• Nenhum resultado encontrado

Princípios da teoria de Pierre Bourdieu e o poder simbólico

Estrutura do trabalho.

1. A TEORIA DOS CAMPOS DE PIERRE BOURDIEU E O CAMPO ESPORTIVO

1.1. Princípios da teoria de Pierre Bourdieu e o poder simbólico

A obra de Pierre Bourdieu se volta para uma análise da realidade social, com base em pressupostos metodológicos que permitem observar diferentes objetos, em diversos espaços de relações sociais. Tal procedimento pode tomar um caráter de progressão ou soma, visto que a cada nova intervenção científica tem-se, além do conhecimento próprio do objeto de análise, a revisão sobre os procedimentos e as leis que ordenam as formas de conformação de grupos sociais, o que enriquece a ciência e fornece maiores subsídios para análises posteriores.

Sua obra se apóia no conhecimento praxiológico, que tem como objeto não apenas as relações objetivas, mas as relações dialéticas entre estruturas objetivas e subjetivas, com base nas disposições que atualizam ou reproduzem tais estruturas (BOURDIEU, 1983e). Para tal compreensão é preciso considerar os processos que geram a praxis, as estruturas que ordenam as ações dos agentes e que acabam por caracterizar os espaços sociais, e dar sentido às atividades e conformações dos objetos de análise.

Tal forma permite considerar tanto as necessidades do agente quanto a estrutura da sociedade (MARCHI JR., 2002). A idéia de Bourdieu é a superação da mera análise objetiva.

Nessa teoria, a percepção do mundo social é produto de uma dupla estruturação: objetiva, na qual é socialmente estruturada, significando que as propriedades que são atribuídas aos agentes e instituições apresentam-se em distribuições desiguais. E subjetiva, na qual também é estruturada porque os sistemas de percepção e apreciação exprimem o estado das relações de poder que norteiam o juízo do gosto e as escolhas do agente (BOURDIEU, 1990c).

Nesse sentido, Bourdieu (1990c, p.149) caracteriza sua obra com base em dois termos: “construtivismo estruturalista” ou “estruturalismo construtivista”:

Por estruturalismo ou estruturalista, quero dizer que existem, no próprio mundo social e não apenas nos sistemas simbólicos – linguagem, mitos, etc-, estruturas objetivas, independentes da consciência e da vontade dos agentes, as quais são capazes de orientar ou coagir suas práticas e representações. Por construtivismo, quero dizer que há, de um lado, uma gênese social dos esquemas de percepção, pensamento e ação que são constitutivos do que chamo de habitus e, de outro, das estruturas sociais, em particular do que chamo de campos e grupos, e particularmente do que se costuma chamar de classes sociais.

Ou seja, a obra bourdiana se apóia nas estruturas traçadas por questões objetivas, e nas apropriações mais particulares dos agentes, de acordo com sua posição no espaço social. Dessa forma, fundamenta-se a relação dialética entre o caráter objetivo e subjetivo de análise social.

Essa relação é o que vai gerar a espinha dorsal da obra de Bourdieu, visto que os agentes atuarão sempre no sentido de busca pelo acesso às propriedades específicas de seu espaço, de maneira orientada pelas estruturas objetivas do meio e permeada pela compreensão, gostos e modos de ação próprios de sua posição social. Assim sendo, os sujeitos agem de acordo com o espaço e a posição em que atuam.

Nessa estrutura, o que comanda os pontos de vista, as intervenções e os objetos de interesse é a estrutura das relações objetivas entre os diversos agentes, pois é ela os direciona a diferentes posições no grupo social (BOURDIEU, 2004). E o que desenha sua forma subjetiva

são as apropriações do agente dentro de seu grupo mais íntimo e sua percepção sobre o todo. Cada agente vê o campo com uma certa lucidez, mas a partir de um ponto de vista de dentro do campo.

Logo, para a detenção do poder e a possibilidade de uso da autoridade nesse espaço é necessário o controle da objetividade, sob a forma de estruturas e de mecanismos específicos, e da subjetividade, sob a forma de estruturas mentais, de esquemas de percepção e pensamento (BOURDIEU, 1996c).

Por conta do conhecimento praxiológico, a ação social não é considerada mera execução, mas um núcleo de significação do mundo. A sociedade não se sustenta como totalidade, mas na intersubjetividade originária da ação do sujeito (MARCHI JR. , 2002).

