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Pelo princ’pio da continuidade, os servi•os pœblicos devem ser prestados de maneira cont’nua, ou seja, sem parar. Isso porque Ž justamente pelos servi•os pœblicos que o Estado desempenha suas fun•›es

32 A motivação aliunde é aceita pela doutrina (Meirelles, 2013, p. 108) e também na jurisprudência (STF, MS 25518/DF).

essenciais ou necess‡rias ˆ coletividade. Segundo Carvalho Filho, a

Òconsequ•ncia l—gica desse fato Ž a de que n‹o podem os servi•os

pœblicos ser interrompidos, devendo, ao contr‡rio, ter normal continuidadeÓ.

Em que pese a aplica•‹o desse princ’pio seja principalmente na

presta•‹o de servi•os pœblicos, ele se aplica a qualquer atividade

administrativa. Nessa linha, a paralisa•‹o da Administra•‹o em suas atividades administrativas internas tambŽm pode trazer preju’zos ao interesse pœblico.

Maria Sylvia Zanella Di Pietro apresenta as seguintes consequências do princípio da continuidade33:

a) proibição de greve dos servidores públicos – essa não é mais uma proibição absoluta, uma vez que o art. 37, VII, determina que “o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica”;

b) necessidade de institutos como a suplência, a delegação e a substituição para preencher as funções públicas temporariamente vagas;

c) impossibilidade, para quem contratada com a Administração, de invocar a cláusula da exceção do contrato não cumprido (exceptio non adimpleti contractus) nos contratos que tenham por objeto a execução de serviço público [na verdade, não temos uma impossibilidade, mas uma limitação. Por exemplo, a Lei 8.666/1993 determina que o particular deverá continuar a cumprir o contrato, mesmo após um atraso de até 90 (noventa) dias nos pagamentos devidos (art. 78, XV);

d) faculdade que se reconhece à Administração de utilizar os equipamentos e instalações da empresa com que ela contrata, para assegurar a continuidade do serviço;

e) com o mesmo objetivo, a encampação da concessão de serviço público.

Outra situa•‹o que demonstra a aplica•‹o do princ’pio da continuidade dos servi•os pœblicos Ž a possibilidade de revers‹o dos bens necess‡rios ˆ presta•‹o dos servi•os pœblicos nos contratos de concess‹o ou permiss‹o. Isso significa que os bens que as delegat‡rias de servi•os pœblicos utilizam na presta•‹o dos servi•os ser‹o, ao tŽrmino do contrato, incorporados ao

patrim™nio da Administra•‹o Pœblica, realizando-se a devida indeniza•‹o daqueles que ainda n‹o amortizados.

A continuidade dos servi•os pœblicos guarda rela•‹o com o princ’pio da supremacia do interesse pœblico, pois pretende que a coletividade n‹o sofra preju’zos em raz‹o de eventuais interesses particulares. TambŽm

guarda rela•‹o com o princ’pio da efici•ncia, pois um dos aspectos da

qualidade dos servi•os pœblicos Ž justamente que eles n‹o sofram solu•‹o de continuidade.

Por essa raz‹o, acaba limitando, em algumas hip—teses, os direitos individuais, buscando assegurar o interesse maior da coletividade. Nesse

sentido, vale trazer a situa•‹o do exerc’cio do direito de greve pelos

servidores pœblicos. Inicialmente, o STF entendia o direito de greve era norma de efic‡cia limitada e que, portanto, n‹o poderia ser exercida enquanto n‹o fosse editada a lei espec’fica prevista no art. 37, VII. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar os mandatos de injun•‹o 670-ES, 708-DF e 712-PA, decidiu pela aplica•‹o da Lei 7.783/1989 Ð que regulamenta o direito de greve dos trabalhadores Ð suprimindo temporariamente a omiss‹o legislativa. Com isso, os servidores

pœblicos passaram a poder exercer o seu direito constitucional.

