interior que nos desconecta do aqui e agora. É também encontrar o seu lugar no mundo. O sentido de nossa vida. Concentrar-se no presente (2004, p. 40).
O olhar das educadoras transmitia descanso, relaxamento e revigoramento de suas energias ao final da dinâmica.