Com base nessa estrutura a construção de uma realidade social não é operada num vazio social, mas está submetida a coações estruturais, ou seja, não é somente pontual e objetiva numa análise do microcosmo do objeto, mas sim, considera todo o macroespaço em que este se situa para compreender as razões e as estruturas que o conformam (BOURDIEU, 1990c). Tal análise busca uma compreensão do mundo social a partir da contextualização das relações que permeiam os objetos e as disputas pelo poder nos diferentes espaços de relações sociais.

Desse modo, para poder desvendar um objeto deve-se compreender inicialmente sua produção, isto é, o espaço da sua produção e também de sua utilização pelos agentes envolvidos. Bourdieu, em conferência proferida na Universidade de San Diego, em 1986, utilizou como exemplo o ato de observar uma árvore muito de perto. Isso impossibilita enxergar e considerar a floresta a sua volta, e por não ter se construído esse espaço antes da análise do objeto, não se tem nenhuma chance de compreender de onde se está vendo e o que, de fato, se vê.

Segundo Bourdieu (1983a), é impossível compreender uma obra sem conhecer a história do espaço de produção da mesma.

... não podemos capturar a lógica mais profunda do mundo social a não ser submergindo na particularidade de uma realidade empírica, historicamente situada e datada, para contruí-la, porém, como “caso particular do possível”, conforme a expressão de Geston Bachelard, isto é, como uma figura em um universo de configurações possíveis (BOURDIEU, 1996a, p. 15).

Esse modo de orientar o pensamento busca negar a análise substancial dos objetos sociais, ou seja, como coisas inscritas de forma biológica ou cultural em determinado grupo. Por exemplo, uma prática inicialmente nobre pode ser abandonada por tal grupo tão logo seja adotada

por uma fração da burguesia e classes populares. Da mesma maneira, uma prática inicialmente popular pode ser retomada pelos nobres (BOURDIEU, 1996a). Assim, numa análise bourdiana a sociedade está sempre em movimento, se completando na medida em que possui seres sociais que concorrem no interior dos espaços (PIMENTA, 2007).

Logo, faz-se necessário um cuidado metodológico para não transformar propriedades de um grupo ou agente, próprias de determinado momento específico, derivadas de certa posição no espaço social e de práticas possíveis, em propriedades necessárias e instrínsecas aos mesmos.

Bourdieu inscreveu pressupostos teóricos em um modelo de análise que envolve agentes sociais, estruturas e disposições num constante processo de interação. Dessa forma, a realidade social sob essa lógica é tida como um conjunto de relações que constituem um espaço de posições específicas, definidas umas em relação às outras não só pela proximidade, mas também pela posição relativa (MARCHI JR., 2002).

A caracterização de fatores observáveis em determinado grupo diz respeito a cada momento específico de cada sociedade, de um conjunto de posições sociais vinculado por uma relação de homologia a um conjunto de atividades ou de bens (BOURDIEU, 1996a).

Dessa forma, sendo indispensável para a compreensão de questões acerca do objeto pesquisado, a análise relativa às atividades e realizações dos diferentes grupos não pode ser generalista. Ou seja, deve-se evitar a generalização de fatores observáveis em determinado grupo como ações ou características implícitas ou permanentes, assim como deve-se diferenciar tanto grupos quanto agentes que buscam e assumem identidades distintas num mesmo processo social. Faz-se necessária, numa análise bourdiana, a contextualização temporal e espacial do ambiente social estudado, visto que as atribuições e objetos variam de acordo com as relações entre sujeitos e grupos, e a história dos mesmos.

Sendo assim, uma análise em períodos ou grupos sociais diferentes (por exemplo, a prática do futebol no Brasil e nos Estados Unidos) deve ser cuidadosa, pois trata-se de condições sociais diversas para a apropriação, identificação e desenvolvimento do mesmo objeto. Para tal análise se faz necessária sua contextualização social, visando evitar equívocos, principalmente em processos de comparações.

É importante para a fecundidade metodológica de um trabalho privilegiar relações antes de elementos visíveis. É necessário deduzir as leis de funcionamento de diferentes campos ou

espaços sociais de relação, os objetos específicos que eles compõem, os princípios de divisão segundo os quais se organizam, as forças e estratégias que se opõem (BOURDIEU, 1983d).

Bourdieu tem sua obra fundada e motivada na análise de objetos em espaços sociais pautados na diferenciação de posições e na desigualdade de distribuição de capital. Toma essa afirmativa como premissa para suas análises.

