4.4 DIREITO ADMINISTRATIVO
4.4.3 Formas de concessão serviços públicos
4.4.3.3 Privatização
O tópico acima elucida terceirização como uma forma de privatização, porém cabe ressaltar que uma não se confunde com a outra, vez que aquela trata de privar somente alguns setores da administração pública, entregando a administração privada uma atividade com fim especifico, enquanto a privatização é o meio em que a administração pública cede ao particular toda sua atribuição de competência, configurando assim uma desestatização. (DI PIETRO, 2017).
A privatização para muitos doutrinadores é um conceito muito amplo, uma vez que consiste na ideia de adotar todas as medidas como forma de reduzir o Estado, ou seja, diminuir as atribuições estatais, para que o dever deste seja realizado com eficácia, atendendo os anseios da coletividade. Assim Di Pietro (2017, p. 3, grifo nosso), esclarece:
a. a desregulação (diminuição da intervenção do Estado no domínio econômico); b. a desmonopolização de atividades econômicas; c. a venda de ações de empresas estatais ao setor privado (desnacionalização ou desestatização); d. a concessão de serviços públicos (com a devolução da qualidade de concessionária à empresa privada e não mais a empresas estatais, como vinha ocorrendo); e. os contracting
out (como forma pela qual a Administração Pública celebra acordos de variados
tipos para buscar a colaboração do setor privado, podendo-se mencionar, como exemplos, os convênios e os contratos de obras e prestação de serviços; é nessa última fórmula que entra o instituto da terceirização.
Neste contexto, a privatização é um meio amplo em que a administração pública entrega ao particular atividade de sua competência, pois abrange todas as formas acima mencionadas. Mas ao se referir de privado, entende-se que a atividade desempenhada pelo Estado seja entregue totalmente para a iniciativa privada.
5 O SISTEMA DE PRIVATIZAÇÃO CARCERÁRIA COMO POSSIBLIDADE PARA A RESSOCIALIZAÇÃO DO PRESO
A Constituição Federal, atribui ao Estado o dever da segurança pública (artigo 144 da CFBR), para que haja organização e uma convivência harmônica entre os indivíduos, ainda tem como dever coibir delitos, bem como punir aqueles que cometem as infrações penais. Cabe ainda ao Estado, acompanhar e fiscalizar o cumprimento das punições sentenciadas e dar todo suporte necessário para sua volta ao convívio social.
Com base em outros países o Brasil adota como uma das formas de punição e recuperação do delinquente a pena privativa de liberdade. Em 1940 com a publicação do Código Penal adotou-se o regime penal progressivo, em que o infrator ao praticar um crime poderá iniciar o cumprimento da pena em regime mais severo, podendo na medida dos requisitos legais ir progredindo para um regime mais moderado. (CABRAL, 2006). Nas palavras de Fernandes (2000, p. 102):
[...] à pena privativa de liberdade que agrupa as seguintes finalidades: a punição retributiva do mal provocado pelo criminoso; prevenção, para inibir novos delitos, por intermédio do aprisionamento do infrator e da intimidação de delinquentes em potencial; regeneração do preso, com sua reeducação e ressocialização.
A Constituição Federal, ao preceituar deveres estatais, dispõe também direitos e deveres fundamentais aos cidadãos, sejam eles brasileiros ou estrangeiros, no artigo 5º, há alguns incisos específicos para o preso condenado.
Art. 5º [...]
XLVIII - a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado;
XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral;
L - às presidiárias serão asseguradas condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período de amamentação;
[...]
LXXV - o Estado indenizará o condenado por erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na sentença; (BRASIL, 1988).
Em especial, para estudo do presente trabalho é oportuno evidenciar os incisos XLVIII e o XLIX, que tratam de garantias constitucionais aos indivíduos cuja liberdade é restringida. O primeiro refere-se que o delinquente deverá cumprir a pena em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do crime praticado bem como suas características pessoais, já o segundo reforça a ideia que todos os indivíduos têm assegurado o respeito a integridade física e moral, inclusive os presos. (BRASIL, 1988).
