4.3 ANÁLISE SOBRE O PRISMA CONSTITUCIONAL
4.3.1 Princípio da Titularidade da Ação e Obrigatoriedade
Titularidade da ação
A titularidade para o exercício da ação penal pública vem prevista no art. 129, inc. I,
da Constituição ao dispor que são funções institucionais do Ministério Público: promover,
privativamente, a ação penal pública, na forma da lei. A delação premiada viola em certa
medida este dispositivo.
A Lei 12.850/2013prevê – no art. 4º, § 2
o– a possibilidade de o delegado de polícia
representar ao juiz pela concessão de perdão judicial ao colaborador, ainda que o benefício
não tenha sido previsto na proposta inicial de colaboração premiada. Por sua vez, o § 6
o, do
mencionado art. 4º, dispõe sobre a possibilidade do acordo de colaboração ser realizado entre
o delegado de polícia, o investigado e o defensor, com a manifestação do Ministério Público e
§ 11 dispõe que a sentença apreciará os termos do acordo homologado e sua eficácia. Por sua
vez, o art. 6º da Lei 12.850/2013 confere atribuição do delegado de polícia de inserir as
condições no termo de acordo de colaboração premiada.
Os mencionados dispositivos (art. 4º, §§2º, 6º e 11, e art. 6º, inc. II) da Lei
12.850/2013 autorizariam o delegado de polícia a celebrar um acordo de perdão judicial a ser
homologado pelo juiz, elevando a polícia a condição de parte e – por decorrência – conferindo
capacidade postulatória.
113 “Não subsiste mais nenhuma controvérsia quanto a constitucionalidade da colaboração premiada, conforme reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal, em algumas oportunidades: A constitucionalidade da colaboração premiada, instituída no Brasil por norma infraconstitucional na linha das Convenções de Palermo (art. 26) e Merida (art. 37), ambas já submetidas a procedimento de internalização (Decretos 5.015/2004 e 5.687/2006, respectivamente), encontra-se reconhecida por esta Corte (HC 90688, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKJ, Primeira Turma, julgado em 12/02/2008, DJe-074 DIVULG 24-04-2008 PUBLIC 2504-2008 EMENT VOL-02316-04 PP-00756 RTJ VOL-00205-01 PP-00263 LEXSTF V. 30, n. 358, 2504-2008, p. 389-414) desde antes da entrada em vigor da Lei 12.850/2013, que exige como condição de validade do acordo de colaboração a sua homologação judicial, que é deferida quando atendidos os requisitos de regularidade, legalidade e voluntariedade.” (STF, Pet. 5952/DF, Rel. Min. Teori Zavascki. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/wp-content/uploads/sites/41/2014/09/decisaoteori.pdf> Acesso em: 25 nov. 2017).
No entanto, a Procuradoria-Geral da República alega na ADI 5.508 Ação Direta de
Inconstitucionalidade que o Delegado de Polícia não pode conduzir a delação, sob pena de
violar
o devido processo legal, princípio da moralidade, princípio acusatório, a
titularidade da ação penal pública, exclusividade do exercício de funções do
Ministério Público por membros legalmente investidos na carreira (art. 129,
§ 2º, primeira parte) e a função constitucional da polícia, como órgão de
segurança pública (art. 144, especialmente os §§ 1º e 4º).
A complexidade diz respeito à titularidade para o exercício da ação penal pública, que
– nos termos do art. 129, inc. I, da Constituição Federal – é do Ministério Público. Por isso,
ofende o princípio da titularidade da ação penal pública o acordo celebrado pelo Delegado de
Polícia com o investigado/Defensor, porque a autoridade policial não tem capacidade
postulatória para o perdão judicial, sendo a titularidade do parquet.
A hipótese do Delegado de Polícia celebrar o acordo de delação premiada com a
ausência do Ministério Público é o exemplo mais evidente da violação da titularidade da ação
penal. Vale ressaltar que o parquet terá ciência posteriormente, quando poderá ser manifestar.
Nem se olvide que a delação pode ocorrer no inquérito e que o art. 6º, inc. II, da Lei
12.850, prevê que o termo de acordo da colaboração premiada deverá conter as condições da
proposta do delegado de polícia, portanto em flagrante violação à titularidade da ação penal.
