CAPÍTULO III: ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA
3.2 O Discurso dos Professores
3.2.4 Princípios Institucionais e Identidade Profissional
Quadro 6 – Formação Discursiva 4
PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS E IDENTIDADE PROFISSIONAL
SUJEITOS UNIDADES DISCURSIVAS
Sujeito 1 • quando apareceu um concurso da federal do ABC, daí fiquei sabendo, então eu já conhecia parte daquilo que era a casquinha do projeto, mas só ai que eu fui de fato conhecer o projeto, que ai eu fui ler o PDI e também o projeto pedagógico, e fui me encantando, por que eu acho que isso também é importante na federal do ABC, ver a forma que o processo de seleção de professores se constitui e diminui a possibilidade que você tenha gente que aparece do nada, a leitura...
criar um projeto, apresentar um projeto, apresentar o memorial, mostrar que você tem aderência com aquele projeto, que é o próprio projeto da UFABC, articular o projeto que você vai apresentar com aquela realidade também do PDI
• a maioria das professoras e dos professores foram formados na USP, se não me falha a memória, o dado é 56%, e vem então de uma universidade que é muito quadradinha, no sentido não sei se a gente pode chamar de as tradicionais, mas são jovens, e que talvez estivessem até cansados daquele projeto. Que eu vejo é que, quem mais reclama do formato que nós temos, do nosso projeto, são os professores mais velhos, eu não vejo os jovens reclamando tanto pelo fato de sermos quadrimestrais, pelo fato de não termos departamentos, pelo fato de você não ter cadeira.
• Isso me incomodou um pouquinho no início, porque eu prestei o concurso para África contemporânea, eu era o único professor dessa
área de África contemporânea, mas, quando eu fui para sala de aula, a disciplina não tinha nada a ver com a África e isso me tirou do lugar comum, então faz com que as professoras e professores estejam sempre se atualizando, eu não conheço o universidade toda mas por exemplo: Eu sou do curso de Relações Internacionais, quando você chega tem algumas, como um rito de passagem que é, primeiro você tem que dar um seminário para outros colegas, então você vai ser conhecido pelo seminário ou pelo menos uma parte desse conhecimento.
• O segundo, você tem uma planilha que você recebe, são três linhas, com todas as disciplinas, que você diz assim “quero dar”, “posso dar”
e “não quero dar” então isso faz com que você tenha pelo menos 20 disciplinas que você, ou escolheu que quer dar, ou disse que pode dar, então você tem o rodízio o tempo todo, eu não sou da área de petróleo, mas, já dei aula sobre petróleo e eu tive que me preparar para dar aula petróleo, sobre a geopolítica do petróleo, então esse projeto não é um projeto fácil de ser compreendido, por isso que tem gente que fica um tempo meio perdido, seja docente, seja discente fica um tempo perdido.
• Acho que nós conseguimos fazer bem na área do ensino da pesquisa esse/o projeto ser interdisciplinar, mas ainda não fazemos isso na área administrativa, acho que o nosso desafio, tem que ser interdisciplinar também na gestão, precisaríamos ter um outro tipo de diálogo nesse sentido
• estar em um universo onde a militância operária já atuou muito, então a universidade ela já nasce com a política de cotas, não significa dizer que não tenha um viés meritocrático, muitas vezes tem, agora mesmo eu estou fazendo um curso de métrica que foi organizado pela FAPESP, para avaliação de indicadores, ele era um curso semipresencial e agora ele tá totalmente EAD, então me interessa saber assim que a universidade, ela também precisa ser avaliada nos rankings internacionais pela sua capacidade de responder às demandas da sociedade, então acho que deveríamos considerar
muito o fato que essa universidades tem uma política de cotas por exemplo.
• esse projeto da UFABC, é um projeto que está em jogo também, se nós tivermos por exemplo o fim das cotas em 2022, então só que nós temos que ter, já que o PDI, o projeto da universidade, já é pensado a partir de política de cotas, já que as cotas na UFABC elas, a UFABC é anterior a lei de cotas, ela já nasce com cotas, o que nós precisamos é garantir isso, ela continua sendo um universidade muito com cara europeia, é isso que nós temos que mudar
• eu acho que UFABC em mais cinco anos vai deixar muitas dessas universidades, daquilo que diz respeito aos rankings internacionais para trás, mas como aparecer no ranking sem desaparecer na política, em um projeto de políticas de inclusão? Eu acho que esse é o nosso desafio. Porque? Para que você mantenha a inclusão e uma inclusão qualificada, você precisa ter orçamento para isso e sem dinheiro você não mantém e aí você perde neste universo a capacidade de competir, não sei se essa palavra, mas se é uma competição pelos rankings a gente perde a capacidade de competir em igualdade.
