2.16 A Ética, a Bioética e Seus Princípios
2.16.3 Dos Princípios da Bioética
2.16.3.4 Princípio do Consentimento Informado ou Conscientizado
O direito ao consentimento informado faz menção a uma decisão proferida na Inglaterra em 1767, fruto de uma sentença do caso judicial inglês Slater versus Baker & Stapleton. A decisão ocorreu porque o tribunal inglês responsabilizou dois médicos que agindo sem o consentimento do paciente, quebraram um osso da sua perna para tratar de uma fratura mal consolidada. No século XX, a Corte norte- americana começou a discutir a autonomia das pessoas no que se refere a cuidados com a saúde. Em 1914, o caso Scholoendorff versus Society of New York Hospital, confirmou o que muitos já esperavam: o entendimento sobre a ilicitude no comportamento médico com as devidas consequências jurídicas (indenizações, reparações, etc.).
Foi somente com o término da Segunda Guerra Mundial, que eclodiu em todo mundo a idéia do respeito à dignidade da pessoa humana. Com isso, em 1947 surgiu o “Código de Nuremberg” e com ele, o conceito de “consentimento voluntário”. Inicialmente estava voltado para disciplinar os direitos das pessoas submetidas a experimentos, e isto foi devido a todas as atrocidades cometidas por médicos nos campos de concentração nazistas.
O Código de Nuremberg é uma declaração contendo 10 pontos, que resumem aquilo que seria permitido em experimentos médicos com participantes humanos.
medida em que garantiu às pessoas, o direito de submeterem-se a tratamento médico caso manifestassem o seu consentimento, ou seja, não era mais aceitável experiências feitas voluntariamente pelos médicos sem o consentimento do paciente.
A primeira cláusula deste documento aponta para o fato de que o consentimento informado de uma pessoa é algo absolutamente essencial na relação entre médicos e paciente. (Vide Anexo VII)
Nota-se que a noção de “consentimento informado” referia-se inicialmente, como todo conceito quando surge como a idéia de não se permitir aleatoriamente que pessoas fossem objetos de experimentos científicos.
Posteriormente e gradativamente, a noção foi se alterando e somente em 1957, o termo alcançou o significado mais próximo do que conhecemos hoje em dia. Isto ocorreu devido à decisão proferida no caso Salgo versus Leland Stanford Jr. University Board of Trustees, quando um Tribunal da Califórnia decidiu que os médicos devem revelar todos os fatos ao paciente, para que ele preste um “consentimento informado” à cerca de sua decisão. Segundo o juiz Bray, o médico não pode ocultar qualquer fato nem minimizar os riscos inerentes a um procedimento médico, com vistas a obter o consentimento do paciente.
O paciente tem o direito de estar devidamente informado, para assim, ter condições de consentir ou até mesmo recusar, procedimentos diagnósticos ou terapêuticos, e de impedir tratamentos dolorosos ou extraordinários que prolonguem a sua vida, além de, escolher o local que deseja morrer. Revista Consultor Jurídico, (20 de abril de 2009 - Artigo: Direito à informação - Paciente tem direito de escolher melhor tratamento (por Roberto Baptista Dias da Silva). Acesso em 31/08/2009 do site: <http://www.conjur.com.br/2009-abr-20/paciente-direito-informacao-decidir- melhor-tratamento#_ftn2_2627#_ftn2_2627>.)
O consentimento informado, nada mais é do que uma decisão do paciente, tomada de forma voluntária, verbal ou escrita, transmitida por uma pessoa autônoma e capaz, ajuizada após um processo informativo, para a aceitação de um tratamento terapêutico específico, estando consciente de seus riscos, benefícios e das possíveis consequências.
Não é apenas um mero contrato entre as partes. È acima de tudo um “processo de relacionamento” baseado na confiança e na boa-fé, cujas partes, cientes das suas clausulas e condições propõem-se a cumpri-las.
Importante ressaltar que o consentimento informado é para aqueles pacientes que se encontram no gozo de suas faculdades mentais. Visto que existem circunstâncias especificas que restringem e limitam a obtenção do consentimento informado por parte do médico ao paciente.
Quadro 8 Situações que Restringem e/ou Limitam a Obtenção do Consentimento Médico • A incapacidade: em crianças e adolescentes é necessário o consentimento do representante legal, em adultos, é necessário o consentimento da família se houver diminuição da consciência, e nos casos de patologias neurológicas e psiquiátricas severas;
• Em situações de urgências médicas, quando se necessita agir e não se pode obter o consentimento prévio do paciente, salvo se o paciente tiver previamente manifestado a sua vontade;
• Na obrigação legal de declaração de doenças de notificação compulsória;
• Quando houver risco grave para a saúde de outra pessoa, cuja identidade é conhecida, obriga o médico a informá-la, mesmo que o paciente não autorize;
• Quando o paciente recusa-se a ser informado e participar das decisões.
É através do consentimento informado que o paciente terá a certeza de que o médico cumprirá o acordo e não utilizará um tratamento que não lhe foi consentido.