É considerada por ele, como função primordial do sociólogo, o evidenciar, ou o revelar daquilo que chamou de “fundamentos de dominação oculta”. Bourdieu está centrado no questionamento da reprodução da ordem social e de suas leis, que se efetivam no seio das relações estruturantes da sociedade. Por essa razão, o autor estuda os mecanismos que perpetuam as formas de reprodução das desigualdades sociais e pretende torná-las inteligíveis a todas as pessoas inseridas nessa configuração (MARCHI JR., 2002).

Caminhamos em direção a universos nos quais, cada vez mais, serão necessárias justificativas técnicas, racionais, para dominar, e nos quais os próprios dominados poderão e deverão, cada vez mais, utilizar-se da razão para defender-se da dominação, já que os dominantes, cada vez mais, invocarão a razão e a ciência para exercer sua dominação. O que faz com que os progressos da razão venham a acompanhar, sem dúvida, o desenvolvimento das formas altamente racionalizadas de dominação (como vemos, desde já, nas pesquisas de opinião), e com que a sociologia, só ela capaz de desvendar esses mecanismos, deva, cada vez mais, escolher entre colocar seus instrumentos racionais de conhecimento a serviço de uma dominação cada vez mais racional, ou analisar racionalmente a dominação, principalmente a contribuição que o conhecimento racional pode dar à dominação (BOURDIEU, 1996d, p. 156).

Para este autor, a vida social não é outra coisa senão o conjunto das ações e reações tendentes a conservar ou transformar a estrutura de distribuição de poderes. Dessa forma, o mundo social se faz uma forma de espaço construído na base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos por propriedades que atuam no universo social considerado. Dessa forma, é conferida, aos detentores de tais propriedades, a força ou poder desse universo. Os agentes ou grupos de agentes são definidos por suas posições relativas no espaço social, de acordo com suas possibilidades de acesso a tais valores (BOURDIEU, 1989b).

O modo como se reveste, em cada momento e em cada espaço, o conjunto de distribuição das diferentes propriedades que garantem poder, define o estado das relações de força, sejam elas reconhecidas socialmente, ou garantidas de forma judicial (BOURDIEU, 1989b).

Nota-se, nessa forma de compreensão do universo social, um jogo no qual os detentores do poder, ou seja, das propriedades que legitimam reconhecimento, buscam a manutenção dos processos de distribuição de bens, enquanto os não-detentores buscam a alteração dessa forma.

Tal maneira de pensar, embora se aproxime de certa forma da lógica marxista, não pode ser rotulada como uma dissidência da mesma. A obra de Pierre Bourdieu, embora seja motivada pela existência de desigualdades norteadas pela busca e manutenção do poder, é original, visto que considera não apenas o capital econômico como propriedade geradora de diferenciação social, mas sim, diversas outras maneiras de reconhecimento e ascensão no grupo, além do caráter subjetivo de ação do sujeito e sua relação dialética com questões objetivas que o rodeiam (MARQUES; GUTIERREZ, 2009). Além disso, o princípio de diferenciação social não é o mesmo em todas as épocas e em todos os lugares (BOURDIEU, 1996b).

Nessa questão mora um caráter importante, talvez o maior pilar, da obra de Pierre Bourdieu, a consideração de uma forma de poder que tem sua semente e propriedades como variáveis em relação ao espaço em que se encontra. Uma forma de reconhecimento e de ascensão social que não necessariamente deriva da posse de bens econômicos ou de material concreto, mas além disso, de realizações pessoais que sejam valorizadas como dignas de mérito ou de admiração, e que, muitas vezes, acabam por tornar o detentor de tais propriedades mais poderoso do que o agente que detenha mais capital financeiro.

Esse tipo de poder tem o nome de poder simbólico, que na definição de Bourdieu (1989a) é o poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos, ou mesmo que o exercem. Ou seja, é a forma de poder que não tem razões totalmente expostas e que pode parecer natural, ocorrer de forma despercebida, mas que só acontece se os dominados a reconhecerem como legítima e passível de respeito.

Assim, o poder simbólico é acumulado pelos agentes através das relações sociais e seus sistemas acabam por atuar como elementos estruturados e estruturantes de comunicação, cumprindo função política de imposição ou de legitimação de dominação de um grupo sobre outro, dando o reforço da sua própria força às relações que o fundamentam (BOURDIEU, 1989a). Ou seja, para que um ato simbólico tenha eficiência de dominação, é preciso que tenha havido um trabalho anterior que o valorize (BOURDIEU, 1996e).