• eu sempre digo assim, para conhecer universidade, nós temos que fazer uma análise do próprio conselho universitário, de como os colegas reagem a pauta do conselho universitário, porque aquele é o grande espaço que nós temos, não é dentro do curso é no conselho universitário, então o que se decide ali, tanto que vai virar a norma de funcionamento da universidade.
Sujeito 2 • eu tenho uma visão bem crítica ao modelo de ensino da UFABC, não sei se os outros colegas tem a mesma impressão que eu, eu sei que tem gente que gosta, eu conheço colegas na UFABC que acham que é muito inovador, interessante, mas eu tenho sérias críticas, principalmente no modelo quadrimestral, que é uma coisa assim só dela, porque uma das grandes diferenças que eu tinha no fato de conseguir ser a docente que eu queria ser na UNESP é porque eu tinha esse acompanhamento de turma, como eu disse, o curso era semestral e as pessoas me acompanhavam por um ano. Eu não acho
que necessariamente que um ano tenha que ser o tempo para você acompanhar uma turma, é até um exagero, digamos, mas estou dizendo que não vejo a necessidade de ser esse modelo de um ano, mas o modelo semestral, eu acho que ele tem inúmeras vantagens em relação ao quadrimestral, que é exatamente essa, você conhecer o grupo de estudantes que você tá trabalhando, então eu digo isso aos meus alunos quando apresento meu programa de ensino na UFABC.
A UFABC ela tem toda uma política que é inovadora e é muito interessante tentar inovar nesse sentido, mas...
• eu acho que ela tentou fazer um projeto muito interessante, a interdisciplinaridade é muito bacana como é proposta, realmente as universidades tradicionais tem problemas nesse sentido, a questão da disciplinaridade como ele é mantida, mas assim, há situações reais, concretas que impossibilitam isso, então é muito bonito na descrição do plano, mas que na prática, eu acho que realmente o aluno deve ser avaliado muito mais pela nota que ele tira numa prova, eu costumo dizer isso para meus alunos e isso não é segredo para ninguém.
• eu não posso acompanhar 120 pessoas em doze semanas e fazer uma avaliação sobre elas, nesse nível de profundidade, entende? Ai o que acaba acontecendo de fato? Não na idealização, no fato?
• são questões que a universidade apresenta que são muito complicadas e eu digo mais, são complicadas pro professor e são complicadas pros alunos, é muito difícil com um aluno isso.
• esse aspecto que você destaca da UFABC realmente é uma grande conquista, a UFABC, ela é pensada nessa questão da inclusão social, de negros, pardos, indígenas, deficientes, da escola pública, isso em 2007, hoje isso pode até ser mais comum, mas em 2007 isso era bem específico. Então, a UFABC tem isso realmente que é louvável, e ela conseguiu, mais interessante é isso, ela conseguiu a inclusão de muitos alunos dessas condições. Então isso é extremamente enriquecedor pra gente. Eu nunca dei aula na USP, mas eu passei na graduação, eu nunca dei aula na USP, mas eu fiz UNICAMP mestrado e doutorado, então eu passei pela USP, UNICAMP,
UFSCAR, UNESP, a UFSCAR e a UNESP dando aula. Eu não vi em nenhuma dessas universidades uma diversidade tão grande quanto a da UFABC.
• a UFABC nasce com esse propósito, então ela vem de um modelo bem planejado, onde a diversidade faz parte do projeto, a inclusão com excelência, que é o lema deles e isso é muito positivo. Só que muitas vezes essa inclusão barra nessas dificuldades que eu mencionei. Então o aluno que muitas vezes trabalha o dia inteiro, depende daquele trabalho, não é um trabalho complementar, ele trabalha porque é chefe de família, ou porque ele depende daquilo pros pais dele sobreviver e ele precisa viver esse momento de quadrimestre de extrema exigência, é muito difícil, então assim, é uma discussão que a gente faz inclusive dentro da universidade, como conciliar excelência com a inclusão, é um desafio e tanto, eu acho que até certo ponto a UFABC está conseguindo ter, ela realmente conseguiu a inclusão, da ideia de na universidade.
• Agora a UFABC, ela possibilitou essa alteração das camadas mais baixas que conseguem ter acesso e isso é muito louvável para aquela universidade. tem algumas implicações que comprometem esse aspecto, o acesso é garantido, mas e depois? É o que a gente fala lá também, uma coisa é você entrar e outra é você sair né, só entrar não basta, é importante que você entre e conclua, mas enfim.