Atualmente, no entanto, h‡ muita discuss‹o em rela•‹o ao direito de greve de determinadas categorias, sobretudo aquelas consideradas essenciais. O STF j‡ chegou a afirmar que determinadas categorias seriam

privadas do direito de greve, como as que exercem atividades

relacionadas com a manuten•‹o da ordem pœblica e a seguran•a

pœblica, a administra•‹o da Justi•a, as carreiras de Estado, cujos membros exercem atividades indeleg‡veis, inclusive as de exa•‹o tribut‡ria, e a saœde pœblica34. Contudo, esse tema ainda n‹o foi discutido de forma mais aprofundada no STF.

Em rela•‹o aos policiais civis, porŽm, o entendimento j‡ est‡

consolidado na linha de que o direito de greve Ž inconstitucional. Nessa

linha, entendeu o STF que o exerc’cio do direito de greve, sob qualquer

forma ou modalidade, Ž vedado aos policiais civis e a todos os

servidores pœblicos que atuem diretamente na ‡rea de seguran•a pœblica.35 Vale lembrar que os militares em geral j‡ n‹o possuem direito de greve, por expressa disposi•‹o da Constitui•‹o Federal (art. 142, ¤ 3¼,

34 STF: Rcl 6.568-SP.

IV). Com isso, tanto os policiais civis como os policiais militares n‹o podem exercer o direito de greve.

Ainda em rela•‹o ao direito de greve e ao princ’pio da continuidade, o

STF tambŽm j‡ firmou o entendimento de que a administra•‹o pœblica deve

proceder ao desconto dos dias de paralisa•‹o decorrentes do exerc’cio do direito de greve pelos servidores pœblicos, em virtude da suspens‹o do v’nculo funcional que dela decorre, permitindo, todavia, a compensa•‹o em caso de acordo. Essa regra do desconto, contudo, n‹o se aplica quando ficar demonstrado que a greve foi provocada por conduta il’cita do Poder Pœblico,

a exemplo do atraso no pagamento da remunera•‹o dos servidores.36

Em resumo, podemos dizer o seguinte:

§ em regra, os servidores possuem direito ˆ greve, nos termos da legisla•‹o aplic‡vel aos trabalhadores;

§ os militares n‹o possuem direito ˆ greve, conforme expressamente disp›e a Constitui•‹o Federal (CF, art. 142, IV);

§ os policiais civis s‹o equiparados, em rela•‹o ao direito de greve, aos policiais militares, sendo vedado o direito de greve (ARE 654.432/GO; Rcl 11246 AgR/BA);

§ uma vez iniciada a greve, a Administra•‹o deve proceder ao desconto dos dias de paralisa•‹o, permitindo-se a compensa•‹o de hor‡rio; porŽm, o desconto ser‡ incab’vel se a greve decorreu de conduta il’cita do poder pœblico (RE 693.456/RJ).

AlŽm disso, o princ’pio da continuidade j‡ foi invocado pelo Tribunal de Contas da Uni‹o, que, ao identificar falhas em procedimento licitat—rio utilizado para contratar determinada empresa para prestar servi•os essenciais ˆ Administra•‹o Pœblica, optou por determinar que o —rg‹o realizasse nova licita•‹o, sem fixar, no entanto, prazo para que o —rg‹o anulasse o contrato. Com isso, o TCU permitiu que fosse dada

continuidade aos servi•os durante o per’odo estritamente necess‡rio

para a realiza•‹o da nova contrata•‹o37.

AlŽm disso, o princ’pio da continuidade relaciona-se com o dever do

dever pœblico de manter o equil’brio econ™mico-financeiro dos

36 RE 693.456/RJ, 27.10.2016.

37Acórdão 57/2000-TCU-Plenário: “3. Acerta, a meu ver, a unidade instrutiva ao propor que o Tribunal determine à ICC a imediata realização de procedimento licitatório para a supressão da impropriedade acima referida e, ao mesmo tempo, sugerir a continuidade da execução dos serviços por parte da atual prestadora. Essa solução parece-me consentânea com o princípio da continuidade do serviço público, que não permite a interrupção dos serviços referidos, necessários à preservação do patrimônio público”. Veja também: Furtado, 2012, p. 113.

