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Princípios da proporcionalidade e da razoabilidade

CAPÍTULO 5. Limites

5.2. Devido Processo Legal

5.2.4. Princípios da proporcionalidade e da razoabilidade

Inquestionável a envergadura que atualmente assumem os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, sobretudo em relação aos parâmetros para verificação da legitimidade da atuação estatal. Dentre as diversas dificuldades que o tema apresenta, algumas merecem ligeira abordagem.

Em primeiro lugar, convém assinalar que a distinção entre proporcionalidade e razoabilidade é objeto de defesa por diversos autores, que se valem de vários critérios para tanto. O histórico suscita que, enquanto a proporcionalidade adveio do direito europeu continental, sobretudo das construções formuladas pelo Tribunal Constitucional Alemão, a razoabilidade tem matriz na common law, sendo originário do direito inglês e posteriormente incorporado, e desenvolvido, no direito norte-americano.600

Outras formulações buscam distinções substanciais entre os princípios. De acordo com Humberto Ávila, a “aplicação da proporcionalidade exige a relação de causalidade entre meio e fim, de tal sorte que, adotando-se o meio, promove-se o fim”. 601 Já a razoabilidade “não faz referência a uma relação de causalidade entre um meio e um fim”;602 ao contrário, o seu conteúdo encerra o “dever de harmonização do geral com o individual (dever de equidade)”,603 bem como o “dever de harmonização do Direito com suas condições externas

(dever de congruência)”.604 “Na primeira hipótese princípios constitucionais sobrejacentes impõem verticalmente determinada interpretação, pelo afastamento de motivos arbitrários”.605 “Na segunda hipótese exige-se uma correlação entre o critério distintivo utilizado pela norma e a medida por ela adotada”.606

A despeito de tais distinções, os próprios autores que as propõem enxergam pontos de contato entre os postulados. Humberto Ávila, por exemplo, considera “plausível enquadrar a proibição de excesso e a razoabilidade no exame da proporcionalidade em sentido estrito”.607 Como efeito, não se pode olvidar que existe um inegável entrelaçamento entre as noções de proporcionalidade e razoabilidade. Com salientado por Celso Antônio Bandeira de Mello, “o

600 Cf. José Roberto Pimenta OLIVEIRA, Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade no direito

administrativo brasileiro, pp. 39 ss.

601 Teoria dos Princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 110. 602 Ibid. 603 Ibid. 604 Ibid. 605 Ibid. 606 Ibid. 607 Ibid., p. 111.

princípio da proporcionalidade não é senão uma faceta do princípio da razoabilidade”.608 Daí se considerar, ao menos para os limites do presente trabalho, como equivalentes.

Em segundo lugar, o fundamento ao princípio igualmente é objeto de tergiversação, haja vista a inexistência de preceito expresso na Constituição que o consagre.

Por conta da vinculação ao direito anglo-saxão, defende-se que o postulado da proporcionalidade encontra suporte no princípio do devido processo legal substantivo (art. 5º, inciso LIV, Constituição Federal).609 Outro entendimento suscita, como fundamento do preceito, o Estado de Direito, insculpido no art. 1º, “caput”, da Carta Magna. Trata-se de formulação advinda do direito alemão, acolhida entre nós por Paulo Bonavides, para quem “é mesmo no Estado de Direito que o princípio da proporcionalidade melhor se aloja e pode receber sua mais plausível e fundamental legitimação”.610 De maneira específica, Celso Antônio Bandeira de Mello destaca o princípio da legalidade (art. 5º, inciso II, art. 37, “caput” e art. 84, todos da Constituição). Cite-se, ainda, a evocação dos direitos fundamentais como justificativa da proporcionalidade, como o faz Virgílio Afonso da Silva.611

O STF entende que o princípio da proporcionalidade decorre, principalmente, do princípio do devido processo legal substantivo. É o que se verifica do seguinte julgado da Corte Maior:

O princípio da proporcionalidade – que extrai a sua justificação dogmática de diversas cláusulas constitucionais, notadamente daquela que veicula a garantia do substantive due process of law – acha-se vocacionado a inibir e a neutralizar os abusos do Poder Público no exercício de suas funções, qualificando-se como parâmetro de aferição da própria constitucionalidade material dos atos estatais. (ADI-MC, 1.407, rel Min. Celso de Mello, DJ 24.11.2000, p. 86).

