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2. DIREITO AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO E O

2.3 A PROTEÇÃO INTERNACIONAL AO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO E OS

2.3.1 Princípios do Direito Ambiental

Dentre os princípios que informam o Direito Ambiental e que são plenamente aplicáveis à tutela do ambiente de trabalho, Fábio Fernandes 54 destaca os princípios da supremacia e da indisponibilidade do interesse público na proteção do meio ambiente, ressaltando mais uma vez a necessidade de quebra da visão privatística que envolve o Direito do Trabalho.

A aplicação de tais princípios à proteção do local de trabalho se justifica pela natureza dos danos que podem advir de seu desequilíbrio bem como pela imprescindibilidade de que seja assegurada a dignidade do ser humano quando este exerce suas atividades de labor.

Desse modo, não pode o trabalhador dispor livremente dos direitos que visam resguardar sua segurança e saúde, apesar de a realidade demonstrar o contrário: a cada dia a monetização da saúde do obreiro se torna a primeira opção tanto dos empregadores quanto dos empregados, que não entendem os riscos que esta prática envolve. O Poder Público, por sua vez, de forma velada legitima esta inversão na ordem de tutela do ambiente laboral.

53 BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho. 7 ed. São Paulo: LTR, 2011, p.141

54 FERNANDES, Fábio. Meio Ambiente Geral e Meio Ambiente do Trabalho: uma visão sistêmica. São Paulo:

Guilherme José Purvin de Figueiredo55, por sua vez, elegeu como norteadores do Direito

Ambiental o princípio da precaução, o princípio do poluidor-pagador, o princípio do desenvolvimento sustentável, o princípio da função social da propriedade, o princípio da participação democrática e o princípio da vedação de retrocesso. Dentro desta classificação, o presente trabalho tecerá comentários quanto aos princípios pertinentes à tutela ao local de trabalho, acrescentando ainda outros princípios correlatos.

O princípio da precaução pode ser tido como uma das principais diretrizes deste ramo do Direito, tendo em vista sua ideia de prevenção56 máxima em detrimento da mera reparação. Consagrado pela Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, está em constante evolução, sendo aplicável em caso de incerteza científica quanto aos riscos oriundos de determinada tecnologia ou produto introduzido no mercado.

Acerca do princípio da precaução, importa ainda ressaltar a diferença entre este e o princípio da prevenção: a precaução ocorre quando há incerteza quanto aos danos que podem advir do desequilíbrio ambiental, ao passo em que a prevenção se configura quando da certeza do dano. Pode-se dizer, portanto, que a precaução seria a prevenção em seu sentido mais cauteloso.

No ambiente de trabalho, a aplicação do princípio da precaução ocorre quando configurada incerteza sobre a potencialidade danosa de determinado produto ou prática, não sendo recomendada a exposição dos trabalhadores a estes por não ser possível arriscar o bem da vida ou da vida com qualidade em prol do lucro do empregador.57 O princípio da prevenção, por sua vez, ao ser aplicado à tutela do meio ambiente do trabalho resguarda a integridade do

55 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Curso de Direito Ambiental. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,

2011, p. 117-144

56 Na acepção ampla do vocábulo, onde estariam englobados os princípios da precaução e da prevenção stricto sensu. 57 FERNANDES, Fábio. Meio Ambiente Geral e Meio Ambiente do Trabalho: uma visão sistêmica. São Paulo:

indivíduo quando da prestação de serviço, impedindo assim que este tenha a sua saúde e segurança relativizados com o único propósito de obter lucro e fomentar o crescimento econômico do trabalhador.

O princípio do poluidor –pagador58, também consagrado na Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, envolve dois aspectos fundamentais: responsabilidade pelo dano ambiental e inserção, no custo final, das despesas com a reparação do meio ambiente. Este princípio implica, acima de tudo, a responsabilização daquele que provocou o dano ou não tomou as devidas precauções para evita-lo, não podendo e não devendo esta responsabilização recair sobre os trabalhadores e sobre o próprio Estado como regra.

O princípio do desenvolvimento sustentável, por sua vez, também ficou mais popular a partir da Rio 92, apesar de a discussão acerca da necessidade de se adotar políticas sustentáveis de desenvolvimento econômico ter iniciado na Conferência de Estocolmo.

No âmbito da proteção ao meio ambiente de trabalho, o princípio do desenvolvimento sustentável atua como forma de compatibilizar o trabalho digno e a livre iniciativa, implicando tanto na proteção dos recursos naturais quanto do próprio local de trabalho, almejando sempre resguardar a saúde do trabalhador.59 Dessa forma, o lucro não é um fim em si mesmo e por isso não pode ser utilizado como fundamento para mitigar a dignidade do indivíduo na prestação

58 Um grande problema que decorre deste princípio é a sua má interpretação: acreditou-se, durante muito tempo, que

se poderia utilizar dos recursos do meio ambiente de forma desmedida, desde que houvesse uma compensação financeira equivalente. Entretanto, a extensão dos danos ambientais raramente pode ser neutralizada ou eliminada com a mera retribuição pecuniária, o que implica que a aplicação deste princípio em seu aspecto compensatório deve ser feita de forma residual. O desrespeito às normas de saúde e segurança do trabalhador não pode ser utilizado pelo empregador como justificativa para baratear o produto ou serviço. Cabe ao empregador o ônus pelo desenvolvimento da atividade, não podendo o mesmo ser repassado ao trabalhador a partir da violação dos seus direitos mais intrínsecos. Importa ressaltar ainda que o mero pagamento dos adicionais ou eventuais danos não esgota este princípio, posto que ele não pode ser utilizado como respaldo para a monetização da saúde.

