UMA BREVE GENEALOGIA DOS FUNDAMENTOS DO DISCURSO ANTROPOLÓGICO
PRINCIPAIS TEORIAS E ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS
Apresentadas, em uma breve síntese, as manifestações do pensamento antropológico que poderiam ser consideradas como verdadeiros “paradigmas” de origem da antropologia no século XIX, cabe agora apresentar, também apenas de forma superficial, como a influência de certos temas no pensamento de diversos autores dos séculos XIX e XX permitiu a formação daquilo que se convencionou denominar de teorias e escolas antropológicas. Não que houvesse “escolas” de antropologia propriamente ditas, ou que um autor representativo de uma determinada escola não pudesse compartilhar, eventualmente, das teorias associadas a uma outra escola, ou mesmo se identificar a alguma escola. A utilização do conceito de escola procura identificar, no âmbito da “história da ciência”, certas tendências particulares compartilhadas por um determinado grupo de pensadores, e que, à medida que se consolidam, passam a configurar verdadeiros paradigmas361 que compõem a matriz disciplinar de um determinado
campo do conhecimento científico.
Mas não se pode deixar de considerar o caráter arbitrário das classificações das idéias em disciplinas, escolas e teorias, já que concebidas sob fundamentos essencialmente pragmáticos, não havendo marcos formais ou rígidos em suas denominações e identificações. Assim, quando há referência a algum tipo de escola ou grupo de pensadores, como, por exemplo, o “Círculo de Viena”, apesar de associarmos imediatamente esse nome a determinados pensadores que no início do século XX eram de fato vinculados àquela instituição, o que realmente importa é identificar a tradição intelectual que dali se originou. Tais considerações mostram-se importantes para que fique mais evidente o pressuposto de que as teorias, métodos e tendências descritas abaixo não podem ser vistas como excludentes entre si, de modo que o advento de uma teoria implique necessariamente na total superação de
361 Na concepção original de Thomas Kuhn em sua célebre obra “A estrutura das revoluções científicas”,
paradigmas são considerados como “as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.”, in, KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1991, p. 13.
outra. Na verdade, os paradigmas a seguir descritos362 são complementares, e todos
responsáveis pela formação do que pode ser concebido como a matriz disciplinar da Antropologia.
O evolucionismo cultural
A antropologia evolucionista do século XIX partia do pressuposto de que todos os povos, por mais “primitivos” e “selvagens” que pareçam, possuem cultura e o mesmo potencial de desenvolvimento de outros povos considerados evoluídos. Partindo dessa premissa, o observador europeu-ocidental que se propusesse a estudar os costumes e idéias desses povos deveria considerar que, por mais exótica e sem sentido que essa cultura pudesse se revelar à primeira vista, a organização social era sempre regida por algum tipo de ordem. Para os teóricos do evolucionismo unilinear, as sociedades humanas seguem um determinado padrão de desenvolvimento, seguindo sempre um mesmo movimento global. Assim como as teorias biológicas que apontam para a evolução das espécies, também as sociedades humanas tenderiam a obedecer uma lei natural que, ao longo do decorrer histórico, as levariam a um progresso cultural.
Desse modo, de acordo com a perspectiva evolucionista a humanidade estaria sujeita, desde os primórdios, a seguir por determinadas fases de desenvolvimento cultural e tecnológico. E nessa evolução linear, “a civilização ocidental aparece como a expressão mais avançada da evolução das sociedades humanas, e os grupos primitivos como ‘sobrevivências’ de etapas anteriores, cuja classificação lógica fornecerá, simultaneamente, a ordem de aparição no tempo”.363
Mas ao contrário do que se pode pensar, os primeiros teóricos do evolucionismo social não tiveram influência direta da teoria de Charles Darwin (1809-1882), uma vez que muitos desses intelectuais já desenvolviam idéias evolucionistas antes da publicação da sua célebre obra “A evolução das espécies”.