Em 1995 na cidade de Bali (Indonésia) aconteceu a 47º Assembléia Médica Mundial sobre os Direitos do Paciente e lá, dois direitos relacionados ao respeito pela Autodeterminação do paciente foram consagrados: o direito que o paciente tem de tomar suas decisões livremente e o direito de dar ou negar o seu consentimento para qualquer terapia ou tratamento.
O Código de Ética Médica em seus artigos 46, 48, 56 e 59, impõe ao profissional da área de saúde o dever ético de prestar todas as informações possíveis ao enfermo, acerca do seu diagnóstico, prognóstico, risco e finalidade do tratamento ou intervenção. O referido compêndio prevê somente duas exceções à conduta médica:
- quando a informação vier a causar dano ao paciente, e - em caso de iminente risco de morte.
Proíbe ainda ao médico, efetuar qualquer procedimento que seja sem o esclarecimento e consentimento, prévios, do paciente ou de seu responsável legal.
Com relação à primeira exceção, “quando a informação vier a causar dano ao paciente”, deve se atentar para o fato de que o médico não deve usar desse subterfúgio por receio de que, em face disso, o paciente venha a recusar o tratamento sugerido, após conhecer a real situação em que se encontra. Porque se isto acontecer, o médico está infringindo o art. 48 do Código de ética, que o impede de exercer a sua superioridade técnica de modo a limitar o direito de o paciente decidir livremente sobre sua saúde e seu bem estar. Além do que, estará ainda, violando o direito de informação do paciente, impedindo que esse decida com autonomia acerca do caminho a ser tomado com relação à sua condição de saúde.
Ocultar a verdade sobre a real situação de um doente, somente deve ser feito pelo médico quando, com base em sua experiência profissional, perceber que isto pode causar mais dano que benefício ao paciente.
Comentando a última exceção (em caso de iminente risco de vida) ela entra em choque com os princípios bioéticos da autonomia e do consentimento informado. E não deve ser interpretada como recomendação ao médico para que intervenha sobre o paciente ainda que contra a sua vontade.
A intervenção do médico é vista como uma faculdade que lhe é permitida, ou seja, o médico poderá intervir por sua própria vontade, caso ele não vislumbre outra chance de salvar a vida daquele paciente. Haja vista que “iminente risco de vida” deve ser entendido como um caso de urgência ou emergência médicas, em que não haja tempo de prestar ao doente as informações necessárias e, por conseguinte, receber dele o consentimento autorizando ou não o tratamento.
Ademais, tais exceções não poderão ser vistas como determinações a serem seguidas. Facultam ao médico agir, mas não obrigam que ele o faça. Além disso, não se podem entender as exceções como uma espécie de autorização para que o médico imponha ao enfermo um tratamento contra a sua vontade, sob a alegação de que está atuando sob o iminente risco de vida ou ainda, ao comando bioético da beneficência. O que seria um tremendo equívoco, pois o principio da beneficência deve acima de tudo, levar em consideração o interesse da vontade do paciente e não pode ser traduzida baseada na idéia de benefício que o médico imagina que trará ao paciente. Afora isto, o CEM (Código de Ética Médica) não pode sobrepor-se
às liberdades públicas e clássicas garantidas aos cidadãos pela Constituição Federal.
De igual modo, o Art. 56 do mesmo código de conduta, diz ser vedado ao médico desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente perigo de vida.
Obrigar um paciente a submeter-se a um determinado tratamento de saúde, quando sua vontade se mostra contrária ao tratamento, constitui uma clara violação à dignidade e integridade física, psíquica e moral do paciente. Esta submissão resulta inconstitucional, porque cada pessoa é livre para decidir se é ou não, caso de recuperar própria saúde. Nem o Estado, nem terceiros, podem obrigar a alguém a se tratar e a cuidar da própria saúde. Se somos donos das nossas próprias vidas, em princípio, somos livres para cuidar, ou deixar de cuidar de nossa saúde, cuja conseqüente deterioração, pode até a vir causar-nos à morte que, licitamente, cada um pode imputar-se. Haja vista que o suicídio não é tido como crime pelo nosso código penal brasileiro.
O consentimento informado, portanto, não é apenas o posicionamento subjetivo do paciente. É antes de tudo, uma decisão amparada por dispositivos legais vigentes que devem ser respeitados.
Diversos médicos renomados em várias partes do globo já adotam os princípios bioéticos no exercício profissional, e desta forma já se solidifica no mundo, a idéia de que cabe ao paciente decidir o que é melhor para sua vida. Confirmando tal assertiva, a Revista “Isto é” em matéria intitulada “O Poder do Paciente”, informa que “ o paciente ganha voz na hora de decidir os rumos do tratamento e começa a dividir a dividir com os médicos a responsabilidade sobre os cuidados com a própria saúde.”(O Poder do Paciente - Revista ISTO É - Edição de 10/10/2009 - Medicina e Bem Estar - Matéria de Cilene Pereira e Mônica Tarantino)