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Capítulo I – Princípios Estruturantes da Escola Sensível e Transformacionista

I. 2.5 – Princípio do espelhamento mediatizado

Estamos perante um princípio que nesta escola e por inerência na formação que lhe está adstrita tem lugar de relevo. A técnica que lhe é própria tem vindo a constituir- se um recurso de grande dimensão. Tendo sido inicialmente desenvolvida por Luís Barbosa em 1994 em França, na Universidade de Caen é, desde então, objecto de estudo no seio do grupo de investigação que dirige há mais de uma década e aplicada em diferentes contextos formativos.

Os avanços conseguidos, levaram o autor (2004, p.201), a considerar que no momento actual a Técnica do Espelhamento se revela um instrumento essencial para permitir que as organizações em geral e as educativas em particular se constituam observatórios de diagnóstico de necessidades educativas e formativas dos actores e, também, que se organizem fóruns orientados para os desígnios da profissionalidade.

A utilização desta técnica, inserida num contexto em que a pesquisa é um instrumento diário, permite mostrar que as estratégias de formação são fulcrais para o aparecimento de agentes educativos de elevada capacidade de reflectir na acção. Acreditamos que, através das práticas de caracterização e complementarmente das de espelhamento, aqueles que nesta escola se formem se «transformem em agentes técnico/críticos, capazes de construir adequadas interacções e que saibam também analisar os indicadores de empatia que estão subjacentes às relações que desenvolvem» (ob. cit., p.202).

A técnica do espelhamento é um instrumento com o qual o Homem satura semanticamente o Mundo, recorrendo a sistemáticas linguagens através das quais procura compreender mais profundamente o Universo. Tais preocupações estão ancoradas em dois corpos de ideias. As naturalistas, segundo as quais Hegel entende que o espírito dialoga com o Ser e as fenomenológicas que, segundo Husserl, permitem visualizar uma das formas mais particulares em que o pensamento se assume fabuloso descritor da realidade.

Barbosa (2003, p.25) conduz-nos através da obra “Técnica e Ciência como

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salientando o que o filósofo escreve a páginas nove, em Advertência Preliminar, confrontando Herbert Marcuse e a sua tese de que a força libertadora da tecnologia – a

instrumentalização das coisas – transforma-se em travão para a libertação, torna-se instrumentalização do Homem. Parecem contraditórias estas preocupações do autor com

os propósitos de Luís Barbosa mas, na verdade tal não se verifica, porque é justamente a implementação e o desenvolvimento do espelhamento mediatizado na formação profissional que faz com que o Homem seja capaz de utilizar técnicas evitando, ao máximo, os efeitos nocivos da instrumentalização.

Os princípios que sustentam a técnica do espelhamento radicam no entender de Barbosa (2003, p.27) em que:

“… a organização categorial, quer seja conseguida através das categorias referidas por Hegel, quer através de outras, é sempre responsável por outros tantos modelos básicos de dialéctica dos quais fazem parte de facto, como o filósofo refere a representação simbólica, o processo de trabalho e a organização da interactividade e que, efectivamente, a função essencial dessa dialéctica é exercer a actividade de mediação entre o sujeito que conhece e o objecto que é conhecido”.

A este propósito, Habermas (1997, p.13), diz que o «Eu é a unidade pura que se refere a si mesma, e isto não de modo imediato, mas abstraindo de toda a determinidade e conteúdo, e que se recolhe na liberdade da igualdade ilimitada consigo mesma». Para o filósofo o Eu é também de forma imediata, enquanto negatividade que a si mesma se refere, particularidade, ser determinado absoluto, que se contrapõe ao outro e o exclui.

O espelhamento procura justamente criar as possibilidades de se aceder a esse outro patamar essencial do ser. No espelhamento «o Eu, abstraindo, nega o determinismo e num primeiro instante fecha-se sobre si, não para se enquistar, mas para, ao invés, se recolher num acto humilde de olhar-se a si mesmo e tornar-se livre de preconceitos» (Barbosa; 2003, p.28). Para o autor, é desta forma que qualquer Eu atinge a liberdade Universal, negando-se para deixar que o seu oposto se afirme, analisando-se a si para que de si, e em síntese, emerja o outro enquanto alteridade, qual ave que expulsa a sua cria do ninho para que se afirme voando. O Eu de cada um atira mesmo o

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Eu do outro para fora da sua natureza, deixando que o outro se afirme e quanto mais o outro é em si mais se torna ser absoluto na sua integridade.

Se Hegel considera que o Eu é a um tempo analítico e sintético e o espelhamento é de facto o processo através do qual o Homem cria a humildade de se enquistar sobre si mesmo para deixar que uma alteridade ao seu Eu se afirme e, por isso, o ajude a tornar- se mais ser do Mundo, Barbosa (ob. cit., p.30) assume que a sua perspectiva está aqui perto de Hegel, porque ao conceber o espelhamento sempre o pensou como um momento em que um Eu, qualquer que seja, por se ver ao espelho liberta outro Eu, opondo-se esta ideia à de que o Eu roda sobre si para se transfigurar sistemicamente no contrário de si.

Assim sendo, estudar o aluno em acção de aprendente é essencial, pelo que a preparação dos agentes educativos é factor central para que saibam analisar a acção do professor enquanto alguém que, ensinando, o faz aprendendo permanentemente com os alunos. Há pois que fazer sair das universidades um agente educativo que perceba o carácter transformacionista das organizações educativas. A investigação que realizámos mostra que as mudanças verificadas, desde logo no investigador, nos professores que connosco colaboraram directamente e nos alunos com que trabalhámos, validam as concepções apresentadas.

Importa construir a relação educativa/pedagógica como micro universo de análise e de espelhamento, sobretudo para que cada um dos profissionais compreenda como essa relação é, ou pode ser, a fonte de sabedoria de onde tem de emergir o Saber no seu entendimento mais lato. Seguindo Barbosa (2001), urge então investigar para saber como é que cada agente de ensino organiza as suas aprendizagens e as dos outros. Sendo fundamental orientar a utilização da investigação no sentido de ajudar cada profissional a efectuar diagnósticos de necessidades educativas de forma a poder inferir sobre formas de intervenção educacional. Estas preocupações estão próximas de Zabalza (1994) e de Estrela (1992) quando se sugere que com base nos registos protocolados das observações, das entrevistas, ou até das simples fichas de leitura se consigam sucessivas categorizações de informação cada vez mais rigorosas e cientificamente ordenadas.

É esta construção que Luís Barbosa procura induzir nos agentes educativos, para que com base numa prática de reconstrução permanente do saber ministrado, o

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espelhamento individual vá fazendo emergir o saber geral. Para o autor, é essencial que cada um organize um dossier técnico de características profissionais que dê conta ao docente e aos seus pares da forma como foram utilizados os instrumentos científicos com os quais se recolheu a informação (protocolos de observação, guiões de entrevistas, etc. …) e ainda como construiu e organizou aquilo a que chama de «cartas de sinais de

necessidades educativas, formativas e de orientação estratégica da acção educativa». É

portanto com este dossier que o espelhamento passa de acto individual a colectivo. Para que haja efeitos acrescidos no espelhamento que preconiza, dever-se-á ter sempre em mente a necessidade de organizar periodicamente reuniões entre pares que servirão não só de avaliação geral do processo ensino/aprendizagem como de reflexão sobre temáticas emergentes dos factos e actos educativo/pedagógicos observados. É a base da pedagogia orientada para a ajuda ao outro, a «pedagogia de ajuda» Barbosa (2001).

I.3 – A pedagogia de ajuda como ancoragem da Escola Sensível e