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PSICOTERAPIA BREVE INFANTIL

PROTOCOLO DOS ATENDIMENTOS

Na clínica-escola da Universidade Guarulhos o atendimento psicoterápico faz parte das atividades obrigatórias para a formação de psicólogos no curso de graduação em Psicologia. Tem–se como preocupação básica a formação profissional dos estagiários, no que diz respeito à postura ética e à sua orientação teórico–prática. O atendimento a pacientes trata–se da primeira experiência vivenciada pelo aluno.

Na clínica de Psicologia da Universidade Guarulhos, onde foi realizado todo o levantamento que direcionou este trabalho, a modalidade de estágio utilizada é a técnica da Psicoterapia Psicodinâmica Breve. Não se pretende, porém, formar profissionais especialistas em Psicoterapia Breve, mas procurar adequar a técnica à realidade vivenciada pela população.

Os centros de formação dos cursos de psicologia têm adotado a Psicoterapia Breve Infantil (PBI) como modalidade de intervenção terapêutica, uma vez que ela se mostra compatível com as possibilidades desse tipo de serviço e atinge resultados satisfatórios. Esta utilização na prática tem sido acompanhada de um número significativo de pesquisas, no entanto, o que se percebe é uma grande variedade de formas de atuação nomeadas como psicoterapias breves, nem sempre respaldadas por um referencial teórico coerente.

A Psicoterapia Breve Infantil psicodinâmica pressupõe o atendimento tanto dos pais quanto da criança e fundamenta-se na idéia de que eles compartilham uma área de conflito definida pela qualidade da relação entre eles e que contribui para o aparecimento de perturbações no desenvolvimento infantil. Diversamente do trabalho com adultos, lida com uma trama mais complexa de relações e exige uma abordagem mais flexível que possa ser ajustada às diversas faixas etárias, bem como aos tipos de dificuldades apresentadas pela criança e pelos pais. Pretende-se apresentar as especificidades do atendimento breve infantil, verificadas em estudo que abrangeu três diferentes situações, e tecer considerações sobre cada uma delas, além de ilustrá-los com casos clínicos.

O objetivo do trabalho realizado na clínica-escola de Psicologia da Universidade Guarulhos é oferecer aos pacientes um atendimento que conta, desde o princípio, com objetivos bem definidos, que possa garantir-lhes uma maior adaptabilidade e adequação para lidar com os conflitos que os aflige.

Quanto à modalidade terapêutica mais usualmente desenvolvida pelos estagiários, insere-se na definição de Fiorini (1981) de Psicoterapia de Esclarecimento. Incluem–se entre seus objetivos o alívio de sintomas, além de acrescentar e desenvolver no paciente uma atitude de auto–observação e um modo de compreender suas dificuldades mais próximo do nível de suas motivações e de seus conflitos.

A Psicoterapia de Esclarecimento supõe uma atitude ativa por parte do estagiário, a partir das hipóteses psicodinâmicas levantadas em supervisão.

Nesta ordem supõem-se êxito no processo de atendimento, as expectativas positivas, por parte do paciente, bem como o entusiasmo e a vontade de ajudar o paciente, por parte do estagiário.

Por se tratar de curso de formação, desenvolvido em clínica-escola, a técnica da Psicoterapia Breve precisa se adequar ao período letivo, tempo tido como disponível para a realização do estágio e, conseqüentemente, para o atendimento dos pacientes. Um dos fatores que confere a esta técnica a especificidade é a limitação do tempo. A Psicoterapia Breve poderá permitir que o pouco tempo de que o terapeuta dispõe, por se tratar de estágio de duração limitada, possa ser bastante adequado e plenamente satisfatório para o atendimento, visto tratar-se de um trabalho com objetivos definidos.

Neste sentido pode-se atender um número maior de pessoas num menor espaço de tempo. O próprio estagiário atinge um crescimento profissional mais seguro, haja visto poder realizar um trabalho mais completo, dando a ele algum sentido em tudo que fez.