• Então como isso recapitula na identidade profissional, eu acho que de uma maneira muito positiva, ter acesso a essa possibilidade de atingir alunos que de outra forma não estariam dentro da universidade e pensando naquilo que eu disse na primeira questão que é essa vocação quase que sacerdotal de você conseguir passar um conhecimento seu para alguém que não o tinha, isso é super enriquecedor. Se você consegue fazer isso de uma população que você sabe que teria menos ainda como ter aquilo, porque não era regra ele estar dentro de uma universidade, então é muito bacana, esses aspectos da UFABC são realmente louváveis, a própria interdisciplinaridade, você entender que a ciência ela não está
compartimentada em uma caixa e mesmo a formação de um bom engenheiro necessita de uma reflexão das humanidades, mesmo a reflexão das humanidades necessita a aptidão para fazer cálculo, então isso é muito legal dentro da UFABC, eu acho que isso impacta positivamente na identidade da gente, nesse aspecto sim.
Sujeito 3 • Ela tem um programa de capacitação, ela tem estímulos a sua formação continuada? Nesse sentido, não, é muito pouco, assim como qualquer outra universidade. Você pode ter um outro estímulo, um outro pequeno benefício que você consiga, mas no geral o plano de carreira da educação superior pública, ele é muito pouco atrativo para formação continuada, são muito degraus, degraus muito próximos um do outro e por serem muito próximos, a gente não precisa se esforçar muito para conseguir subir de um degrau para o outro. Então nesse sentido, a UFABC, assim como as demais universidades, eu diria tem uma contribuição bastante limitada nesse sentido de oferecer, de estimular, de provocar vamos dizer que haja uma formação continuada mais regular, constante e programática o tipo programático o melhor dizer.
• Agora por outro lado, na dimensão mais profunda, que essa que você me coloca, eu acho que a universidade estimula muito e é muito diferente de outras instituições, eu trabalhei antes de trabalhar na UFABC, por 10 anos numa universidade privada, convencional, universidade metodista, aonde eu me formei e mesmo em relação a outra universidade não publica, é diferente e pelo que eu conheço de outras universidades públicas é diferente. Diferente em que? Se eu fosse resumir em dois pontos, eu diria primeiro liberdade de cátedra, mas isso as outras também oferecem no geral, agora talvez um outro conceito para a gente trabalhar, seria uma certa inconstância, quero dizer, com essas duas coisas, primeiro, como a UFABC não exige nos seus concursos públicos a formação do professor em um uma determinada área específica, o candidato do concurso pode ser doutor em qualquer área do saber.
• Tem gente como eu que tá lá, mas tem toda pós-graduação em educação, tem gente que é psicólogo de formação inicial e não filósofo, tem gente que é antropólogo, tudo isso no programa, que em tese seria muito específico, que é o doutorado em filosofia. Então colocando isso como um dos elementos, para dizer assim, nós estamos colocados na universidade numa estrutura interdisciplinar, por mais que alguns professores, não é necessariamente no meu caso, mas que alguns professores gostem e queiram chegar à universidade e ministrar sua aula de maneira disciplinar, dá o seu conteúdo tradicional e etc. todo o restante do diálogo na universidade, passa por essa interdisciplinaridade e mesmo diálogo com os estudantes na sala de aula passa pela interdisciplinaridade, por que os estudantes estão participando desse universo interdisciplinar da universidade,
• isso nos coloca nesse lugar de inquietação, de não tranquilidade, que nos estimula e aí se junta isso com o com a liberdade de cátedra e dá um resultado que eu acho muito bacana, é o que me anima demais tá lá, eu consigo agregar na minha pesquisa, na minha aula, na minha formação e preciso me formar para isso, quaisquer elementos que eu queira por que a universidade recebe isso muito bem.
• E somasse a isso o fato de a gente não ter cadeira fixa na universidade, não tenho professor da cadeira “x”, não tenho catedrático da cadeira “x”. Muitas vezes em anos diferentes nós somos instados a ministrar disciplinas diferentes, o que é bastante raro no conjunto das universidades públicas principalmente né, e isso também do ponto de vista da necessidade de procurar uma formação continuada mais dinâmica e isso é uma provocação né.
• nesse sentido, a universidade nos tira da zona de conforto. Claro que isso é sempre uma opção, quer dizer para alguns professores podem simplesmente continuar ministrando suas aulas tradicionais, a despeito de toda essa dinâmica que tem no seu entorno né, mas para quem quer aproveitar dessa especificidade que é o meu caso, é uma das coisas que mais me animam, a gente tem um prato cheio né, mas é um prato que exige essa formação, é exigente né;