A preocupação com a criança é matéria no plano internacional por meio dos tratados e convenções, ganhou amparo em 1959 com a “Declaração Universal dos Direitos da Criança” aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU), visando a conscientização dos povos. 3
“Foram necessários aproximadamente 40 anos de pesquisas e análises para que se conseguissem a elaboração e a aceitação de uma Convenção sobre os Direitos da Criança”.4 Em 20-11-1989, adotada pela Assembléia-Geral das Nações Unidas a “Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança”, a qual foi assinada pelo Brasil em 26-01-1990 e aprovada pelo Decreto Legislativo nº 28, de
1
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: Direito de Família. 23. ed., rev., atual., de acordo com a Reforma do CPC e com o Projeto de Lei n. 276/2007. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 13.
2
SAPKO, Vera Lucia da Silva. Do direito à paternidade e maternidade dos homossexuais: sua viabilização pela adoção e reprodução assistida. Curitiba: Juruá, 2006, p. 66.
3
Ibid., p. 88.
4
ANDRADE, Larissa Leônia Bezerra de et. al. Convenção sobre os Direitos das Crianças. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/br/pb/dhparaiba/2/crianca.html>. Acesso em: 27 maio 2009.
14-09-1990. Pela primeira vez na história, a criança passa a ser considerada sujeito de direito e suas opiniões devem ser respeitadas.5
No preâmbulo da Convenção sobre os Direitos da Criança reconhece que a criança deve crescer em um ambiente familiar com compreensão e amor, ter dignidade, paz, igualdade e liberdade. Idéias que por certo, “inspiraram os movimentos sociais que trabalharam pela aprovação do princípio da proteção integral na Constituição brasileira [...], garantias básicas como o devido processo legal, ampla defesa ou presunção de inocência”.6 Reafirma, ainda, “o fato de que as crianças, dada a sua vulnerabilidade, necessitam de cuidados e proteção especiais [...]”.7
No âmbito nacional, a proteção da criança dá-se por meio da Constituição Federal, do Estatuto da Criança e do Adolescente, do Código Penal, da Lei de Crimes Hediondos, entre outras.
4.1.1 Princípio da Proteção Integral à Criança – Prioridade Absoluta
A discussão do menor era tratada em segundo plano, entretanto com a promulgação da Constituição Federal de 1988 passou-se a garantir os direitos fundamentais da criança e do adolescente, previstos em seu artigo 5º, tais como “o direito à vida e à saúde, à educação, à liberdade, ao respeito e à dignidade, à convivência familiar e comunitária, à cultura, ao laser e ao esporte, [...]”, os quais são os mesmos direitos fundamentais de qualquer pessoa humana.8
A doutrina da proteção integral à criança, inspirada em normas internacionais e ostentada pela CF, está positivada principalmente em seus artigos 227 a 229, em especial o artigo 227, caput, que determina que a família, a sociedade e o Estado devem assegurar para as pessoas em formação:
[...] com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito,
5
ISHIDA, Valter Kenji. Estatuto da criança e do adolescente: doutrina e jurisprudência. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 26.
6
SAPKO, 2006, p. 89.
7
CURY, Munir. Estatuto da criança e do adolescente anotado. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 234.
8
LIBERATI, Wilson Donizeti. O Estatuto da criança e do adolescente: Comentários. Brasília: IBPS, 1991, p. 4.
à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (grifo nosso).9
Dentro deste enfoque, a criança passou a ser sujeito de direito, frente à família, à sociedade e ao Estado. A Constituição Federal instituiu o princípio da prioridade absoluta, deferindo-lhe proteção especial em razão de se encontrar em condição peculiar de pessoa em processo de desenvolvimento. O legislador adotou o critério cronológico, não se preocupando com a capacidade civil, pois a proteção integral da criança ou do adolescente é em função da sua faixa etária.10
Do mesmo modo, a proteção à criança e ao adolescente é integral, prevista na Constituição Federal, artigo 227, “quando determina e assegura os direitos fundamentais de todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de qualquer tipo”.11
Neste diapasão, como suporte jurídico basilar, o Estatuto da Criança e do Adolescente perfilha a doutrina da proteção integral, conforme o artigo 1º: “esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente” e dentro de duas diretrizes fundamentais: a) o melhor interesse da criança, e; b) sua condição de sujeito de direito em desenvolvimento.12
Na teoria adotada pelo Código de Menores, ora revogado, o “Direito tutelar do menor”, considerava “as crianças e os adolescentes como objetos de medidas judiciais, quando evidenciada a situação irregular”. Suas medidas não passavam de sanções disfarçadas em medidas de proteção e sem medida de apoio à família, abordava sobre a situação irregular da criança e do adolescente, os quais eram privados de seus direitos. A nova teoria, adotada pelo ECA, da Proteção Integral, voltada para a população jovem do Brasil, garante proteção especial ao segmento social e pessoalmente mais sensível. 13
9
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao_Compilado.htm>. Acesso em: 9 maio 2009.
10 CURY, 2002, p. 21. 11 LIBERATI, 1991, p. 2. 12 ISHIDA, 2004, p. 25. 13
O artigo 4º14 do ECA, praticamente transcreve o artigo 227 da CF, que determina “que, primeiro, a família e, supletivamente, o estado e a sociedade, têm o dever de assegurar, por todos os meios [...] e com absoluta prioridade, todos os direitos inerentes à constituição de um homem civilizado”. As crianças e os adolescentes devem estar na escala prioritária de preocupação dos governantes. A proteção da criança e do adolescente, na interpretação da norma legal, deve-se observar a sobreposição a qualquer outro bem ou interesse juridicamente tutelado, considerando a destinação social da lei e a condição de pessoa em desenvolvimento.15