4. A PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO NO ORDENAMENTO
4.1 TUTELA CONSTITUCIONAL AO MEIO AMBIENTE DE
Na Constituição Federal, a tutela jurídica do ambiente de labor está presente no artigo 225, caput, de forma indireta, ao ser ressaltada a necessidade de um meio ambiente ecologicamente equilibrado em seu sentido mais amplo. De forma direta, está presente no artigo 200, VIII, que prevê a colaboração do SUS para a manutenção de um ambiente de trabalho hígido, sem, entretanto, defini-lo.
A omissão182 quanto ao que poderia ser englobado pelo conceito de meio ambiente de trabalho, todavia, não é maléfica e tampouco deve causar insegurança jurídica quando da
182 Neste sentido, importante é a lição de Cláudio Brandão: “Trata-se de conceito jurídico indeterminado,
propositadamente inserido pelo legislador, com o fim de criar um espaço positivo de incidência da norma e evitar que ficassem fora do alcance do conceito numerosas situações que normalmente seriam nele contempladas, caso houvesse uma definição precisa”. In: BRANDÃO, Cláudio. Meio ambiente do trabalho saudável: direito fundamental do trabalhador In: Revista do TRT da 1ª Região. Rio de Janeiro, v. 21 n. 49, p. 92, jan./jun. 2011
Disponível em:
http://portal2.trtrio.gov.br:7777/pls/portal/docs/PAGE/GRPPORTALTRT/PAGINAPRINCIPAL/JURISPRUDENCIA _NOVA/REVISTAS%20TRT-RJ/049/11_REVTRT49_WEB_CLAUDIO.PDF Acesso em: 20 dez. 2015.
efetivação deste direito ou limitar seu exercício, mas deve servir como forma de alargar a sua abrangência.
O direito ao meio ambiente do trabalho equilibrado, portanto, visa abranger a saúde do trabalhador a partir da higidez no desempenho de suas atividades, não restringindo, mas sim sempre buscando ampliar o viés de proteção. Esta proteção é assegurada ao trabalhador, sentido lato sensu, contra qualquer fator de risco que vise prejudicar o contrato de labor de forma demasiada. O que se busca, em suma, é resguardar o respeito à dignidade do obreiro na prestação de serviços. A saúde, que deve ser entendida em sentido amplo, não pode ser utilizada como moeda de troca, relativizada em prol da atividade econômica.
Como bem destaca Amauri Mascaro Nascimento183, é imprescindível que os
trabalhadores exerçam suas atividades em um local apropriado, devendo o Direito fixar parâmetros mínimos a serem observados pelas empresas de modo a impedir que danos labor ambientais sejam causados ao bem-estar do obreiro.
O artigo 7º, também da Carta Magna, elenca uma série de direitos, em rol exemplificativo, para a melhoria das condições sociais dos trabalhadores. Dentre as garantias ali dispostas, várias se referem, implícita ou explicitamente, a normas de saúde e bem-estar do trabalhador ao desenvolver suas atividades. Os principais incisos, neste sentido, são: IX (remuneração superior para o trabalho noturno); XIII (jornada de trabalho); XIV (jornada diferenciada para trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento); XV (repouso semanal remunerado); XVI (adicional de hora extra); XVII (férias); XVIII (licença à gestante); XIX (licença paternidade); XXIII (adicional de remuneração para as atividades penosas, perigosas e insalubres); XXXIII
(vedação do trabalho noturno, perigoso ou insalubre para menores de 18 anos e de qualquer trabalho para os menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14 anos).
Um importante inciso a ser destacado na tutela do local de trabalho é o XXII, ainda do artigo 7º, que prevê a redução dos riscos inerentes ao trabalho por meio de normas de saúde, higiene e segurança. A importância deste inciso se dá pela clara intenção do constituinte de proteger não apenas o trabalhador de forma isolada, mas a prestação do serviço em si, de modo que se tutele de forma integral todos aqueles que laborem em condições semelhantes. Este inciso implica ainda na constante tentativa de minimização de danos à saúde e bem-estar do obreiro, buscando-se um ambiente de trabalho hígido e equilibrado como objetivo contínuo.
