• Nenhum resultado encontrado

5 ATORES: A REDE DA REDE

6.1 Princípio de contato com a RNSP

Autodenominada uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, organizada em rede, preocupada em organizar ações de controle do poder público, melhoria das cidades, qualidade de vida e com o objetivo do bem comum (RNSP, 2015), a RNSP consegue desenvolver um discurso ideológico consistente, afinal, que indivíduo social não tem interesse em se alinhar a esse discurso?

Como denomina Castells (2012), os indivíduos envolvem-se e aderem a movimentos em rede com a identificação dos pilares característicos de uma rede, indignação, esperança e TIC. Dentre estes pilares, é possível identificar que o sentimento de indignação e esperança está contido nas motivações dos atores para participarem da RNSP, a TIC é um instrumento, comumente utilizado pela RNSP a fim de aumentar a potencialidade de suas ações.

Observando as estratégias de TIC utilizadas pela RNSP no momento do projeto, tem destaque seu portal, alimentado de informações sobre a rede, suas ações, amplo fornecimento de documentos e levantamentos sobre os indicadores sociais da cidade que dão carne aos seus argumentos. Utilizaram-se também de redes sociais e um mailing disparado para cidadãos e organizações interessados pelo tema e que realizavam inscrição no portal.

85 Por se tratar de uma estrutura que contava com atores influentes e importantes na cidade, a RNSP conseguia realizar também a divulgação em outras mídias, como inserções na programação da Rádio CBN e publicações na Folha de São Paulo, no Caderno Opinião.

Do mesmo modo, a abertura de precedentes facilitadores para entrada nessa rede temática, ascende a possibilidade de convergência de objetivos comuns de interessados, como descrito em Massardier (2007). Os atores da rede visualizam essa possibilidade e o discurso de horizontalidade os fascina, sentem-se importantes para o processo. Como descreve o entrevistado Odilon Guedes, ao frisar sua participação na construção dos indicadores para a argumentação do projeto do PM.

Isso é muito importante para as pessoas poderem situar, na região onde elas moram, os equipamentos públicos e comparar com outras. Então tem, do ponto de vista de informação, um trabalho muito importante nas pesquisas que ela (RNSP) faz.

A TIC como um pilar de organização da RNSP facilita o chamado “efeito sanfona” aos atores que entram na rede, em suma, podem entrar e sair de acordo com seus interesses, participarem das ações que os convém e desenvolver projetos de acordo com a sua especificidade de atuação. Tal característica está no que Massardier (2007) considera como a convergência de objetivos comuns, sob uma ótica de conveniência nas redes temáticas ou de projeto.

Ainda na área de TIC, pode-se verificar a similaridade do discurso da RNSP ao que Penteado, Santos e Araújo (2014) identificaram como a estratégia de mobilização virtual, as chamadas e-participações. Diante do exposto, há de se congruir do fato de que o discurso tecnológico da RNSP, em seu modelo organizacional, também se torna uma forma de atração à participação social.

A consequência do relativo sucesso da RNSP com seu discurso é a adesão dos atores aos seus projetos, assim, proporciona neles a visão de que a sociedade civil passa a ter maior autonomia e controle social, próximo ao que Wampler (2005) denomina como o processo de accountability societária ou o que é exposto por Cohen (2003) como a nova sociedade civil autônoma.

Tendo em vista a análise do processo de entrada de atores na RNSP é preciso levar em consideração alguns pontos que podem escapar ao discurso dominante acima exposto.

86

A primeira questão está no cerne da centralidade dos atores, pois o discurso de horizontalidade tem seu arcabouço contestado a partir do momento em que se visualiza a estrutura de tomada de decisões da RNSP, o que se assimila à centralidade de atores de Lavalle, Castello e Bichir (2007).

Nesse sentido, o projeto do PM, mesmo que desenvolvido por algumas mãos, tem uma ideia central e esteve ligada a ela de sua criação à sua aprovação, o que nos possibilita algumas ponderações: i) o projeto foi discutido, levado pelos seus idealizadores patrocinadores da ideia à CMSP e à Prefeitura, antes de seu protocolo na CMSP, portanto, em sua origem a RNSP já se caracterizava como uma organização articuladora, com forte influência e trâmite no setor público paulistano. Informação confirmada por Maurício Bronizi e Beloyanis Monteiro em suas entrevistas (BACCI, 2010; OMETTO, 2014); ii) a participação de 200 apoiadores à época do projeto consistia em quantidade, não estava condicionada a propostas qualificadas dos partícipes, confirmando a tese de um núcleo diretivo estratégico que toma as decisões em consequência da facilidade de entrada na rede (MIZRUCHI, 2010, LAVALLE, CASTELLO E BICHIR, 2007, CASTELLS, 1999); iii) a aproximação dos atores se dava por demandas específicas a partir de seus interesses pessoais, que eram difusos com relação ao projeto e à RNSP, como corroborado nas entrevistas realizadas (WAMPLER, 2005); iv) a TIC foi uma ferramenta que gerou quantidade de associados à rede, mas não produziu efeitos qualitativos dessa participação, serviu como instrumento de integração, porém com resultados limitados (PENTEADO, SANTOS E ARAÚJO, 2014).

Portanto, é possível sustentar que a estratégia da RNSP, ao ofertar o discurso de horizontalidade, consegue surtir efeito na captação de associados à sua rede, aos seus objetivos, às suas ideologias. Em suma, consegue transformar sua prática discursiva em produção de sentido para os atores que adentram nessa rede, pois fazem com que haja o que Spink e Frezza (2004, p. 15) colocam como a “[...] necessidade de explicitação de nossas posições: não a escolha arbitrária entre opções tidas como equivalentes, mas a opção refletida a partir de nossos posicionamentos políticos e éticos”, sinalizando que há uma forma de proliferar o modo de raciocinar em Garfinkel apud. Spink e Freeza (2004, p. 18) que pressupõe:

[...] o compartilhamento cognitivo, do qual depende a interação e a comunicação, resulta em uma multiplicidade de métodos tácitos e forma de raciocinar. Esses métodos são socialmente organizados e

87 compartilhados, e usados incessantemente no cotidiano para dar sentido a objetos e eventos sociais.

Sendo assim, analisemos as condições de participação social durante o projeto do PM.