59 FERNANDES, Fábio. Meio Ambiente Geral e Meio Ambiente do Trabalho: uma visão sistêmica. São Paulo:

laboral. Deve, portanto, haver harmonização entre os interesses do empregador e os direitos do empregado, dentre entes o direito de laborar em um ambiente minimamente hígido.

O princípio da função social da propriedade tem como objeto de proteção a qualidade de vida. A Constituição Federal de 1988 assegura, dentre o rol de direitos e garantias fundamentais, o direito de propriedade, devendo esta atender a sua função social (art. 5º, XXII e XXIII). Ademais, aponta ainda a função social da propriedade como princípio regulador da ordem econômica do país (art. 170, III)60. Todavia, não foi criado um conceito constitucional ou legal para o que seria uma propriedade dotada de função social. Assim sendo, pode-se entender que o direito de propriedade, ao ser exercido conforme sua função social, implica na realização de objetivos sociais que ultrapassem o interesse individual do proprietário, dentre eles a higidez do local a serem desempenhadas as atividades de labor.

O princípio da informação, amplamente agregado ao rol informador dos princípios do Direito Ambiental também na Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, diz respeito ao conhecimento sobre os fatores nocivos e seus efeitos na saúde e segurança do trabalhador, sendo dever do Estado e dos empregadores disponibilizar informações para facilitar a conscientização pública e a transparência da prestação laboral.

60 A ideia de propriedade dotada de função social apareceu, no direito constitucional brasileiro, na Constituição de

1934, que relativizou o direito de propriedade, historicamente visto como sendo de natureza individual, absoluta. A Constituição de 1937, entretanto, suprimiu a necessidade de uso da propriedade com destinação social. Com a redemocratização do país, a Constituição de 1946 voltou a fazer menção a utilização da propriedade mediante destinação social, determinação esta que foi mantida da Constituição de 1967 – primeira a trazer expressamente o termo “função social” - e na Emenda Constitucional nº 1/69. A Constituição Federal de 1988, por sua vez, conservou a necessidade de que o direito de propriedade fosse exercido em consonância com a sua destinação social, mantendo a previsão da função social da propriedade dentre os princípios reguladores da ordem econômica, mas também inovando ao fazendo referência à função social da propriedade dentre os direitos e garantias fundamentais, bem como em diversas outras passagens de seu texto. Neste sentido, cf. FACCHINI NETO, Eugênio. Comentário ao art. 5º, XXIII. In: CANOTILHO, J.J. Gomes et al (Coords.) Comentários à Constituição do Brasil. São Paulo: Saraiva/Almedina, 2013, p.314-317.

Outro princípio a ser destacado e que guarda estreita relação com o princípio da informação é o da educação ambiental. A partir da educação ambiental, o Poder Público visa promover os valores relativos ao meio ambiente:61não basta apenas não poluir, mas deve ser

adotada uma postura ativa, pautada em valores éticos, para que a proteção ao meio ambiente seja eficaz, de modo que a população entenda o seu papel na garantia deste direito a esta geração e às futuras.

A conscientização ambiental deve ser fomentada em todos os níveis, tanto na educação formal quanto informal. Somente poderá se falar em proteção efetiva do ambiente de trabalho quando houver a conscientização de que é dever do empregador oferecer condições adequadas de prestação de serviço e somente quando impossível fazê-lo é que se deve partir para os mecanismos reparatórios ou indenizatórios.

O princípio da vedação de retrocesso é classificado como setorial por estar relacionado aos direitos e garantias fundamentais e não apenas especificamente ao Direito Ambiental. O referido princípio invalida a revogação de normas regulamentadoras dos direitos fundamentais sem que sejam substituídas por normas mais benéficas, mais abrangentes, sendo voltado, de acordo com Guilherme José Purvin de Figueiredo62, à proteção da coletividade face ao Poder Legislativo e ao Poder Executivo quando no exercício de sua atividade legiferante. Também plenamente aplicável quanto à tutela do meio ambiente do trabalho hígido, o princípio da vedação ao retrocesso proíbe que as normas que hoje cuidam da saúde e segurança do trabalhador sejam substituídas por outras menos protetivas.

61FERNANDES, Fábio. Meio Ambiente Geral e Meio Ambiente do Trabalho: uma visão sistêmica. São Paulo:

LTR, 2009, p. 79.

62 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Curso de Direito Ambiental. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,

Destaca-se, ainda, quanto aos princípios do Direito Ambiental aplicáveis ao meio ambiente de trabalho o princípio da correção do risco na fonte, que dispõe que devem ser envidados esforços para que as causas do dano sejam eliminadas em sua origem, sendo este o método mais eficaz de manter o equilíbrio ambiental. 63 Este princípio relaciona-se diretamente com os princípios da precaução e da prevenção, reforçando a ideia de tutela preventiva em vez de reparatória do ambiente, inclusive do laboral.

O princípio da correção do risco na fonte, quando aplicado ao ambiente de trabalho, implica que a higidez deste deve ser prioridade e somente quando impossível a eliminação ou neutralização do risco é que se deve partir para a ação reparatória (fornecimento de EPI, EPC, pagamento de adicionais, etc.), em uma clara vedação à monetização da saúde do obreiro.