contratos administrativos. No meio privado, os contratos somente podem ser alterados por acordo das partes. Nos contratos administrativos, por outro lado, a Administra•‹o pode realizar altera•›es unilaterais, ou seja, mesmo sem concord‰ncia prŽvia da outra parte. Contudo, essas altera•›es

n‹o podem modificar o equil’brio econ™mico-financeiro do contrato Ð por exemplo: se o contratado ia receber R$ 100,00 pelo fornecimento de 10 unidades de um produto; dever‡ receber R$ 120,00 se as quantidades forem alteradas para 12, mantendo o equil’brio financeiro inicial. Se a Administra•‹o pudesse alterar unilateralmente o equil’brio-financeiro, o contratado poderia sofrer preju’zos, tornando insustent‡vel a continuidade da presta•‹o do servi•o. Da’ a aplica•‹o do princ’pio da continuidade do servi•o pœblico.

Todavia, a continuidade n‹o possui car‡ter absoluto, existindo

situa•›es em que Ž poss’vel a paralisa•‹o tempor‡ria dos servi•os pœblicos. Eventualmente, o servi•o poder‡ ser paralisado temporariamente para reparos tŽcnicos ou para a realiza•‹o de obras de expans‹o e melhorias dos

servi•os.38

Nesse sentido, a Lei 8.987/1995 prescreve que n‹o se caracteriza

como descontinuidade do servi•o a sua interrup•‹o em situa•‹o de emerg•ncia ou, ap—s prŽvio aviso, quando: (a) motivada por raz›es de ordem tŽcnica ou de seguran•a das instala•›es; (b) por inadimplemento do usu‡rio, considerado o interesse da coletividade (art. 6¼, ¤3¼). Dessa forma, Ž plenamente poss’vel a suspens‹o de servi•o por falta de pagamento de fatura, mas que dever‡ ser restabelecido t‹o logo o dŽbito seja quitado.

Vamos resolver algumas quest›es de provas.

25. (Cespe – Técnico Judiciário/TRE PE/2017) O princípio da continuidade dos serviços públicos

a) afasta a possibilidade de interrupção, ainda que se trate de sistema de remuneração por tarifa no qual o usuário dos referidos serviços esteja inadimplente. b) diz respeito, apenas, a serviços públicos, não alcançando as demais atividades administrativas.

c) torna ilegal a greve de servidores públicos.

d) tem relação direta com os princípios da eficiência e da supremacia do interesse público.

e) impede a paralisação, ainda que a justificativa desta seja o aperfeiçoamento das atividades.

Comentário:

a) a legislação permite a interrupção dos serviços por falta de pagamento da tarifa da prestação dos serviços. Nesse caso, prevalece o interesse público em detrimento do interesse privado, pois se não fosse possível a interrupção do serviço por inadimplência, consequentemente o custeio dos serviços poderia ser tornar inviável pela falta de pagamento de vários usuários – ERRADA;

b) o princípio aplica-se predominantemente aos serviços públicos, porém alcança todas as atividades administrativas, já que a interrupção destas também afeta o interesse público – ERRADA;

c) a greve dos servidores públicos não é, em si, ilegal, pois se trata de um direito assegurado na Constituição Federal. A falta de regulamentação específica, entretanto, fez o STF determinar a aplicação das normas privadas aos servidores públicos, até que o Poder Legislativo elabore a norma correspondente. Porém, ressalva-se que algumas categorias não podem exercer o direito de greve, seja por expressa previsão constitucional (militares), ou por entendimento do STF (policiais civis, categorias de segurança pública) – ERRADA;

d) o princípio da continuidade tem relação com o princípio da supremacia, pois deve prevalecer o interesse público em detrimento do interesse privado da empresa ou do agente que pretende paralisar a sua prestação; e também tem relação com o princípio da eficiência, pois a qualidade do serviço é diretamente ligada à sua prestação continuada – CORRETA;

e) o princípio não é absoluto, uma vez que pode ocorrer a paralisação temporária, seja por manutenção ou aperfeiçoamento do serviço, ou ainda em virtude de inadimplência no pagamento da fatura – ERRADA.

Gabarito: alternativa D.