362 As teorias e escolas antropológicas apresentadas neste capítulo são, em sua maioria, e com algumas poucas
adequações terminológicas elaboradas pelo próprio autor, as mesmas propostas por Jean Poirier para identificar as teorias e métodos desenvolvidos ao longo da história da Antropologia. Mas, de todo modo, é importante consignar a observação feita por Mercier apontando o caráter arbitrário de qualquer tentativa de “dividir a história da antropologia em período delimitados”, uma vez que “as correntes de pensamento características de determinado período ultrapassam largamente os limites que lhe são atribuídos.”, in, MERCIER, Paul. História da Antropologia. São Paulo: Editora Moraes, p. 55.
O principal representante dessa teoria foi Lewis Henry Morgan (1818-1881).364
Além de suas importantíssimas contribuições à formulação de uma teoria do parentesco, com a publicação em 1871 de “Systems of Consanguinity and Affinity of
the Human Family”, foi com a publicação de “Ancient Society”, em 1877, que causou
grande repercussão, já que no bojo dessa obra formulou uma teoria que acreditar ter identificado os princípios lógicos das etapas de desenvolvimento das sociedades humanas. Morgan365 distinguia três estágios na evolução humana: o selvagem, o
bárbaro, e o civilizado, sendo que as definições dessas fases de evolução eram feitas com fundamento em critérios tecnológicos: os “selvagens” eram basicamente caçadores e coletores; os “bárbaros” eram, sobretudo, agricultores; enquanto os “civilizados” eram cidadãos urbanos. Os estudos e as teses evolucionistas de Morgan consistiram ainda em importante fonte de pesquisa e referência para Marx e Engels nos seus modelos de sucessão histórica dos “modos de produção”, especialmente pelo interesse no conhecimento das estruturas das sociedades primitivas. Apesar de incompletos, os resultados dessa tentativa só foram publicados em 1884 em “The Origin of the Family, Private Property, and the State”.
O difusionismo
Numa perspectiva antagônica à defendida pelo evolucionismo, os defensores do difusionismo sustentavam que as sociedades não evoluem em decorrência de profundas mudanças tecnológicas e culturais ocorridas em distintas e sucessivas fases de evolução, mas através dos contatos experimentados entre elas. A evolução tecnológica ou cultural não seria, assim, resultado de um lento e gradual aprimoramento interno de uma determinada sociedade, e sim fruto da incorporação de uma inovação adquirida em outra sociedade. De forma antagônica à proposta evolucionista predominante no século XIX, a história cultural passou a deixar de ser vista como resultado de um movimento unilinear que percorria estágios evolutivos
364 Conforme aponta Eriksen, Henry Morgan “cresceu numa fazenda no Estado de Nova York, formou-se em
advocacia e participou de modo ativo e bem-sucedido na política local. Um dos primeiros defensores dos direitos políticos dos nativos americanos, ele era fascinado pelos índios desde a juventude. Na década de 1840 ele viveu com os iroqueses durante algum tempo, quando foi adotado por uma das tribos e recebeu o nome Tayadaowuhkuh: ‘aquele que constrói pontes’”, in, ERIKSEN, Thomas Hylland. História da antropologia. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 29.
distintos e bem definidos. Para o difusionismo, o desenvolvimento social ocorre através de uma miscigenação cultural, já que a capacidade de invenção de novos elementos culturais é muito baixa. Somente através da difusão das inovações obtidas entre as mais diversas culturas é que se tornou possível um desenvolvimento social da humanidade ao longo da história.
