CONSIDERAÇÕES SOBRE PSICOTERAPIA BREVE
1.2 PRINCÍPIOS E CONCEITOS BÁSICOS
A maioria dos autores que faz suas propostas em Psicoterapia Breve percorreu um caminho que teve início com a formação em Psicanálise e a propõe como uma forma mais segura de obter um bom conhecimento do funcionamento psíquico do paciente, o que permite uma rápida compreensão e intervenção. A Psicoterapia Psicodinâmica Breve baseia-se no modelo psicanalítico, e leva em conta conceitos tais como; ego, pulsão, objetos, self.
Para Fiorini (1978), “uma avaliação dinâmica continuamente atualizada leva a efetuar reajustamentos, por tentativas e erros, até obter o rendimento máximo do arsenal terapêutico disponível” (p.32). Este autor acrescenta que a “iniciativa pessoal do terapeuta, individualização, planificação, focalização, flexibilidade definem parâmetros
específicos da Psicoterapia Breve” (p.32) e conferem a esta técnica uma estrutura própria, diferente da técnica psicanalítica.
A Psicoterapia Breve adquiriu particularidades que passaram a identificá-la. São essas características específicas que tornam possível o atingimento dos objetivos terapêuticos em prazo bem mais curto, pois não é nem o número pequeno de sessões, nem a duração mais curta do tratamento que define a técnica da Psicoterapia Breve. O que distingue esta técnica são, portanto, os seus conceitos fundamentais como foco, objetivos limitados, tempo, flexibilidade, atividade do terapeuta, que vão se configurando como parte da técnica de Psicoterapia Breve. (Lemgruber, 1984).
ATIVIDADE
Quando se trata de Psicoterapia Breve um ponto de concordância entre os autores é a necessidade de um papel mais ativo por parte do terapeuta. O terapeuta, ao atuar em Psicoterapia Breve estará optando por maior atividade utilizando, segundo Lemgruber (1984), atitudes como: avaliar e diagnosticar as condições internas do paciente, estabelecer um foco a ser trabalhado durante o processo terapêutico, combinar com o paciente um contrato terapêutico discutindo o foco estabelecido, planejar a estratégia básica a ser seguida durante o processo terapêutico, estabelecer metas e objetivos terapêuticos a serem atingidos ao término do processo de Psicoterapia Breve.
Sandor Ferenczi (1926), foi considerado um transgressor porque já propunha uma “técnica ativa” que se opunha à atitude de passividade terapêutica. Este autor buscava em seu trabalho não só a fala do paciente, mas também a linguagem não verbalizada, referindo-se à entonação de voz, respiração alterada, ruborização, tontura, etc. Diante do que acreditava este autor, esta atitude por parte do terapeuta facilitava a percepção de qualquer mudança de expressão ou qualquer sinal de ansiedade, seja verbal ou postural, do paciente.
Hector Fiorini (1978), defendia a utilização de uma técnica que possibilitasse um papel ativo para o terapeuta, que consiste numa seqüência de ação, a saber: “depois de avaliar a situação total do paciente, compreendendo a estrutura dinâmica
essencial de sua problemática, o terapeuta elabora um plano de abordagem individualizado” (p.31).
Alexander e French (1946), consideravam imprescindível a atitude ativa por parte do terapeuta. Nesta técnica, também para Malan (1981), evidencia-se a necessidade de maior atividade, que consiste em orientar o paciente durante o processo, através de interpretações, atenção e negligência seletivas. Neste trabalho o terapeuta deve estar atento e redobrar esforços para manter o tratamento direcionado para a área que foi focalizada, devendo utilizar o material relacionado ao foco.
Na abordagem terapêutica focal o psicoterapeuta sempre atento às manifestações verbais, à postura e reações do paciente, tem um papel eminentemente ativo que acaba por constituir um dos aspectos essenciais da técnica de Psicoterapia Breve. O terapeuta não se limita apenas às informações trazidas pelo paciente, embora tenha como base a queixa, o conflito ou a dificuldade específica que levou o paciente a procurar ajuda psicoterápica. (Lemgruber, 1984).
Na Psicoterapia Breve não há lugar para uma atitude passiva por parte do terapeuta. O terapeuta deverá ter em mente o foco, manter este foco como objetivo central do trabalho, evitando atenção flutuante.
