5 ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS E ONTOLÓGICOS DA
5.3 A pessoa constituída pela interioridade
5.3.5 O princípio da formação para a virtude em Dom Bosco e Maria Domingas
O empenho educativo de Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello parte de uma proposta clara e significativa aos educandos, para que possam formar uma identidade de valores. Por isso, ambos empenham-se cotidianamente na prática de virtudes e de fazer com que seja construído um ambiente educativo rico de vivências valóricas. As relações afetuosas e o clima de amizade têm o firme propósito de possibilitar que os educandos possam ir construindo esta identidade de valores – a constituição do ser pessoa a partir da formação de uma identidade de virtudes. E esta formação das virtudes passa pelas relações humanas, com isso, há necessidade de que os educadores possam ser um referencial na vivência das virtudes.
O segredo do sistema educativo de Dom Bosco estava na doçura e na prática de uma atitude de amorosidade, como se observa em suas ações concretas na educação dos jovens:
[...] porque era fortemente persuadido de que era necessário educar os meninos, abrir o seu coração, poder penetrar como na própria casa para extirpar os brotos do vicio e cultivar as flores das nascentes virtudes [...]. Dom Bosco sempre usava de bons modos paternais, delicados, inspirados na mansidão para atrair os meninos à virtude [...]84. Todos aqueles que conversavam, mesmo que fosse somente uma vez com ele, ficavam
84 Citação original: “[...] poiché era fermamente persuaso essere necessario per educare i giovani, aprire i loro
cuori, potervi penetrare come in casa propria, per stiparne i germogli del del vizio e coltivarvi i fiori delle nascente virtú. [...] D. Bosco usava sempre bei modi, soavi, paterni, ispirati a mansuetudine nell´attirare alla virtù i ragazzi [...] Tutti coloro che conversavano eziandio una volta sola con lui. Restavano innamorati della dolcezza e nobilità de suoi modi, della giovialità del suo trato. Ciò spiega in parte il fascino che esercitava sopra i suoi giovani attirandoli irresistibilamente a sé” (MEMORIE..., 1903, v. 3, p. 115-116).
enamorados da docilidade e nobreza dos seus modos, da jovialidade do seu trato, da oportunidade e graça das suas palavras. E isso, explica o fascínio que exercitava sobre aqueles meninos atraindo irresistivelmente a si. (MEMORIE..., 1903, v. 3, p. 115-116, tradução nossa)
Um educador com bondade e paternidade procura fazer com que os jovens sintam- se colocados na via da virtude (PRELEZZO, In: BRAIDO, 1997, p. 327). O educador possui a missão de infundir no coração do jovem o “amor às virtudes” e deverá ser uma presença amorosa nos momentos de recreação, na escola, no trabalho, o encorajar com palavras de benevolência para a formação de uma consciência iluminada e que assume o bem85 (BOSCO, a cura de SILVA, In: BRAIDO, 1997, p. 83-84). “Se vê que o homem deve amar a virtude e o trabalho86” (BOSCO, 1848, p. 43).
Insistentemente, no pensamento de Dom Bosco está presente a intenção de fazer os jovens compreenderem e amarem a virtude. E encontramos a ação prática de orientar os jovens sobre a verdade e a formação das virtudes. Dom Bosco expressa firmemente a orientação aos jovens sobre a verdade e a formação das virtudes, conforme encontramos na referência que indica a sua ação com os jovens:
O respeitável padre João Bosco, a cada hora com a intenção de realizar o bem do povo, não cessa de operar a favor dele com todos os meios que sabe ser os melhores. Cheio de verdadeiro amor pela humanidade, daquela que se intitula a caridade cristã, não se tem conteúdos de palavras, mas com os fatos, e já possui o pagamento pela riqueza de merecer o afeto e a gratidão de seus concidadãos. Aqueles que verdadeiramente se preocupam com o progresso moral e civil das pessoas, que procuram instrui-las com a luz da verdade, e treiná-las para a virtude [...]87. (IL CONCILIATORE TORINESE, 1849, In: BRAIDO, 1997, p. 55, tradução nossa)
85 A referência é a descrição de um encontro do ministro Urbano Rattazzi com São João Bosco (1854). Urbano
Rattazzi nasceu na Alexandria (Alessandria em Italiano), em 1808, foi advogado, deputado, ministro da educação pública e duas vezes presidente do conselho de ministros do reino da Itália. Urbano visitou a obra educativa de São João Bosco e acompanhou as atividades do oratório. O texto faz parte de dois capítulos da “Storia dell´oratorio di San Francesco di Sales”, publicada por Giovanni Bonetti. Encontramos a publicação da conversa de Dom Bosco com Urbano Rattazzi na publicação de Antonio Ferreira da Silva, na obra organizada por Pietro Braido – “Don Bosco Educatore Scritti e testimonianze”, Las Roma, 1997.