Caracterizado inicialmente por sua forte reação contra o evolucionismo predominante no Século XIX, o difusionismo tinha por fundamento metodológico uma abordagem mais diretamente relacionada a analise dos fatos históricos do que na formulação de teorias culturais. Havia, assim, uma ênfase na abordagem empírica e sistemática dos fatos culturais. Esta perspectiva difusionista foi desenvolvida, principalmente, na Alemanha e Áustria, através da chamada escola “histórico-cultural”, e nos Estados Unidos. As principais investigações foram elaboradas por Fritz Graebner (1877-1934) e Wilhelm Schmidt (1844-1904), que caracterizava-se pela elaboração de sistematizações complexas, denominadas de “círculos culturais” (Kulturkreise), com o objetivo de descrever a difusão dos elementos culturais presentes nas sociedades primitivas até a atualidade. Poirier afirma que quem produziu a primeira metodologia para análises difusionistas foi Leo Frobenius (1873-1938), que de forma bastante avançada para sua época, já defendia que as conclusões obtidas em investigações culturais deviam estar fundamentadas em bases sólidas, pois, do contrário, não passariam de meras hipóteses de trabalho.366
A crítica que se fazia a essa perspectiva de análise dos fenômenos culturais fundava-se no fato de que, devido à sua característica reacionária contra os excessos do evolucionismo, o difusionismo acabou por sucumbir a esquematizações exageradas ao reduzir em demasia os núcleos de dispersão cultural. Tanto que para hiperdifusionistas como G. Elliot Smith e W. J. Perry haveria, em última instância, apenas um único centro inicial de dispersão cultural, que seria o Egito antigo. Com efeito, esses antropólogos chegaram à conclusão em suas pesquisas que todos os elementos culturais que formam a base do da civilização teriam sido inventados há sete mil anos pelos egípcios. Desse modo, as mais diversas formas culturais existentes não passariam de uma imitação ou resultado da cultura egípcia. Efetivamente, essas esquematizações analíticas próprias do hiperdifusionismo, que
beiram o teratológico, implicavam indiretamente, e até por questão de lógica, numa pressuposição cética em relação ao potencial de invenção humana, que seria assim muito mais propenso à imitação e ao conformismo do que ao espírito criativo. Além disso, não havia no difusionismo uma preocupação científica em se comprovar essas conclusões, que passavam a ser consideradas quase como que evidentes diante da riqueza da cultura egípcia e sua aproximação com as outras culturas, deixando margem à arbitrariedades e construções lógicas desprovidas de base objetiva.
Mas, no geral, há que se levar em consideração que os difusionistas, ao buscarem dar conta da totalidade cultural através de sistematizações e paralelismos entre múltiplos elementos culturais das mais diversas sociedades, acabaram por tornar sua tarefa tão ampla que a fragilidade de suas conclusões era esperada. Contudo, esse relativo fracasso metodológico do difusionismo deve ser mitigado frente aos resultados práticos de imenso valor obtidos com essas pesquisas, que contribuíram enormemente para a compreensão da formação das culturas.
As tendências analíticas morfologistas
Essa escola surgiu inicialmente como uma reação aos extremismos que caracterizavam as teorias evolucionistas unilineares, e teve como seus principais expoentes os antropólogos Franz Boas (1858-1942)367 e seu discípulo Robert H.
Lowie (1883-1957). É possível situar o início desse período por volta de 1896, quando foi publicado o artigo de Franz Boas “The limitations of comparative method
in Anthropology”, onde se apresentava uma vigorosa crítica aos métodos até então
utilizados por quase todos os antropólogos, fortemente impregnados pelas teses evolucionistas, contendo ainda novas propostas metodológicas, com forte apego
367 Interessante notar que apesar de ser considerado o antropólogo norteamericano mais respeitado, e precursor
da maioria dos seus antropólogos clássicos, o israelita-alemão Franz Boas, professor de Antropologia da Universidade de Columbia em Nova York, nunca apresentou uma teoria antropológica geral, tendo publicado apenas três livros que, de todo modo, não possuem um lugar de destaque entre as mais importantes obras de Antropologia (POIRIER, p. 95; ERIKSEN, p. 54). Isto se deve, provavelmente, ao seu ceticismo em relação à grandes generalizações. Suas principais colaborações foram feitas através da publicação de diversos artigos científicos em revistas e periódicos especializados. Seus principais livros são “The mind of primitive man”, de 1911; “Primitive art”, de 1926; e “General Anthropology”, de 1938.