Para a realização de um trabalho em clínica-escola conta-se com profissionais em formação, que necessitam do auxílio do trabalho de supervisão, em geral semanal, tendo uma compreensão clínica mais restrita dos quadros dos pacientes em atendimento.

As supervisões, devido à inexperiência dos alunos, têm um papel fundamental no atendimento das Psicoterapias, mas no geral, apesar do despreparo dos alunos, muitas vezes prevalece o movimento empático, que acaba por tornar produtivos muitos processos psicoterapêuticos realizados nas clínicas-escola de Psicologia.

Na prática profissional, vinculados a instituições do tipo clínicas-escola de Psicologia, detectam-se casos de atendimento clínico, com queixas variadas, as quais permitem buscar uma orientação, que esteja calcada em procedimentos previamente conhecidos, que se ajustam na busca do estabelecimento do foco, dos objetivos e das estratégias para cada caso.

Quando o paciente procura uma clínica-escola e realiza inscrição, que pode ser feita por telefone ou pessoalmente, para um trabalho de atendimento psicológico é marcada, e posteriormente realizada, uma entrevista de triagem. Na entrevista de triagem, em se tratando de atendimento de crianças, somente os pais são convocados. Algumas destas entrevistas de triagem são realizadas pelo profissional em formação, são estes os estagiários do quarto ano do curso de Psicologia, como parte das atividades obrigatórias da disciplina de Psicodiagnóstico.

A entrevista psicológica de triagem tem o objetivo de avaliar se os serviços prestados pela clínica vêm de encontro com as necessidades sofridas e detectadas nos quadros clínicos dos pacientes.

Durante o atendimento em Psicoterapia Breve Infantil, e muitas vezes, ainda na entrevista de triagem, surgem conteúdos que configuram uma desorganização familiar, mesmo que a queixa central não esteja diretamente relacionada a dificuldades dessa ordem. Muitas discussões, desentendimentos, ameaças e agressões são percebidas no mundo em que estas pessoas estão inseridas no mundo familiar. Sinais evidentes de violência doméstica têm sido vivenciados pelas famílias. (Azevedo e Guerra, 1995). Esta violência que ocorre na dinâmica familiar, nas dificuldades das crianças, nas queixas encontra-se, muitas vezes, mascarada, pois, de certo modo, todos estão diretamente envolvidos com ela.

Freqüentemente a violência doméstica não é detectada durante o tratamento em Psicoterapia Breve Infantil. Isto não ocorre em função da técnica utilizada, mas pela

dificuldade que todos, em geral, têm em lidar com situações de violência. A família não considera a violência como conflito central que aflige a dinâmica. A violência é silenciada pela família como um segredo e, no atendimento psicológico, acaba por constituir um pacto do terapeuta com os pais, para que o psicólogo não se conscientize desta violência.

Direta ou indiretamente as pessoas vivem situações de violência doméstica, seja ela física, verbal ou psicológica e nem sempre estão preparadas para lidarem com situações que envolvam uma sobrecarga emocional intensa, deslocando, nesta ordem, os conflitos para conteúdos que melhor possam organizar.

Nem sempre tais aspectos são trazidos como queixas, priorizando-se, por exemplo, o declínio no rendimento escolar, originariamente apresentado como queixa pelos pais. Os dados que configuram uma desorganização familiar nem sempre são facilmente detectados, visto que incluem situações onde a violência doméstica está presente.

Invariavelmente, as situações vistas como inadequadas, em certa ordem, são relevadas. As queixas mais continentes nem sempre são pontuadas, tanto com relação ao paciente, trazendo uma queixa não direcionada para o conflito central; quanto no que se refere ao terapeuta, nem sempre capaz de relacionar a queixa com conflitos mais profundos. Ambos, paciente e terapeuta, circundam a dinâmica do paciente e lidam, muitas vezes, apenas com aspectos periféricos.