Entende-se que não se pode desconsiderar qualquer dos fundamentos constitucionais suscitados pela doutrina, ainda mais se for considerada a inter-relação entre eles. A conjugação entre diversos princípios se presta, aliás, a reforçar a importância do postulado da proporcionalidade no cenário atual do direito público.

608 Curso de direito administrativo, p. 111. Muito embora o autor tenha tratado de maneira autônoma os

princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, reconhece expressamente o íntimo entrosamento entre as categorias.

609 Cf. CASTRO, Carlos Roberto Siqueira, O devido processo legal e os princípios da razoabilidade e da

proporcionalidad, passim.

610 O Princípio Constitucional da Proporcionalidade e a Proteção dos Direitos Fundamentais. Apud José

Roberto Pimenta OLIVEIRA , Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade no direito administrativo

brasileiro, p. 216.

Inolvidável, pela relação com o devido processo legal substantivo, o liame com o tópico dos direitos humanos fundamentais. Constitui um dos fundamentos da República Federativa do Brasil “a dignidade da pessoa humana” (art. 1º, inciso III, Constituição Federal), motivo pelo qual a atuação estatal não pode prescindir deste valor máximo. Assinala José Roberto Pimenta Oliveira que o “proceder administrativo é razoável e proporcional em face dos administrados é uma imposição inafastável para um Estado que tem o dever jurídico de reconhecer, respeitar, proteger e promover a dignidade humana como objetivo fundamental”.612

Evidente a repercussão do princípio da proporcionalidade em relação ao atributo da executoriedade, mormente no tocante aos meios da execução administrativa que interfiram na liberdade e na propriedade do indivíduo.

A doutrina portuguesa evoca o princípio da humanidade da execução, estampada no art. 157º, n. 3, do Código de Procedimento Administrativo. De acordo com tal preceito,

a Administração, mesmo que tenha a possibilidade de utilizar a força contra os indivíduos, não pode utilizar meios de coacção que violem direitos fundamentais ou sejam contrários ao respeito devido à pessoa humana, como seria por exemplo a tortura, ou a ameaça de utilização ilegítima de armas de fogo, etc., etc.613

Merecem realce os critérios de aplicação do princípio da proporcionalidade. Trata-se de lição advinda do direito germânico, com ampla receptividade no direito brasileiro. Assim, a verificação de obediência ao postulado da proporcionalidade deve levar em consideração três subprincípios, de aplicação subsidiária e sucessiva, da seguinte forma:

(i) Em primeiro lugar, averigua-se a adequação (ou conformidade) da medida, ou seja, se ela é capaz de atingir a finalidade proposta. “Uma medida é adequada se o meio escolhido está apto para alcançar o resultado desejado”.614

(ii) Em segundo lugar, havendo adequação, é verificado se a medida é necessária (ou exigível), considerando todas as restrições possíveis na esfera jurídica do particular. Desta forma, o subprincípio impõe que seja adotado o meio menos gravoso à disposição do Poder Público.

612 Os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade no direito administrativo brasileiro, p. 222. 613 Diogo Freitas do AMARAL (Curso de direito administrativo, p. 482).

614 Cf. ÁVILA, Humberto. “Repensando o ‘princípio da supremacia do interesse público sobre o privado” in:

(iii) Por fim, a proporcionalidade em sentido estrito “exige a comparação entre a importância da realização do fim e a intensidade da restrição aos direitos fundamentais”.615

Destarte, para a aferição da legitimidade do exercício da execução coativa administrativa, deve ser levado em consideração, inicialmente, se o meio executório se presta a atingir a finalidade pública, qual seja, o cumprimento da obrigação pública. Em seguida, dentre as medidas exercitáveis pela Administração, impõe-se a menos gravosa em relação aos direitos dos indivíduos envolvidos. Para, ao final, haver a mensuração entre a importância da finalidade almejada e o grau de restrição imposto. Se, in casu, houver a atendimento sucessivo de tais subprincípios, deve-se inferir que a medida autoexecutória atende o princípio da proporcionalidade.