cientificista, para a abordagem dos fatos socioculturais.368 Contrários à tese de que
as formas de cultura resultariam de um processo evolutivo atrelado a determinadas “leis universais”, Boas e Lowie defendiam, em princípio, um maior rigor científico nas análises culturais. Isso porque, segundo esses antropólogos, as teses evolucionistas partiriam de um erro fundamental na elaboração de suas conclusões parciais, uma vez que a síntese obtida nas pesquisas não era, na maior parte das vezes, precedida de uma análise pautada exclusivamente em métodos científicos. As tentativas constantes de se enquadrar em esquemas genéricos de evolução social qualquer tipo de forma cultural encontrada nos trabalhos etnográficos, fazia com que os antropólogos adeptos das teorias evolucionistas qualificassem de instituição o que, muitas vezes, não passaria de um conjunto incoerente de costumes, que não poderiam ser considerados como um todo sem abusos de linguagem.369
Iniciava-se, assim, com Boas e Lowie, uma nova tendência reacionária contra os excessos cometidos por alguns autores evolucionistas. Conforme essa proposta, as análises culturais deviam ser sempre precedidas de um tratamento comprometido unicamente com a metodologia científica, evitando com isso que a busca incessante por generalizações e universalismos comprometesse os resultados das pesquisas etnográficas. Os dados etnográficos deviam manter correspondência analítica ao conjunto fático estudado, e não adequação sintética a esquematizações teóricas preestabelecidas. Essas tendências analíticas são chamadas de “morfologistas”, por apresentarem mais as disparidades do que as semelhanças culturais, e seus objetivos consistem somente em dar conta da multiplicidade das formas de organização social elaboradas pelo homem.370
Em substituição ao evolucionismo, Franz Boas propôs o princípio do “particularismo histórico”, sustentando que cada cultura deveria ser estudada segundo seus próprios valores e sua própria história.371 A aplicação desse princípio
pressupõe que a imensa variedade cultural torna utópica qualquer proposta de sistematização que procurasse estabelecer determinados marcos temporais na evolução de determinadas sociedades, e muito menos a definição de paralelismos entre os dados colhidos que levassem a identificação de regularidades universais. Propunha-se a adoção de uma dúvida metodológica, já que as formas culturais
368 MERCIER, Paul. História da Antropologia. São Paulo: Editora Moraes, p. 29.
369 POIRIER, Jean. Una historia de la etnologia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1992, p. 59. 370 Ibid, p. 94.
seriam particulares, “sui generis”, só podendo ser consideradas de forma intrínseca, ou seja, tomando-se como referência a própria cultura de onde elas são provenientes. Esse imperativo metodológico foi cunhado por Boas sob a terminologia de “relativismo cultural”.372 Contudo, apesar de o relativismo de Boas ter
propiciado um estímulo ao desenvolvimento da Antropologia enquanto disciplina científica, sua aplicação poderia levar, no limite, a um ceticismo generalizado que acabaria por esvaziar toda e qualquer pretensão analítica dos fatos culturais. Mas os resultados da obra antropológica de Franz Boas certamente são mais positivos do que negativos, uma vez que suas teorias e métodos foram fundamentais para que novas formulações teóricas fossem produzidas na Antropologia norteamericana,373
sobretudo pelos seus alunos mais notáveis, como Alfred L. Kroeber (1876-1960),374 Edward Sapir (1884-1939),375 Ruth Benedict (1887-1948),376 e Margareth Mead
(1901-1978).377
O psicologismo, a etnolinguística, e o culturalismo
Uma outra grande tendência que caracterizou o pensamento antropológico foi o psicologismo desenvolvido na escola de Émile Durkheim, uma vez que, conforme a análise de Poirier, alguns estudos buscavam estabelecer uma substituição de categorias culturais identificadas nas sociedades indígenas por conceitos ocidentais, que se mostraram, posteriormente, inadequados às suas pretensões analíticas.378
De outra parte, o primitivismo de Lucien Lévy-Bruhl buscava uma contraposição
372 Ibid, p. 54.
373 Eriksen aponta que, para Boas a Antropologia seria a ciência da humanidade, dizendo respeito a tudo que
fosse humano, e como ninguém teria condições de contribuir com todas as ramificações dessa disciplina, defendia uma “abordagem de quatro campos”, dividindo a Antropologia em Lingüística, Antropologia Física, Arqueologia, e Antropologia Cultural. Assim, inicialmente os alunos tinham uma formação geral, e posteriormente se especializavam na área de maior interesse, diferentemente no que ocorria na França e Inglaterra, onde predominava uma abordagem generalista. Cf, ERIKSEN, Thomas Hylland. História da antropologia. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 53.
374 Primeiro aluno de Boas, fundo com a colaboração de Robert H. Lowie o Departamento de Antropologia da
Universidade da Califórnia em Berkeley.
