4.3 ANÁLISE SOBRE O PRISMA CONSTITUCIONAL
4.3.8 Princípio da Legalidade Penal e Devido Processo Legal
Princípio da Legalidade Penal
Incialmente, é preciso considerar a violação da legalidade penal nas hipóteses de
promessa ou concessão de vantagens sem previsão na lei, como uma redução de pena superior
a 2/3 como previsto no art.4º, caput, da Lei 12.850/13, como adverte Canotilho
174:
Na verdade, o princípio da separação dos poderes, que se procura garantir e
efectivar através da prerrogativa da reserva da lei formal ínsita ao princípio
da legalidade penal, seria formal e irremissivelmente abatido se ao poder
172
“
No plano processual, o julgamento tornou-se extraordinário, de modo que as garantias do jurado foram suprimidas para pessoas com recursos limitados. Bargaing ou negociação é nada menos que a extorsão contra minorias e todos os segmentos de baixa renda. Desta forma, o processo penal acusatório tornou-se em grande parte uma ficção, uma vez que a decisão permanece nas mãos do próprio acusador (o Ministério Público)”. (ZAFFARONI, Eugenio Raúl. El enemigo en el derecho penal. Buenos Aires: Ediar, 2012, p. 60, tradução nossa).173 DIAS, Pamella Rodrigues; SILVA, Erik Rodrigues da. Origem da delação premiada e suas influências no
ordenamento jurídico brasileiro. Disponível em:
<https://rafael- paranagua.jusbrasil.com.br/artigos/112140126/origem-da-delacao-premiada-e-suas-influencias-no-ordenamento-juridico-brasileiro>. Acesso em: 26 jul. 2017.
174 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; BRANDÃO, Nuno. Colaboração premiada e auxílio judiciário em matéria penal: a ordem pública como obstáculo à cooperação da Operação Lava-Jato. Revista de Legislação e de
judicial fosse reconhecida a faculdade de ditar a aplicação de sanções não
previstas legalmente ou de, sem supedâneo legal, poupar o réu da punição. É
o que sucederia, por exemplo, no caso de atenuação de uma pena de prisão
para lá da redução de “em até 2/3 (dois terços) previsto no caput do art.4º
da Lei 12.850/2013 ou de concessão de um perdão judicial em relação a um
crime não contemplado pela Lei 12.850/2013. Em tais casos, o juiz
substituir-se-ia ao legislador numa tão gritante quanto constitucionalmente
intolerável violação dos princípios fundamentais do (e para o) Estado de
direito como são os da separação de poderes, da legalidade criminal, da
reserva da lei e da igualdade na aplicação da lei.
Desse modo, é necessário relembrar os benefícios previstos na Lei 12.850/2013
(perdão judicial, redução da pena privativa de liberdade em até dois terços, substituição da
pena privativa de liberdade por pena restritiva de direitos e abstenção de oferecimento da
denúncia). Há, ademais, a possibilidade de conceder benefício após a sentença, como a
hipótese de reduzir a pena até a metade ou admissão de progressão de regime ainda que não
presentes os requisitos objetivos.
Pretendendo demonstrar os vícios dos acordos de delação na Operação Lava-Jato
Canotilho
175revela a violação da Taxatividade em razão das
vantagens que não se encontrem legalmente previstas não podem ser
prometidas ou concedidas”. Acrescenta o constitucionalista português ainda
que “na fase pré-sentencial não pode pactuar-se um benefício só previsto
para uma colaboração pós-sentencial (v.g. progressão de regime de execução
de pena privativa de liberdade); tal como é proibido conceder-se na fase
pós-sentencial um prêmio só admitido na fase anterior (v.g. o perdão judicial).
Por fim, o doutrinador português
176adverte ainda para a violação da legalidade penal
na hipótese de redução da pena de multa no patamar mínimo, em razão da Lei 12.850/2013
tratar apenas a pena privativa de liberdade e restritiva de direitos: “não obstante, dentre as
várias propostas premiais cumulativamente oferecidas pelo Ministério Público Federal
conta-se uma redução da pena de multa que vier a conta-ser aplicada ao réu de forma a fazê-la coincidir
com seu patamar mínimo”.