Além dos direitos e deveres constitucionais garantidos, cabe destacar os que a Lei de Execução Penal dispõe. No artigo 40 da Lei citada reforça o artigo 5º, inciso XLIX da Constituição Federal, vez que dispões que todas as autoridades devem respeito à integridade física e moral dos condenados e dos presos provisórios. Já o artigo 41 da mesma lei, preconiza direitos mais específicos, como exemplo, a alimentação e vestuário (inciso I), atribuição de trabalho e sua remuneração (inciso II), assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa (inciso VII), dentre outros. (BRASIL, 1984).
Neste sentido, a legislação para melhor atender os direitos dos presos, segue as Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos, assim define a separação dos estabelecimentos penais para o cumprimento da pena privativa de liberdade, quais sejam: a) penitenciária, b) a colônia agrícola, industrial ou similar; c) casa do albergado; d) centro de observação; e) hospital de custódia e tratamento psiquiátrico; f) cadeia pública, essas separações são destinadas aos condenados, ao submetido a medida de segurança, ao preso provisório e ao egresso (artigo 83 da LEP). (MARCÃO, 2013).
É mister ressaltar que os estabelecimentos penais devem ter espaços destinados a dar as assistências, bem como a educação, trabalho, recreação e prática esportiva. (MARCÃO, 2013).
Ainda, neste seguimento é válido mencionar a gestão dos estabelecimentos penais, mais precisamente os órgãos que executam a pena, todos elencados no artigo 61 da Lei de Execução Penal.
Art. 61. São órgãos da execução penal:
I - o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária; II - o Juízo da Execução;
III - o Ministério Público; IV - o Conselho Penitenciário; V - os Departamentos Penitenciários; VI - o Patronato;
VII - o Conselho da Comunidade.
VIII - a Defensoria Pública. (BRASIL,1984).
Conforme exposto, a legislação prevê órgãos da execução penal, para que a administração pública (dever do Estado) dos estabelecimentos penais seja cumprida com eficiência, ou seja, para que a gestão carcerária cumpra com os dispositivos constitucionais e legais, executando fielmente os direitos e deveres garantidos aos condenados.
Porém, neste sentido, é sabido que o Brasil é um país cuja população carcerária é grande, dado alarmante visto que cresce cada vez mais, atualmente ocupa o quarto lugar no mundo como país que mais encarcera7, nos últimos setenta anos está massa cresceu 83 (oitenta e três) vezes, demonstrado por um mapeamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com o apoio do Ipea. (IPEA, 2015).
O sistema carcerário brasileiro encontra-se em estado de calamidade, estado de falência. Cumpre ressaltar que com a atual situação dos estabelecimentos penais, deixa ser cumprida a finalidade da pena8.
Neste sentido, Fernandes (2000, p. 122) disserta:
A situação dos presos brasileiros é absolutamente desesperadora. O caos realmente está implante em todo nosso sistema prisional, em razão da superlotação dos estabelecimentos de cárcere e da alegada escassez de recursos financeiros, segundo diz o governo, para reaparelhar os presídios existentes e para a construção de novas penitenciárias.
As penas privativas de liberdade no atual sistema merecem destaque, vez que os estabelecimentos penais, que são meios para o cumprimento e execução destas não atendem os requisitos legais, sejam eles na gestão administrativa ou na infra- estrutura. (BITENCOURT, 2001).
[...] Durante muitos anos imperou um ambiente otimista, predominando a firme convicção de que a prisão poderia ser meio idôneo para realizar todas as finalidades da pena e que, dentro de certas condições, seria possível reabilitar o delinquente. Esse otimismo inicial desapareceu e atualmente predomina certa atitude pessimista, que já não tem muitas esperanças sobre os resultados que se possam conseguir com a prisão tradicional. A crítica tem sido tão persistente que se pode afirmar, sem exagero, que a prisão está em crise. Essa crise abrange também o objetivo ressocializador da pena privativa de liberdade, [...]. (BITENCOURT, 2001, p. 154).
Conforme expõe os autores acima, é evidente que nos estabelecimentos penais não são assegurados os direitos e deveres dos apenados, visto que o Estado como principal garantidor não consegue apresentar melhorias, dentro e fora das prisões, uma vez que deixa de cumprir com um dos principais objetivos da LEP, qual seja a ressocialização do preso.
