2.3 Princípios informadores do Imposto de Renda ( IR)
2.3.10 Princípios da universalidade e da generalidade
Ao disciplinar o IR, a Constituição brasileira se refere, ainda, em seu artigo 153, § 2º, I, aos princípios da universalidade e generalidade, daí porque praticamente todos os autores que se dedicam a discorrer sobre o IR acabam por analisá-los. Não raro, verificamos a inversão do sentido atribuído a cada uma dessas diretrizes: o que para alguns é generalidade, para outros é universalidade, e vice-versa. Talvez isso ocorra porque tais vocábulos se assemelhem semanticamente. Mas — cabe frisar — a mera inversão da nomenclatura não prejudica o discurso; o que importa é reconhecer que há duas diretrizes a serem tratadas de forma individualizada e diferenciada, pois a Carta Constitucional se refere em separado à universalidade e à generalidade. Também convém esclarecer que, aqui, tomamos a definição de Luiz César Souza de Queiroz como parâmetro para a identificação desses princípios.
Comecemos pela universalidade. Conforme esse princípio, o IR deve incidir sobre todas as rendas (em sentido lato), independentemente da fonte, origem ou natureza, exceto — é óbvio — as imunes ou isentas. Assim, para fins de cômputo da renda auferida pelo potencial
sujeito passivo, é preciso considerar todos os fatos — acréscimos e decréscimos — importantes para se identificar a riqueza nova, agregada ao seu patrimônio (base imponível para a incidência do IR). Portanto, toda renda configurada, seja qual for sua fonte ou natureza, haverá de ser ofertada à tributação pelo IR. Esse princípio fornece subsídios para que rendas auferidas fora dos limites do território nacional sejam alcançadas pelo IR — desde que, obviamente, esteja presente algum critério de conexão; por isso tal primado está está contemplado na maior parte dos ordenamentos jurídicos modernos.
Sobre essa finalidade específica do princípio da universalidade (worldwide income
taxation), observa Heleno Taveira Torres:
A tendência contemporânea dos Estados, principalmente daqueles que são considerados exportadores de capital, é a de assumir o princípio da universalidade, ante i) a constante e crescente movimentação de capitais no mercado mundial, ii) a necessária progressividade dos impostos incidentes sobre as categoriais redituais, e, principalmente iii) o controle dos casos de elusão e evasão fiscal internacional, proporcionados pelos benefícios fiscais promovidos pelos “paraísos fiscais” (cada vez mais freqüentes).85
Pelo princípio da generalidade, todas as pessoas que auferirem renda, quaisquer que sejam os caracteres pessoais, estarão jungidas à incidência do IR. A incidência fiscal, nesse passo, não requer qualificadores pessoais como fator determinante: sexo, raça, estado civil, qualificação profissional ou qualquer outro traço da pessoa do sujeito não importam; se for revelada capacidade contributiva em virtude da prática do fato signo-presuntivo de riqueza, previsto no antecedente da regra-matriz de incidência tributária, então a exigência da exação se impõe. O respeito a esse mandamento afasta privilégios estritamente pessoais, que ocasionam distorções na distribuição da carga tributária e vão de encontro ao princípio da isonomia.
85 TORRES, Heleno Taveira. Direito tributário internacional: planejamento tributário e operações transnacionais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 122.
Feitas essas considerações — das quais se pode depreender que a generalidade, a universalidade, a progressividade e a pessoalidade garantem tanto o atendimento à capacidade contributiva quanto uma incidência isonômica do IR —, agora passamos a tratar da regra- matriz de incidência tributária, sobretudo dos aspectos material e quantitativo, que nos permitirá definir o arquétipo constitucional desse imposto.
2.4 Regra-matriz de incidência do Imposto sobre a Renda (IR) e Proventos de Qualquer Natureza
A regra-matriz consiste na estrutura lógica que prescreve a incidência tributária; é composta de um antecedente e um conseqüente, compostos, por sua vez, de critérios que permitem compreender minimamente o conteúdo e sentido da mensagem legislada — nesse caso, compreender o comando que obriga o sujeito passivo que tiver praticado o fato descrito na hipótese a levar certo quantum aos cofres públicos a título de tributo. Esse exercício intelectivo se revela essencial ao escopo de nossas pretensões, na medida em que nos valeremos dessa estrutura para, ao fim e ao cabo, averiguarmos criticamente a dedutibilidade fiscal.
De imediato, cabe esclarecer que, dada a multiplicidade de relações jurídicas que se entabulam no plano da facticidade, não raro rotulamos com o mesmo nomen juris exações tributárias de conteúdos intrínsecos divergentes, a exemplo do que ocorre com o próprio IR. Embora este seja tratado com singularidade pelo Texto Constitucional e pelo CTN, ganha matizes diversos conforme as diferentes situações concretas que com ele se correlacionam. Essa constatação explica por que encontramos diversidades nas regras-matrizes de incidência aplicáveis às pessoas físicas e às jurídicas — a despeito de todas terem fundamento no mesmo enunciado prescritivo (art. 153, III da Constituição)86 — e justifica, ainda que precariamente, a adoção de técnicas desenvolvidas em função da evolução e complexidade que permeiam as
86 Isso ocorre, por exemplo, com o tributo rotulado de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que, com base no artigo 153, IV da CF/88, incide em decorrência da configuração in concretu da industrialização de produto ou da importação de produto estrangeiro.
situações sujeitas a essa exação, por exemplo, a técnica de tributação em fonte e da tributação definitiva, que para alguns refletem regras-matrizes autônomas.
Esse cenário indica a ampla gama de dispositivos veiculados pela legislação ordinária que versam sobre o IR (parte deles está compilada no Decreto 3.000, de 26/3/1999, o Regulamento do Imposto de Renda/RIR), o que, de resto, confirma a complexidade inata a qualquer análise nesse domínio. Noutros termos, sempre haverá o risco de se deixar para traz algum aspecto de relevo.
Feitas as ressalvas e advertências, passemos à explicitação dos critérios da regra- matriz padrão de incidência do IR.