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PRINCÍPIO E FUNDAMENTO (FUNDAMENTO METAFÍSICO E

Impende, entretanto, salientar que, dentro da noção de “princípio” que encerra simultaneamente as idéias de “início” e de “fim”, na Teoria do Direito a palavra “princípio” assumiu, preferencialmente, a acepção de “fim”, de “finalidade”, de “objetivo”, e na órbita da Filosofia do Direito a categoria do princípio assumiu, também preferencialmente, a noção de “início”, de “base” ou de “fundamento”. Em primeiro lugar é importante ressaltar que não se trata de um erro lingüístico, mas tão comum, de tomar-se o efeito (fim) pela causa (início), pois,

106 Não se trata, ao contrário do que muitos afirmam a respeito, de uma Filosofia Ateísta no sentido de uma

categórica negação da existência de um Deus criador, mas tão-só de uma espécie de corte epistemológico que procura distinguir as questões religiosas ou de fé e as questões filosóficas não apriorísticas. Heidegger negava peremptoriamente o rótulo de ateu, e Sartre chegou a afirmar, respondendo às críticas, em seu opúsculo “O existencialismo é um humanismo”, que o seu existencialismo não se apresentaria como sendo ateu no sentido da negação categórica da existência de um Deus, mas apenas que, por não existir um telefone que permitisse ao homem o contato com um tal Deus criador, a fim de indagar-Lhe sobre as respostas aos referidos questionamentos fundamentais, então, o homem deveria procurar pelas respostas no próprio mundo da existência humana.

no caso, o fim é, em última análise, a projeção da causa, não havendo como se distinguir completamente a causa e o efeito. Em segundo lugar é importante ressaltar que se trata apenas de um uso preferencial, pois numa menor escala os ordenamentos jurídicos e a Ciência do Direito usam também a palavra “princípio” para se referir aos fundamentos. Com efeito, a expressão “princípios fundamentais” é ambígua, reportando-se ora aos princípios– fundamento107, a base sobre a qual se funda toda a ordem jurídica, ora aos princípios-objetivos ou princípios-finalidade-maior108, os fins ou finalidades que devem ser precipuamente, antes de todos os outros e dos quais muitos outros constituem desdobramentos menores, perseguidos ou promovidos pelo Estado. Na verdade, os princípios-fundamento e os princípios-finalidade são, como esclarecido, dois aspectos de uma mesma idéia, na medida em que início (começo) e fim (extinção) são as interfaces de uma mesma ideal central: a idéia de “temporalidade”. Todo início é início no tempo. Todo o fim é extinção no tempo. Início e fim são, pois, noções temporais. Mesmo o fim tomado como objetivo é uma noção temporal, porque quando o objetivo (fim) é alcançado ou o projeto é realizado, dá-se o “final”, o “termino” ou a “extinção” da história (o fim da história)109. E toda a história é a história de um projeto realizado no tempo. O ente tem “princípio” (início) no tempo a partir de um projeto ideal e estático. O “meio” é a dinâmica da realização do projeto, é o projeto em “persecução” ou em “promoção”, quando o ente ideal é lançado para o mundo real. O “fim” é o ente já realizado concretamente e, portanto, estático110. É certo que alguns diriam que as noções de início e fim não seriam categorias exclusivas do “tempo”, mas também afetas à noção de “espaço”. A foz de um rio seria o fim e a nascente o seu início no espaço geográfico. Diriam ainda que nós espacializamos o tempo111, porque medimos o tempo utilizando-nos do critério da variação do espaço, nos mecanismos do relógio moderno ou da antiga ampulheta. Porém, uma análise mais percuciente do material teórico já há muito disponível nos revelaria que uma tal afirmação seria equívoca, na medida em que, na verdade, tempo e espaço são também dois aspectos de uma mesma realidade. Não há tempo fora do espaço e não há espaço fora do tempo. Um sempre é mensurável em relação ao outro. Não são ambos absolutos em si mesmos, porém, relativos, um ao outro. Essa, aliás, é uma conclusão a que chegou, no início do século XX, a Ontologia Fundamental e que coincide com a mesma conclusão a que chegou a Física, também no mesmo momento histórico112.

Portanto, as noções de início e de fim, à luz da Ontologia Clássica, estão associadas indissoluvelmente uma à outra. Quando se fala no início do que é (existe)ente (na medida em que o início é início no tempo) reporta-se também, ainda que implicitamente, ao seu fim, ao qual está ligado pelo elo do tempo. Percebe-se, então, a correlação necessária entre as noções de início e de fim. E nesse sentido, na Teoria do Direito, percebe-se também a correlação intrínseca entre os princípios-fundamento (início) e os princípios-objetivos (fim). Um é, pois, a projeção do outro. São eles as interfaces de uma mesma categoria jurídica, seja essa categoria

107 CRFB, art. 1. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do

Distrito Federal. Constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania;

II – a cidadania;

III – a dignidade da pessoa humana;

IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político.