Segundo Bitencourt (2001, p. 157), a crise na prisão pode se dar por dois fatores iniciais, o primeiro deles estaria ligado ao pouco caso que a sociedade faz perante o tema,
7 Segundo dados do International Centre for Prison Studies (ICPS), o Brasil fica atrás apenas dos Estados
Unidos, da China e da Rússia. (IPEA, 2015, p. 10).
8 “[...] O fim da pena, pois, é apenas o de impedir que o réu cause novos danos aos seus concidadãos e demover
principalmente os governantes, que passam despercebidos ao caos, ou seja, os problemas penitenciários, o segundo fator, está relacionado as deficiências dos cárceres, ou seja, as razões que causam a crise, estariam correlacionadas aos “maus-tratos verbais ou de fato, a superlotação, a falta de higiene, condições deficientes de trabalho, deficiência das assistências, a ociosidade, dentre outros”. E nos dizeres do autor “[...] pelos efeitos negativos sobre a pessoa do condenado”.
Oliveira (2002, p. 63) elucida de forma reduzida e real, os maiores problemas verificados no sistema penitenciário brasileiro: “o crime organizado, a corrupção, a superlotação, a ociosidade e a baixa inteligência na administração dos estabelecimentos prisionais”.
Ademais, “considera-se que a prisão, ao invés de frear a delinquência, parece estimulá-la, convertendo-se em instrumento que oportuniza toda espécie de desumanidade. Não traz nenhum benefício ao apenado. [...]”. Drakpkin (1997, p. 347-348 apud, BITENCOURT, 2001, p. 157).
Nessa esteira, é visível que as prisões são locais de incentivo a criminalidade, pois como visto anteriormente não atendem os requisitos mínimos para condições humanas, assim o efeito, na maioria das vezes, é contrário, em que o delinquente ao ser reinserido na sociedade, volta mais violento e revoltado. Uma demonstração de que o sistema prisional brasileiro não funciona, são os autos índices de reincidência. (REIS, 2015). De acordo com Fernandes (2000, p. 124):
O crescimento da população prisional no brasil, a demanda de vagas, embora muitos presídios tenham sido construídos, é binômio indisfarçável da crise existente no sistema. A violência e o crime grassam assustadoramente no cotidiano, a inadequação do regime de cumprimento de penas é algo que salta aos olhos, tudo isso e, muito mais, é o atestado inconteste da crise no sistema penitenciário brasileiro.
Assim, como o parágrafo acima exposto, a crise no sistema prisional deveria ser um tema mais estudado, visto que quando os apenados reinseridos na sociedade muitas vezes voltam piores do que entraram, portanto quando o Estado deixa de cumprir com seus deveres, submete a sociedade a um estado de vulnerabilidade. A falta de compromisso do poder público demonstra o total fracasso do atual sistema.
Fica evidente que o Estado, não consegue cumprir sua função com total eficácia. Desta forma, o artigo 4º da Lei de Execução Penal, dispõe que “O Estado deverá recorrer à cooperação da comunidade nas atividades de execução da pena e da medida de segurança”.
Portanto é valido ressaltar que o Estado não cumprindo com seu dever com eficiência, poderá recorrer aos meios alternativos para que o auxilie na gestão da administração pública em relação à execução da pena.
Neste aspecto, tem-se visto que o atual sistema é um assunto polêmico, pois é um foco de numerosos problemas, os quais por consequência recaem sobre a sociedade, a superlotação é um deles, assim surgem sugestões para que a gestão das prisões sejam reaparelhadas, ou seja, para que os problemas sejam solucionados, dentre essas propostas surgem as privatizações. (REIS, 1995).
Usando como premissa o artigo supracitado, vemos que há necessidade da possibilidade de delegar aos particulares a gestão dos estabelecimentos penais, para que o apenado tenha uma melhor qualidade nas assistências prestadas e por consequência a ressocialização.
5.1 MODALIDADES DE GERENCIAMENTO E A POSSIBILIDADE DE SUA