86 A citação foi tirada do Jornal “L´Educatore. Jornal de Educação e Instrução” 4 (1848) settembre, p. 542-543.
O documento está publicado na obra organizada por Pietro Braido – “Don Bosco Educatore Scritti e
testimonianze”, Las Roma, 1997, p. 43-44.
87
Comentário sobre o opúsculo escrito por S. João Bosco em 1849, “Il Sistema metrico decimale” no jornal “Il
Conciliatore Torinese”. Jornal religioso, político e literário (1849, n. 69, sábado, 9 de Junho), publicado por
Pietro Braido na obra “Don Bosco Educatore Scritti e testimonianze”, Las Roma, 1997, p. 55.
Citação Original: “Pieno della vera filantropia, di quella che s´intitola carità Cristiana, non si tien pago di
parole, ma viene ai fatti, e di questi può già mostrarne sì a dovizia da meritarsi l´affetto e la riconoscenza dei suoi concittadini. Coloro a cui sta veramente a cuore il progresso morale e civile del popolo, che cercano d´istruirlo colla luce della verità, e formarlo ala virtù [...]” (BRAIDO, 1997, p. 55).
Maria Domingas Mazzarello assume firmemente a intenção educativa em relação às virtudes. As suas cartas88 são permeadas de estímulos e motivações em torno de um aprofundamento das virtudes, como podemos encontrar em diversas expressões89:
Não acredite que as tenha esquecido, não, estais sempre presente no meu coração e vos quero bem [...] – (Carta 42); [...] porque as virtudes devem ser mais interiores do que exteriores (Carta 7); [...] fazei-as crescer sempre na virtude [...] – (Carta 17); [...] procure ser sempre um modelo de virtudes, precisa que essas virtudes sejam praticadas com o coração, mais do que com atos externos (Carta 19); [...] aperfeiçoa-se nas virtudes (Carta 45); [...] precisa que rapidamente nos fundamentemos na virtude verdadeira e sólida (Carta 49); [...] pratiquemos as virtudes [...] – (Carta 49). (POSADA; COSTA; CAVAGLIÁ, 1994)
As expressões simples de Maria Domingas Mazzarello a respeito das virtudes deixa transparecer um sentido profundo daquilo que compreende sobre o conjunto das virtudes. Essas virtudes refletem a interioridade da pessoa, nascem no interior da pessoa, e o que a pessoa é na exterioridade reflete a sua interioridade. As virtudes são cultivadas na profundidade da pessoa, na sua interioridade, por isso, vêm do coração. Estas virtudes podem ser conquistadas pela pessoa, aperfeiçoadas na própria existência.
O olhar de Maria Domingas Mazzarello é um olhar “valorizante”, consciente do valor de cada pessoa e pronta a acolher potencialidades e dotes, como a contribuir para a superação dos limites e debilidades (CAVAGLIÁ, In: POSADA; COSTA; CAVAGLIÁ, 1994, p. 23). A prática educativa inspirada na amorevolezza tem em vista fazer com que os educandos possam amar as virtudes. A intenção é colocar os jovens na via da virtude. Ou seja, existe uma clara opção de formar uma identidade constituída por virtudes.