Ademais, concorrendo indícios de autoria e materialidade o representante do Ministério
Público está obrigado a propositura da ação penal, o que não ocorrerá em razão da delação
premiada.
Além da violação do princípio da obrigatoriedade da ação penal pública, ao atribuir ao
delegado de polícia a propositura do acordo, subtraindo a colaboração do Ministério Público.
A exclusividade para a propositura da ação penal pública ao órgão do Ministério Público (art.
129, inc. I, CF) não pode conferir ao delegado de polícia a iniciativa do perdão judicial, pois a
iniciativa é ministerial. Logo, a discordância ministerial não autorizará a colaboração.
Princípio da Obrigatoriedade
É necessário ressaltar que a substituição da obrigatoriedade pela oportunidade na
justiça consensual tem repercussões na administração da justiça como a perda de legitimidade
das instituições de justiça criminal, como no acordo de delação dos irmãos Joesley e Wesley
Batista que descrevem 240 condutas criminosas
114, que poderiam redundar de 400 até 2 mil
anos de pena privativa de liberdade, mas que receberam o perdão judicial.
No exercício da ação penal, alguns princípios precisam ser observados. Um
deles consiste na necessidade ou obrigatoriedade da ação penal pública, ou
seja, quando os elementos probantes da atividade delitiva forem notórios e
constituírem substrato suficiente para a propositura da ação penal, deve esta
ser manejada, uma vez que o juízo de formação da opinio delicti, por parte
do Ministério Público, é um juízo vinculado de legalidade e não de
oportunidade ou conveniência.
115A delação premiada promove uma inadequada atenuação ao princípio da
obrigatoriedade da ação penal, ao estabelecer a possibilidade do perdão judicial no art. 4º,
caput, da Lei 12.850/2013. O arrefecimento do princípio da obrigatoriedade é de manifesta
inconstitucionalidade se considerarmos que o art. 98, inc. I, da Constituição autoriza somente
a transação para as infrações de menor potencial ofensivo. Logo, para crimes de elevada
gravidade a mitigação da obrigatoriedade manifesta-se como inconstitucional.
Se pelo princípio da obrigatoriedade o órgão do Ministério Público está obrigado a
promover a ação penal pública, quando formar a sua opinio delicti sobre os indícios de autoria
e materialidade, não pode o parquet pela conveniência ou oportunidade deixar de promover a
ação penal pública nestas hipóteses.
A delação premiada introduziu o princípio da oportunidade na ação penal pública
incondicionada, ao arrepio do art. 98, inc. I, da Constituição, oportunizando também a
violação da garantia da inderrogabilidade do juízo, pois o juiz apenas observaria o feito
homologando-o ao final.
Nesse sentido, Heloísa Estellita
116entende ser ilegal a negociação entre acusação e
defesa em razão do princípio da obrigatoriedade:
Ao contrário, no estágio atual de nosso direito positivo, a celebração de
qualquer acordo entre acusação e indiciado/imputado ou entre juiz e
indiciado/imputado é ilegal. Quer sob o ponto de vista de “negociação” da
aplicação da redução da pena ou do perdão judicial, quer sob o ponto de
vista da concessão de benefícios processuais: nosso direito positivo “não
prevê a concessão de benefícios de caráter processual ao imputado
114 GODOY, Marcelo. Acordo perdoa 2 mil anos de prisão para delatores da JBS. O Estado de S.Paulo, 4 junho 2017. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,acordo-perdoa-2-mil-anos-de-prisao-para-delatores-da-jbs,70001825126>. Acesso em: 25 nov. 2017.
115 FILIPPETTO, Rogério; ROCHA, Luísa Carolina Vasconcelos Chagas. Colaboração premiada – contornos
segundo o sistema acusatório. Belo Horizonte: D’Plácido, 2017, p. 78.
116 ESTELLITA, Heloísa. A delação premiada para a identificação dos demais coautores ou partícipes: algumas reflexões à luz do devido processo legal. Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Boletim 202, set. 2009.