É preciso considerar – ainda – que se a atribuição de aplicar a pena for destinada ao
Ministério Público (ainda que numa aplicação formulada na cláusula de delação premiada,
que não pode ter alterado o seu conteúdo pelo juiz) há manifesta ofensa ao princípio da culpa,
175 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; BRANDÃO, Nuno. Colaboração premiada e auxílio judiciário em matéria penal: a ordem pública como obstáculo à cooperação da Operação Lava-Jato. Revista de Legislação e de
Jurisprudência, ano 146, n. 4000, p. 16-38, set.-out. 2016.
pois de antemão já se tem a aplicação da sanção, independentemente da avaliação judicial
após o devido processo e estabelecimento no sistema trifásico da quantidade de pena.
Devido Processo Legal – Persecução Penal
O sistema acusatório figura como uma importante garantia na persecução criminal,
determinando que o processo se desenvolva sob a égide de determinados princípios, torna-os
fundamentais para o regular deslinde da ação penal, elevando-os à qualidade de garantia
177. A
força garantista do sistema acusatório permite estabilidade na persecução penal, conferindo
respeito aos direitos fundamentais e possibilitando a correção de prática de ato procedimental
nas intervenções excessivas.
É preciso considerar que “o procedimento aumenta a probabilidade de um resultado
conforme o direito fundamental”
178. Por isso, o instituto da delação premiada, embora se
reconheça avanços implementados pela Lei 12.850/2013, necessita ser aprimorado em razão
de manifesta inconstitucionalidade, como a renúncia ao direito ao silêncio e o compromisso
legal de dizer a verdade.
A questão é da violação do devido processo legal e, por decorrência, do próprio
procedimento penal, porque o autor do fato, além de legalizar parcialmente os ganhos obtidos
criminosamente, corrompe o processo penal a partir de um processo penal com uma
persecução criminal calculada e com a finalidade de perdão ou isenção da pena, além de
desvirtuar os fins e os fundamentos da pena.
Desse modo, a persecução criminal não pode permanecer ilhada infensa ao Estado
Democrático de Direito, dignidade da pessoa humana, direitos humanos e as liberdades
públicas. Por isso se discorda de ex-Ministro Carlos Ayres Britto (HC 90.688 – STF) quando
ressaltou que via
a persecutio criminis ou o combate à criminalidade num contexto de
segurança pública” e que “o combate à criminalidade se dá exatamente nesse
contexto. Como a segurança pública não é só dever do Estado, mas é direito
e responsabilidade de todos, situo, nesse contexto, como constitucional a lei
que trata da delação premiada.
Ademais, a persecução criminal calculada pelo prêmio a ser recebido, a partir das
informações seletivas levadas ao coletor (Delegado de Polícia ou órgão do Ministério
177 FILIPPETTO, Rogério; ROCHA, Luísa Carolina Vasconcelos Chagas. Colaboração premiada – contornos
segundo o sistema acusatório. Belo Horizonte: D’Plácido, 2017, p.78.
178 FERNANDES, Antonio Scarance. Teoria geral do procedimento e o procedimento no processo penal. São Paulo: RT, 2005, p. 38-39.
Público), corrompe a finalidade de se identificar a apuração dos fatos tais quais se passaram
no mundo fenomênico.
O risco é corromper os valores da persecução criminal, nos quais os delatores
frequentes podem direcionar seletivamente as informações a serem levadas ao conhecimento
do coletor para calcular a isenção ou diminuição da pena e a proteção do patrimônio
amealhado ilicitamente, perdendo-se os fundamentos da pena e incentivando a prática de
ilícitos.
É importante considerar a violação do devido processo legal em razão do
prejulgamento exercido na homologação pelo julgador ao reconhecer a existência de autoria,
materialidade e os elementos caracterizados do crime, além da causa de diminuição de pena,
conforme nos adverte Heloísa Estellita
179:
Assim, afora a ínsita ilegalidade da celebração de acordo entre
indiciado/acusado e Ministério Público e sua homologação pelo juiz, a
natureza jurídica da delação premiada impede que se possa falar em acordo
antecipando sua aplicação. De um lado porque não incumbindo ao
Ministério Público proferir sentença, não pode (ou não deve) prometer algo
que não pode cumprir; de outro porque, acaso o acordo seja “homologado”
pelo magistrado, tal proceder implica duplo julgamento antecipado do
mérito da ação penal: a) o juízo de condenação; b) o juízo acerca da
presença dos requisitos legais para a aplicação da causa de diminuição da
pena.
