Toda norma jurídica, ao ser criada e aplicada, deve respeitar certos parâmetros, os quais buscam a efetivação da paz e da ordem social. Esses parâmetros são chamados de princípios. Os princípios são, portanto, a base para a formação das normas. Assim, tem-se que nenhuma norma jurídica poderá ir de encontro a um principio, seja quando da sua criação, seja quando da sua interpretação.
Dessa forma ocorre com o instituto da fraude à execução. Para que as normas que o prevêem sejam efetivamente aplicadas torna-se necessária a observância de alguns princípios.
Nesta seção, portanto, o objetivo é discorrer, brevemente, acerca dos princípios que desenvolvem maior relação com a fraude à execução, muito embora existam outros que também influenciem na aplicação do referido instituto.
O primeiro princípio a ser tratado é o da patrimonialidade. Entende-se como patrimonialidade, o fato de que só é possível atingir, em um processo de execução, o patrimônio do executado, com exceção dos bens impenhoráveis. De acordo com esse princípio, jamais o executado responderá por uma dívida com a sua própria pessoa. Significa dizer, que em execução civil, com exceção da execução de alimentos, o executado não terá que responder pela sua dívida com uma pena privativa de liberdade.
Assim, Gonçalves M., (2011, p. 27), ao tratar deste princípio, menciona que “não se admite mais a coação física, e a pessoa do devedor é intangível, à exceção do alimentante [...].”
Outro princípio que merece ser abordado é o princípio do contraditório. Previsto no art. 5º, LV, da CF, o qual dispõe que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”, (BRASIL, 1988), este princípio consiste no direito que as partes têm de se manifestarem no processo, com o intuito de convencer o juiz acerca da versão que entendam ser a correta.
No processo de execução, deverá o credor ter seu direito satisfeito na exata proporção do que ficou estabelecido no título executivo. É nessa premissa que consiste o princípio da utilidade para o credor. Dessa forma, se o credor não conseguir a satisfação de tal crédito, conclui-se que o processo de execução não atingiu a finalidade de ser útil para este, pois não foi capaz de fazer com que o executado satisfizesse a obrigação. Acerca desse princípio, manifesta-se Gonçalves M., (2011, p. 29):
[...] a execução só se justifica se trouxer alguma vantagem para o credor. O processo é um instrumento que objetiva alcançar um fim determinado; na execução, a satisfação total ou parcial do credor. Não se pode admitir que ela prossiga quando apenas trará prejuízos ao devedor, sem reverter em proveito para o credor.
Em relação ao princípio da celeridade, este se encontra previsto no art. 5º, LXXVIII, da CF, o qual dispõe: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.” Trata-se, portanto, de princípio que visa evitar que o jurisdicionado espere mais tempo do que o razoável, para obter a tutela do Estado em determinado processo.
No tocante ao princípio da verdade real, cabe mencionar que ele consiste no fato de o juiz não se limitar a decidir qual das partes possui razão e procurar conhecer a verdade real do caso em análise. Distante da verdade real proferirá o juiz decisão apenas por mera formalidade e nesse caso dificilmente será analisado o efetivo direito das partes. Nesse sentido, salienta Theodoro Jr. (1999):
Nesse processo moderno o interesse em jogo é tanto das partes como do juiz, e da sociedade em cujo nome atua. Todos agem, assim, em direção ao escopo de cumprir os desígnios máximos da pacificação social. A eliminação dos litígios, de maneira legal e justa, é do interesse tanto dos litigantes como de toda a comunidade. O juiz, operando pela sociedade como um todo, tem até mesmo interesse público maior na boa atuação
jurisdicional e na justiça e efetividade do provimento com que se compõe o litígio.
Quanto ao princípio da proporcionalidade, tem-se que ele consiste num método de interpretação dos demais princípios, na hipótese de haver colisão entre eles. Procura-se, por meio deste, observar qual, dentre os princípios em colisão, é o mais importante a ser aplicado no caso concreto. Dessa forma, para se chegar a essa conclusão, analisar-se-á as vantagens e desvantagens da aplicação de cada um deles.
Por fim, merecem referência os princípios da boa-fé e da lealdade. De acordo com estes, deverão as partes, agirem com probidade, honestidade, sob pena de restar caracterizada, nas atitudes destas, a má-fé. Desse modo, não deverão as partes, praticarem atos que prejudiquem a parte adversa ou o bom andamento do processo. A esse respeito, importantes são as palavras de Greco (1999, p. 286 apud SALAMACHA, 2005, p. 78):
[...] o princípio da lealdade ou boa-fé obriga ambas as partes a se comportarem no processo de execução em conformidade com a verdade, a somente formularem pretensões e alegações em que sinceramente acreditem, a colaborarem com a justiça na consecução dos seus fins e a respeitarem a dignidade humana, o direito de acesso à justiça e o direito de defesa do seu adversário, não praticando nem querendo no processo atos inúteis ou protelatórios.
Assim, conclui-se, que não apenas o princípio da lealdade e da boa-fé, mas todos os demais aqui mencionados, possuem estreita relação ao instituto da fraude à execução, especificamente no que tange à aplicação da Súmula 375 do STJ, eis que buscam como base para as normas jurídicas, fazer com que estas sejam aplicadas com equidade, a fim de satisfazer o direito a que incumbe a cada litigante.