108 CRFB, art. 2. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

109 Cf. Francis Fukuyama, O Fim da História.

110

Bíblia, Antigo Testamento, Gênesis: “No início era o verbo...” 111 Cf. Miguel Reale, Filosofia do Direito.

vista numa perspectiva metafísica (princípios de direito natural), seja ela vista numa perspectiva empírica (princípios de direito posto). Exemplifiquemos. Num primeiro momento pré-jurídico (entendendo-se como “jurídico” apenas o direito estatal) historicamente uma sociedade e seus líderes chegam a constatação, como resultado de experiências históricas (tais como conflitos vividos internamente e seguidos de reflexão racional sobre os problemas do homem e da condição humana), de que os homens são ontológica ou essencialmente iguais, sendo as suas diferença, tais como raça, credo, origem etc, meramente acidentais. As diferenças entre as classes ou segmentos sociais, conclui-se, seriam decorrentes de circunstâncias históricas acidentais, embora os homens sejam, natural e essencialmente, iguais entre si. De tal constatação, são inferidas conseqüências éticas quanto às relações sociais. Se todos são iguais, todos teriam, portanto, a mesma dignidade, quer dizer, todos seriam também merecedores de uma vida minimamente decente, com habitação, saúde, educação etc. Contudo, no mundo factual das relações humanas a igualdade ainda não é uma realidade concreta. As sociedades são ainda caracterizadas, numa escala maior ou menor, pelo desequilíbrio social, pela desigualdade; onde alguns têm muito e outros sequer o mínimo necessário a uma vida digna, vivendo, pois, abaixo da linha de pobreza. Nesse contexto, uma decisão “política” cria um mundo imaginário de normas, o mundo jurídico, estabelecendo como norma principal ou fundamental, sobre a qual todas as demais são postas, a norma que reconhece a igualdade de todos os homens (a norma- princípio da isonomia). Perceba-se, aí, a distinção entre a igualdade enquanto constatação (princípio-fundamento), sobre a qual é lançado o projeto (ideal) de persecução ou promoção da “realização” desse “ideal” da igualdade (princípio-finalidade). O que se chama de “princípio da igualdade” é uma idéia que, no tempo, possui três momentos sucessivos de manifestação: (i) a igualdade enquanto constatação e projeto ideal (início); (ii) a igualdade como persecução dinâmica para a progressiva realização do projeto (meio), quando a idéia paulatinamente torna- se coisa real; e (iii) a igualdade como resultado já plenamente concretizado (fim), quando não há mais apenas a igualdade do mundo ideal e sim a igualdade no mundo factual. Realizar o ideal significa dizer, envidar esforços para que a idéia, ente do mundo ideal (jurídico), torne-se realidade no mundo factual (promoção), ou se já é realidade, assim permaneça (preservação). A igualdade entre os homens, em face dos mais diversos critérios, tais como o econômico, o da educação, o da habitação etc., não é, pois, ainda uma realidade em toda a sua extensão, mas tão- só igualdades parciais ou igualdade em relação a apenas alguns dos numerosos aspectos da vida humana. Quando o legislador constituinte afirma que todos são iguais, com tal afirmação jurídica ideal não torna automaticamente todos os homens iguais entre si em face dos mais variados critérios ou aspectos das relações factuais da vida social. A realidade social não é instantaneamente alterada com tal imposição jurídica imaginária. Tal imposição encerra, na verdade, um projeto de alteração da sociedade, ou um projeto de preservação, se a igualdade já foi realizada concretamente dentro de patamares razoáveis. O princípio da isonomia é um princípio fundamento, na medida em que reconhece que os homens são por natureza essencialmente iguais, e em virtude do que não podem ser tratados desigualmente, conquanto acidentalmente, por circunstâncias históricas, ainda sejam socialmente diferenciados em face dos mais variados critérios. E o princípio da isonomia é também um princípio-objetivo, na medida em que determina como finalidade a ser perseguida pelo Estado, a promoção da igualdades, segundo determinados critérios pré-estabelecidos pelo legislador. O mesmo se diga em relação a outros princípios, que, explícita ou implicitamente, têm um aspecto de princípio- fundamento e um aspecto de princípio-objetivo. Mais uma vez, portanto, como de resto em relação a quase todas as questões afetas à existência humana, deparamo-nos com a questão da relação entre o mundo ideal e o mundo real.

3 – TEORIA DA NORMA JURÍDICA

3.1 Espécies normativas: norma-princípio e norma-regra 3.1.1 Evolução do conceito de princípio