Por sua vez, Jacinto Nelson de Miranda Coutinho
180ressalta a inconstitucionalidade da
delação premiada pela violação de devido processo legal, porque não há contraditório e, por
decorrência, não existe processo sem o mencionado contraditório. Acrescenta a violação do
devido processo legal, porque não pode haver pena sem processo:
Portanto, antes de tudo, é preciso mudar o sistema. Em segundo lugar — e
sem opção, diante da Constituição — é induvidosa a inconstitucionalidade
da delação premiada. E assim o é porque há um ferimento inadmissível à
regra do devido processo legal. Há, nas modalidades praticadas, pena sem
processo, de todo inadmissível. Basta ver que para que se possa homologar o
acordo é preciso que haja processo (só dele pode advir pena), o que só se
admite depois de oportunizado o contraditório. O processo, porém, como se
sabe, é justamente aquilo em que (no iter de formação de um ato, como
queria Fazzalari), como procedimento, recebe efetivo contraditório. Na
delação premiada, sem embargo de tudo, não há processo porque não há
contraditório; e aí também reside a inconstitucionalidade.
179 ESTELLITA, Heloísa. A delação premiada para a identificação dos demais coautores ou partícipes: algumas reflexões à luz do devido processo legal. Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Boletim 202, set. 2009.
180 COUTINHO, Jacinto Nelson de Miranda. Fundamentos à inconstitucionalidade da delação premiada.
O Ministro Gilmar Mendes na Pet 7074 STF
181mencionou o caso da Odebrecht no
qual pessoas cumprirão pena sem inquérito ou sem processo em manifesta violação ao devido
processo legal:
O Professor Gustavo Badaró foi ouvido pela mencionada reportagem. Seus
comentários foram precisos: “A lei 12.850, que regula a delação premiada,
determina que haja três fases num acordo. A primeira é a negociação.
Depois, a homologação por um juiz. E então a sentença, que será aplicada
observando os benefícios negociados. O que se fez no caso da Odebrecht não
foi isso. Existem pessoas que não foram sequer investigadas e vão cumprir
pena sem inquérito, sem denúncia e sem sentença. É algo, realmente, de
novidadeiro. Vão cumprir pena sem inquérito, sem denúncia e sem sentença.
É o novo Direito Penal, que viola o princípio da legalidade, mas, mais do
que isto, viola a própria Constituição.
Por isso, o Ministro Celso de Mello destacou a importância do controle do Poder
Judiciário ao homologar o acordo de colaboração premiada, a fim de – resguardando a
legalidade – afastar cláusulas abusivas, ilegais e inconstitucionais:
Dessa maneira, a supervisão judicial das cláusulas mostrar-se-á sempre
presente em relação a cada acordo de colaboração premiada, pois a
fiscalização de legalidade pelo Poder Judiciário destina-se, precisamente, a
impedir que se ajustem, no pacto negocial, cláusulas abusivas, ilegais ou
desconformes ao ordenamento jurídico.
182É interessante observar o posicionamento de Canotilho sobre a Operação Lava-Jato,
em que destaca a necessidade da estrita observância do princípio da legalidade processual
penal, declarando ser ilícita e não merecendo ser aceita a delação homologada que ajustou
benefícios fora dos padrões legais
183:
Transpostos estas várias dimensões em que, no fundo, se projetou o princípio
constitucional da legalidade processual penal para o âmbito da colaboração
premiada, manifestam-se todas elas de modo convergente numa imposição
de rigorosa observância de todas as determinações legais que ditam os
termos processuais que regulam a sua formação e efetivação. Uma obrigação
de conformidade processual que, como é evidente, deve também ela ser
181 CONJUR. Voto Min. Gilmar Mendes. Disponível em: <http://s.conjur.com.br/dl/voto-gilmar-mendes-revisao-delacao-stf.pdf>. Acesso em: 25 nov. 2017.
182 CONJUR. Voto do Ministro Celso de Mello na Petição 7.074. Disponível em: <http://s.conjur.com.br/dl/voto-celso-delacao.pdf>. Acesso em: 25 nov. 2017.
183 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; BRANDÃO, Nuno. Colaboração premiada e auxílio judiciário em matéria penal: a ordem pública como obstáculo à cooperação da Operação Lava-Jato. Revista de Legislação e de