Em outras palavras do próprio autor (1989a), o poder simbólico se configura no poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou transformar a visão

de mundo, e a ação sobre o mundo. É um poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização. Porém, esse poder só é exercido se for reconhecido, adotado de forma não arbitrária, definindo-se numa regulação determinada entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e reproduz a crença.

O poder simbólico acaba sendo uma forma transformada de outras formas de poder, capaz de trazer reconhecimento ao agente e produzir efeitos reais sem grande dispêndio aparente de energia e esforço. É o poder das palavras, de revelar e consagrar as coisas que já existem. Segundo Bourdieu (1990c), outro fato importante é que as relações objetivas de poder (econômico, jurídico) tendem a se reproduzir nas relações de poder simbólico.

O poder simbólico exerce a função de conduzir os padrões de senso comum que são transmitidos pela classe dominante, detentora dos meios necessários para essa transmissão e a manutenção do status quo (PIMENTA, 2007).

Considerando a existência e influência desse tipo de poder, alcançado através da comunicação, Bourdieu aponta para os processos nos quais os agentes, na tentativa de manter o poder já conquistado, ou alcançar a atribuição deste, se relacionam de forma a acumular condições para o reconhecimento relativo ao espaço em que se encontram, configurando trocas simbólicas.

Embora os bens simbólicos não tenham um preço declarado, todos os agentes sabem, de forma implícita, não velada, que a entrega de uma dádiva ou propriedade implica na expectativa da entrega de outra em troca, ou “pagamento” não estipulado, lançando mão de um processo muito específico, a economia das trocas simbólicas. Tal forma de trocas, por não se basear em preços declarados, se apóia no tabu da explicitação, ou seja, assume um preço implícito na troca de dádivas. Quando a troca ocorre com base num preço declarado, se encontra na economia econômica (BOURDIEU, 1996e).

A economia dos bens simbólicos opõe-se ao “toma lá, dá cá” da economia econômica, já que não tem como princípio o sujeito calculista, mas um agente socialmente predisposto a entrar, sem intenção ou cálculo, no jogo da troca. É nesse sentido que ela ignora ou recusa sua verdade objetiva de troca econômica (BOURDIEU, 1996e, p. 165).

Para que as trocas simbólicas funcionem, é preciso que ambas as partes tenham categorias de percepção e avaliação idênticas, assim como em atos de dominação simbólica. Da mesma

forma, é preciso que o espaço social comporte um mercado de ações simbólicas que impliquem em recompensas e lucros reais e mostrem ações com “desinteresse”. Numa comparação direta, na economia econômica, com seus preços e prazos declarados, não existe a hipocrisia das trocas simbólicas (BOUDIEU, 1996e), visto que o desinteresse é apenas aparente.

Os agentes que buscam aumentar seu poder simbólico se embrenham nesse universo e se esforçam em trocas com valores e prazos não estipulados, fazendo com que o ato desinteressado seja uma hipocrisia.

Quanto ao “interesse” e “desinteresse” no ato, Bourdieu considera que nenhum agente social age por acaso, sem que haja sentido. Há uma razão para os agentes fazerem o que fazem, razão esta que se deve descobrir para transformar e decodificar uma série de condutas aparentemente arbitrárias em uma série coerente, em algo que se possa compreender a partir de um princípio único ou de um conjunto coerente de princípios. Neste caso, não se aceita a ocorrência de atos gratuitos como explicações sociológicas (BOURDIEU, 1996d).

Quando um agente percebe os possíveis benefícios de entrar num jogo social, e quais as possibilidades de recompensas a partir da aquisição de certos bens simbólicos, e participa do mesmo de forma explícita, Bourdieu o considera como “interessado”, ou seja, alguém que compreende as possibilidades de ação e conhece, de certo modo com base na perspectiva histórica daquele espaço, os possíveis resultados futuros de suas ações. Quando o agente conhece e percebe esse quadro, porém não entra, de forma declarada e explícita, na disputa pelo poder simbólico envolvido, enuncia-se que ele é “desinteressado”. Sendo assim, o desinteresse implica um ato hipócrita, visto que o agente permanece no jogo, mas atua de forma a não transparecer suas ações ou interesses (BOURDIEU, 1996d).

É nesse sentido que o papel da sociologia proposta por Pierre Bourdieu aponta para a ocorrência de uma desigualdade na distribuição e acesso aos bens de determinado espaço, e busca descobrir como as relações acontecem, com base na busca por reconhecimento simbólico e na ocupação de uma posição mais privilegiada, por parte dos agentes, em seu meio social.