Redobram-se aqui, os cuidados com os pais, pois não é raro desistirem do atendimento, uma vez que buscaram um atendimento psicológico já tendo eleito um membro “doente” na dinâmica familiar. Nem sempre os pais estão preparados para se depararem com seus próprios conflitos, com suas dificuldades, deslocadas para a criança.

Na entrevista de triagem, que precede a fase diagnóstica da Psicoterapia Breve verifica-se se a queixa manifesta trazida pelo paciente é passível de ser abordada num trabalho como o que é proposto em Psicoterapia Breve, dentro e sob o enfoque de critérios de aceitação ou exclusão do quadro que se apresenta.

O critério de inclusão ou de exclusão do paciente, no atendimento na clínica- escola de Psicologia da Universidade Guarulhos, está vinculado à verificação se o

quadro clínico do paciente é indicado ou contra-indicado para Psicoterapia Breve, conforme descrito na página 38, capítulo II deste trabalho. Se indicado para Psicoterapia Breve, o paciente aguarda sua convocação numa fila da espera, para dar início ao processo, na própria clínica.

Estas entrevistas, em sua maioria, são realizadas pela autora da presente pesquisa, que tenta avaliar se o paciente é indicado ou contra-indicado para um processo de Psicoterapia Breve. Em caso de contra-indicação o paciente, em se tratando de adulto, ou os pais, em se tratando de criança, é reconvocado. Procede-se, então, seu encaminhamento externo para uma instituição que possa prestar o tipo de acompanhamento mais condizente ao quadro clínico do paciente.

Nos casos em que os pacientes permanecem na Clínica-escola de Psicologia, após a entrevista de triagem, são conduzidos para uma das três áreas que dão corpo à clínica;- Psicoterapia Breve de Adulto, Psicoterapia Breve Infantil e Psicodiagnóstico, dependendo da necessidade do paciente. Por se tratar de clínica- escola, portanto regida por um calendário escolar, as convocações dos pacientes ocorrem sempre no início de cada semestre e, no decorrer de quatro meses, ou dezesseis sessões, aproximadamente, é desenvolvido o trabalho de atendimento psicológico.

Após a inscrição para atendimento, muitas vezes o paciente, dependendo da época do ano, aguarda um período razoável na fila de espera, em qualquer uma das três áreas já mencionadas. Em se tratando da presente pesquisa, por abordar especificamente casos de atendimentos realizados em Psicoterapia Breve Infantil, doravante serão mencionados aspectos mais diretamente relacionados a esta modalidade de atendimento.

Em Psicoterapia Breve Infantil há situações em que os pais desistem do atendimento alegando a demora, ou até comparecem no atendimento apesar da demora, mas desistem em seguida, utilizando qualquer argumentação, quando na verdade parece claro a dificuldade em lidarem com seus próprios conteúdos.

Dá-se, assim, início ao atendimento em Psicoterapia. Os atendimentos são realizados individualmente por estagiários do quinto ano do curso de Psicologia, os quais atendem as crianças e acompanham seus pais em Orientação de Pais.

Tanto as entrevistas iniciais quanto as sessões psicoterápicas são registradas semanalmente, pelos estagiários quintanistas do curso de Psicologia, em folhas de registro de processo, que irão compor o prontuário do paciente, acrescido das fichas de inscrição e de atendimento, do relatório final e da folha de encerramento.

Findo o processo, o paciente tem seu prontuário arquivado, no caso de ter tido seu atendimento concluído, e, no caso do paciente ter sido reconduzido, retornará à fila de espera para ser reconvocado no semestre seguinte, tendo prioridade sobre os demais pacientes, por já ter recebido algum tipo de atendimento.

Tais aspectos conduzem ao pensamento de que, de

maneira geral, o ser humano tem muita dificuldade de lidar com questões e situações

em que a violência esteja atuando.

Capítulo IV

VIOLÊNCIA: PROBLEMAS RELATIVOS