O artigo 7º, em sua integralidade, é aplicável aos trabalhadores urbanos e rurais. Alguns de seus dispositivos se aplicam ainda aos empregados domésticos184. Esta amplitude nos detentores de tais direitos sociais é reforçada pelo disposto no inciso XXXIV, que prevê a igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso, posto que na ordem jurídica estabelecida pelo Estado Democrático de Direito o trabalho não é sinônimo de sujeição, mas sim de direito juridicamente protegido185, independentemente da
sua configuração. Outrossim, apesar de a relação empregatícia ser a forma mais comum de
184 Este é um importante avanço na garantia do trabalho decente, visto que até pouco tempo os trabalhadores rurais e
empregados domésticos não eram tinham tais direitos. O trabalho doméstico, regulamentado em lei específica após a CLT, tinha muitos pontos obscuros, carentes de regulamentação. Seu âmbito de proteção foi alargado a partir da Emenda Constitucional nº 72/03, que propiciou uma maior gama dos direitos elencados no artigo 7º, da CF, a esta categoria. Esta Emenda, por sua vez, só foi regulamentada dois anos depois, pela LC 150/15, importante marco legislativo para o trabalho doméstico, tratando de institutos como a caracterização do vínculo e pormenorizando os direitos sociais constitucionalmente estendidos à categoria. Quanto aos trabalhadores rurais, estes também tiveram sua atividade regulamentada em legislação específica, na Lei nº 5.889/73, mas ainda assim não são tratados com a isonomia e atenção necessárias. Neste sentido, ressalta Fábio Fernandes: “[...] no meio ambiente rural a situação é extremamente preocupante, pois a degradação das condições de trabalho em face da ausência de cumprimento das normas ambientais trabalhistas é a regra imperante, independentemente do porte do empreendimento rural.” Cf.: FERNANDES, Fábio. Meio Ambiente Geral e Meio Ambiente do Trabalho: uma visão sistêmica. São Paulo: LTR, 2009, p. 236.
185 DELGADO, Maurício Godinho. Constituição da República, Estado Democrático de Direito e Direito do Trabalho.
In: _________; DELGADO, Gabriela Neves. Constituição da República e direitos fundamentais: Dignidade da
trabalho, deve-se ressaltar que toda relação de trabalho deve se estruturar em determinadas prerrogativas a fim de que seja resguardada a isonomia e a dignidade do trabalhador186. Portanto, mesmo no trabalho autônomo, avulso ou informal, ao indivíduo devem ser concedidas condições mínimas para desenvolver suas atividades sem que haja prejuízo de sua saúde.
Outra disposição constitucional a ser destacada é o artigo 1º, IV, onde os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa são elevados a fundamento da República Federativa do Brasil. O fato de que estes institutos estejam dispostos conjuntamente, no mesmo dispositivo constitucional, apenas destaca a importância da não mercantilização do trabalho em detrimento do crescimento econômico, prezando-se pelo desenvolvimento sustentável, capaz de atender as necessidades do mercado sem abrir mão do bem-estar e da saúde dos trabalhadores ao desempenhar suas atividades. O artigo 6º, que elenca exemplificativamente alguns dos direitos sociais dos trabalhadores, enumera dentre estes a saúde e segurança de uma forma geral.
Neste mesmo sentido, o artigo 170 da Carta Magna estabelece que a ordem econômica deve ser fundada na valorização do trabalho e da livre iniciativa, assegurando a todos uma existência digna, balizada nos ditames da justiça social, observando, dentre outras diretrizes, a defesa do meio ambiente (VI) e a busca pelo pleno emprego (VIII).
Neste norte, percebe-se que toda a ordem constitucional se funda na valorização do trabalho, como aplicabilidade direta da dignidade humana às relações de labor. Dessa forma,
186 Destaca Maurício Godinho Delgado, “A relação de emprego, erigindo-se a partir do trabalho livre, mas
simultaneamente subordinado, permite ao empresário usufruir do máximo de energia, da emoção, da inteligência e da criatividade humanas, dando origem a um mecanismo de integração da pessoa ao sistema produtivo dotado de potencialidade máxima no tocante à geração de bens e serviços na sociedade histórica”. Cf: DELGADO, Maurício Godinho. Relação de Emprego e Relações de Trabalho – A Retomada do Expansionismo do Direito Trabalhista. In: _________; DELGADO, Gabriela Neves. Constituição da República e direitos fundamentais: Dignidade da
nenhuma tentativa de desenvolvimento que vise mercantilizar a força de trabalho ou torná-la apenas um meio para a obtenção de lucros deve prosperar.