375 Fundou o Departamento de Antropologia da Universidade de Yale, onde criou sua famosa escola de
“etnolinguística”.
376 Foi sucessora de Franz Boas na cadeira de Antropologia da Universidade de Colúmbia, onde organizou a
escola “cultura e personalidade”.
377 Deu continuidade à obra de Ruth Benedict e, segundo Eriksen, “possivelmente se tornou a figura pública mais
influente na história da antropologia.”, in, ERIKSEN, Thomas Hylland. História da antropologia. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 55.
entre dois tipos de mentalidade, atribuindo os procedimentos míticos aos povos primitivos. Num segundo momento, mais recente, surgiram algumas tendências que procuravam aplicar os métodos da psicanálise à interpretação das formas culturais das sociedades primitivas.
É importante notar que no período histórico em que tais tendências começaram a aflorar, mais precisamente a partir de 1920, os objetivos analíticos já estavam voltados muito mais à identificação das bases e princípios organizativos de uma determinada sociedade, destacando a singularidade de suas formas e elementos culturais, do que propriamente em elaborar as esquematizações genéricas tão recorrentes aos evolucionistas novecentistas. Inspirados originalmente na abordagem de caracterização psicológica das sociedades obtida nas obras de Frobenius e Boas, as bases desse movimento foram lançadas por Sapir em sua obra “Language”, de 1921, e Margaret Mead, em seu primeiro trabalho importante, “Coming of age in Samoa”, de 1927.379 Também tiveram destaque nesse período os
estudos de Ruth Benedict e, posteriormente, as investigações desenvolvidas por Abraham Kardiner – psicanalista de formação – e Ralph Linton. Mas conforme ressalva Eriksen, “a linha de sucessão direta vai de Boas à escola da cultura e personalidade de Ruth Benedict (1887-1948) e Margaret Mead (1901-1978)”.380
Seguindo a linha antropológica concebida por Boas, Benedict e Mead priorizavam em suas análises a relação entre fatores psicológicos dos indivíduos pertencentes a determinado grupo cultural e as condições culturais a que encontravam submetidos. Os aspectos políticos e econômicos das sociedades estudadas passaram a ser relegados a segundo plano, erigindo-se como problema fundamental “saber até que ponto as características mentais humanas são inatas e até que ponto são adquiridas”.381 De forma inovadora, e contrariando a concepção
adotada principalmente pela antropologia inglesa, Mead e Benedict sustentavam uma relação entre padrões de emoção individuais com as formas culturais das sociedades, iniciando, assim, os contornos de uma antropologia psicológica. Segundo essa proposta, cada unidade ou conjunto cultural apresentaria uma marca ou um estilo próprio impostos pelo grupo social, e que caracterizaria uma espécie de “padrão cultural” (pattern) dessa sociedade, ou mesmo uma “personalidade cultural”,
379 Ibid, p. 129.
380 ERIKSEN, Thomas Hylland. História da antropologia. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 77. 381 Ibid, p. 78.
à qual Benedict, em sua conceituada obra “Patterns of culture”,382 de 1934, referia-se
como “ethos”.383 Ainda nessa mesma perspectiva, Mead identificava que as nações
desenvolviam “tipos de personalidade” característicos de uma espécie de ethos nacional, procurando explorar o “caráter nacional” dos mais diversos países. 384
De forma diversa ao psicologismo desenvolvido por Benedict e Mead, outros alunos de Boas acabaram por seguir caminhos diferentes, mais afetos à história cultural. É o caso de Kroeber,385 que depois de criar o Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia em Berkeley, desenvolveu relevantes estudos históricos, que mais tarde seriam definidos sob a denominação de culturalismo. A proposta de pesquisa de Kroeber consistia em “empreender a comparação e a análise das relações históricas entre muitas centenas de populações, cada uma com cultura própria, e que não se haviam abastecido da mesma maneira nos fundos culturais comuns que tinham à disposição”.386 O trabalho antropológico realizado por
Kroeber tinha, assim, como principal característica o tratamento das culturas estudadas como uma totalidade que não podia ser fragmentada em partes sem que isso ocasionasse a perda do seu significado.387 Mostra disso é que “Kroeber se
referia ao todo cultural como o “superorgânico”, um sistema integrado que era mais