Nesta técnica o terapeuta não deverá ser diretivo, mas deverá evitar trabalhar com material que não esteja diretamente relacionado ao objetivo da terapia, visto que, muitas vezes, a utilização de material feita pelo paciente pode estar relacionada a defesas, na tentativa de evitar o contato com conflitos mais difíceis. Para Davanloo (1994), “as defesas devem ser gentilmente, mas inflexivelmente, confrontadas”, possibilitando reações por parte do paciente.
A técnica de Psicoterapia Breve, por ser mais ativa, segundo Lemgruber (1984), é vista como uma posição de poder do terapeuta frente ao paciente por muitos autores. No entanto, para Lemgruber este poder mencionado por muitos estudiosos parece maior na linha psicanalítica clássica, onde o paciente é levado a uma postura de regressão e dependência.
Como o terapeuta tem um papel ativo, tem um objetivo a atingir e um tempo limitado para desenvolver o processo de atendimento, é preciso que esteja adequadamente preparado do ponto de vista do conhecimento da técnica utilizada e em
condições pessoais satisfatórias, como enfatiza Yoshida (1990) quando cita que os critérios psicodiagnósticos incluem, além das características do paciente, as do terapeuta, referindo-se particularmente à sua formação, experiência profissional e características de personalidade.
FLEXIBILIDADE
Outro conceito básico da Psicoterapia Breve refere-se à flexibilidade por parte do terapeuta. Alexander e French propuseram dois princípios modificadores da técnica: o princípio da flexibilidade e o princípio da experiência emocional corretiva. Neste sentido a técnica torna-se mais dinâmica, o terapeuta torna-se mais ativo.
Alexander e French (1946), defendiam a idéia de que a Psicoterapia Breve e a Psicanálise seguiam os mesmos princípios, levando-se em conta que as maneiras de lidar do terapeuta deveriam ser compatíveis às necessidades do paciente, ou seja, a adaptabilidade não seria exclusividade do paciente, mas haveria um esforço do profissional para buscar um procedimento mais adequado para cada caso clínico, o que se configuraria no princípio da flexibilidade.
Estes autores não se preocuparam em apontar a Psicoterapia Breve como uma técnica independente, mas insistiam em interrelacioná-la com a Psicanálise, dificultaram uma visualização mais clara e mais aceitável das Psicoterapias Breves, retardando seu reconhecimento.
Assim como Franz Alexander e Thomas French (1946), Fiorini (1978), propôs a utilização do “princípio da flexibilidade”, afirmando que “pacientes diferentes requerem tratamentos diferentes” (p.32), com também na remodelação periódica da estratégia e das táticas, em função da evolução do tratamento.
Com base nos princípios propostos por F. Alexander, de dinamização do processo através de uma flexibilidade e maior atividade por parte do terapeuta e do planejamento do tratamento, principalmente com o auxílio dos triângulos de interpretação, que permitem ao terapeuta uma melhor compreensão dos conflitos psicodinâmicos do paciente e, com isso, a possibilidade de planejar o processo terapêutico de forma a aumentar a probabilidade de ocorrerem Experiências Emocionais Corretivas (Lemgruber, 1984).
A flexibilidade do terapeuta tem relevante significado no encaminhamento adequado e imediato do paciente. É de expressiva importância acolher o paciente e mobilizá-lo para um tratamento que melhor atende suas necessidades. A simples sugestão pode não garantir a procura. Auxilia-lo a identificar sua situação e a perceber a utilidade de uma intervenção que se adeque ao seu quadro clínico, poderá ajudá-lo a ter uma percepção mais adequada a respeito de si. Este apoio, bem como alguma informação, poderá representar uma melhora mais abrangente para o indivíduo. (Enéas, 1999a)
A flexibilidade exige rigor, do ponto de vista teórico, técnico e ético, é preciso, portanto, que o terapeuta tenha bastante conhecimento das estratégias pelas quais um processo terapêutico possa ser útil (Enéas, 1999c).
DURAÇÃO
Dentre os autores que utilizam a técnica da Psicoterapia Breve há os que estabelecem o número de sessões e a data do término do tratamento, há os que demarcam uma data para o término, mas não estabelecem o número de sessões e ainda aqueles que, embora admitam que a duração do atendimento deva ser breve, não fixam o número de sessões.
Tem importância significativa estabelecer a duração do processo terapêutico, pois além de dar limites aos pacientes, permite facilitar sua participação mais madura, na medida em que tem uma percepção mais consciente de seu tempo real. (Mann, 1973).
Segundo Sifneos (1979, 1989), pode-se deixar a duração do atendimento em aberto, até que os objetivos estejam próximos de serem atingidos, ou estabelecer o término desde o início do processo, em termos do número de sessões ou de uma data para o término do atendimento. As duas propostas podem ser utilizadas, cabe analisar qual a mais recomendável, de acordo em função da situação.
Mann (1973), associava a questão da alta a um limite de doze sessões e dava a entender ao paciente que a alta tem um caráter definitivo.
Malan (1981), mantinha em seu trabalho a proposta de um limite máximo de quarenta sessões. Com o passar do tempo passou a utilizar um critério de vinte sessões em se tratando de terapeutas experientes e trinta para terapeutas em treinamento. Para este autor um limite de duração fixado no início do tratamento é mais benéfico, principalmente porque a questão da alta é salientada desde o início.
Segundo Ferraz, Dewelk e Hegenberg (1993), para Gilliéron:
“os princípios de base da psicoterapia breve são: a limitação da duração
que varia de três meses a um ano, a disposição face-a-face, a regra da
associação livre para o paciente, e a análise das resistências e dos
conteúdos das associações, levando-se em consideração as interações
paciente/terapeuta” (p.70).
De acordo com Yoshida (1990), não há um consenso nem unanimidade sobre o tempo proposto para a terapia para a maioria dos estudiosos.
PLANEJAMENTO
Dentre as exigências mínimas para o êxito em um trabalho de atendimento em Psicoterapia Breve está o planejamento terapêutico. A possibilidade de planejar e estabelecer antecipadamente os objetivos que se pretende atingir é condição para que se obtenha resultados mais satisfatórios na utilização desta abordagem.
Um planejamento terapêutico deve ser, segundo Lemgruber (1984), necessariamente flexível. A correta avaliação do paciente é um elemento básico no planejamento terapêutico. Após esta avaliação, ainda segundo Lemgruber (1984), o terapeuta deverá estabelecer projeto de trabalho, seguido de uma devolução diagnóstica, onde será discutida a elaboração do foco para a terapia.
Alexander e French (1946), tinham uma proposta que se constituía no planejamento do trabalho terapêutico em Psicoterapia Breve. O terapeuta a partir da queixa faz um levantamento minucioso da história de vida do paciente. Nesta comunhão de dados avalia-se a situação do paciente, obtendo-se assim uma compreensão clínica mais ampla e completa de sua problemática, uma compreensão psicodinâmica da queixa, o que possibilita a delimitação do foco, através da elaboração de um plano de trabalho individual.
Partindo do planejamento terapêutico, é possível obter uma compreensão psicodinâmica da queixa e sua importância para o êxito do trabalho. Esta compreensão por parte do terapeuta deverá ser acrescida do entendimento, pelo paciente, de suas atitudes e conflitos. Há de se ater a um aspecto que comumente ocorre, o da queixa latente. No início de todo trabalho de atendimento psicológico, partimos da queixa manifesta, tendo como determinação que é a partir da situação-problema trazida pelo paciente que se inicia o trabalho com o mesmo. (Enéas & Yoshida, 2004).
No planejamento é importante a escolha da estratégia terapêutica, que permite saber qual a melhor forma e mais produtiva de se chegar ao objetivo pretendido (Enéas e Yoshida, 2004).
Mantendo o problema principal como foco central do processo, o tratamento é desenvolvido de forma a levar o próprio paciente a identificar e correlacionar suas dificuldades com situações de sua vida cotidiana. Dentre os conceitos peculiares à técnica da Psicoterapia Breve destacamos alguns que são básicos: Experiências Emocionais Corretivas (E.E.C.), Aliança Terapêutica, Foco, Atividade e Planejamento. (Enéas e Yoshida, 2004).
De acordo com Bloom (1992), o planejamento descreve o tratamento breve que tem a intenção de realizar um conjunto de objetivos terapêuticos dentro de um limite circunscrito de tempo.
O planejamento em Psicoterapia Breve permite a obtenção de objetivos mínimos, dependendo das condições do paciente ou mesmo do terapeuta, bem como das expectativas que são trazidas para o atendimento, demanda, outrossim, a hierarquização dos objetivos (Enéas, 1999b).