A TEMÁTICA
2.1 PROBLEMA E OBJETIVOS DA PESQUISA
Ver não é apenas perceber um objeto, mas fundamentalmente interpretá-lo. O universo da percepção é um feixe de interpretação. Essa dialética entre perceber e interpretar é que potencializa o pensamento, a linguagem, a criatividade e a inteligência humana, lançando a pessoa na direção do conhecimento e facultando-lhe a permanência no conhecido como forma de iluminação daquilo que não podia ser visto. O que se conhece é somente aquilo que se traz à luz, e só o que se pode trazer à luz possibilita criar e recriar o mundo, a natureza e a si próprio. (GHEDIN e FRANCO, 2008, p.74).
30 A opção por não restringir nossa pesquisa apenas aos periódicos nacionais é fruto da percepção de que
também os internacionais são importantes veículos de divulgação de pesquisas realizadas em nosso país (e de parcerias de pesquisadores brasileiros com os de outros países). É fruto também da reflexão a respeito da importância de ampliarmos nossos entendimentos da EJA, por meio da inclusão em nossa seleção de pesquisas realizadas fora do Brasil, e por fim, das próprias dificuldades constatadas em classificar com exatidão os periódicos como nacionais ou internacionais, visto que o espaço da internet vêm acentuando esta dificuldade por derrubar algumas antigas delimitações, tais como a área de abrangência e local de produção destes periódicos.
Como analisamos no capítulo anterior, a história da EJA nos mostra uma sucessão de omissões políticas que resultaram no afastamento de uma imensa quantidade de brasileiros das escolas, relegando-lhes o pertencimento a uma parcela social à margem da educação e das possibilidades de melhoria de vida que esta poderia lhes proporcionar. Nos últimos anos, no intuito de minimizar essa dívida histórica, diversos projetos desenvolvidos nas diferentes esferas de poder têm sido implementados, mas ainda não conseguiram lograr o fato de acabar de vez com os alarmantes índices de analfabetismo no país, ou pelo menos reduzi-los a ponto de poderem ser considerados como residuais.
Destacamos que, em nosso estudo, utilizaremos o conceito amplo de alfabetização na perspectiva do educando, proposto por Dellazzana, et. al (2008), que envolve o desenvolvimento das habilidades relativas às possibilidades de ler, escrever e compreender a língua nacional, dominar símbolos e operações matemáticas, conhecimentos básicos de ciências sociais e naturais e ter acesso aos meios de produção cultural. Dessa forma, ao citarmos alfabetização, estaremos nos referindo também à alfabetização matemática, que, de acordo com o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF), pode ser entendida como a capacidade de as pessoas mobilizarem seus conhecimentos para associar a quantificação, ordenação, orientação e também suas relações, operações e representações, aplicados à resolução de problemas similares àqueles com os quais elas se deparam cotidianamente (SOUZA e FONSECA, 2008).
De uma forma geral, os projetos educacionais pretendem, pelo menos em suas descrições teóricas, além de proporcionar a alfabetização, promover uma educação de caráter permanente e direcionada para as especificidades dos jovens, adultos e idosos que retornam aos bancos escolares trazendo na bagagem seus desejos e receios.
No conjunto de estudos estimulados a partir desses vários projetos, encontra-se o da Educação Matemática, que, sob diferentes enfoques e análises, vê-se diante da necessidade de encontrar caminhos e respostas para enfrentar as desafiadoras práticas pedagógicas que envolvem a EJA. Por isso, consideramos que seja necessária a ampliação dos espaços de diálogo sobre
o tema, assim como a propagação das pesquisas desenvolvidas nas academias... enfim, devido à percepção da atualidade, relevância e até certo ponto, urgência, que envolve o imbricamento entre a Educação Matemática e a EJA, optamos por tê-lo como foco central de nossa pesquisa.
A opção por trabalharmos com a produção que envolve a Educação Matemática voltada para a EJA, publicada no período de 2000 a 2010, em periódicos que façam parte da Listagem Qualis (CAPES-MEC), foi feita em função de buscar privilegiar a produção teórica que, por sua natureza, foi legitimada por bancas compostas por especialistas pertencentes aos quadros de avaliadores dos periódicos e que acabam por representar uma ampla e confiável fonte de dados a respeito do andamento e das conclusões de pesquisas, e por muitas vezes, do caráter inconcluso da relação ensino/aprendizagem, que, por suas especificidades e sua polissemia, requerem dos pesquisadores uma ampla visão e cobertura sobre os fenômenos e diversas vozes que a envolvem.
Embora reconheçamos que a pretensão de elaborar um estudo do tipo Estado da Arte é um grande desafio a ser desenvolvido solitariamente, fomos movidos a enfrentá-lo pela percepção da necessidade de verificar em que ponto nos encontramos hoje e poder contribuir para o avanço das pesquisas na área de Educação Matemática e EJA. Do ponto de vista da relevância social e acadêmica, buscamos em nosso estudo a construção de material que possa referenciar discussões sobre o tema, reflexões e também o redimensionamento teórico-prático de projetos políticos pedagógicos relacionados à EJA e, em especial, à área de Matemática.
Tendo em vista essas e outras considerações, desenvolvemos nosso estudo no modelo de Estado da Arte, apresentando análises das publicações em periódicos constantes da listagem Qualis do MEC, na área de Ensino de Ciências e Matemática31, no período de 2000 a 2010, relacionados à
31 De acordo com a SBEM, a Área de Ensino de Ciências e Matemática foi criada na CAPES em
setembro de 2000, denominada também de Área 46. Desde então, foi sendo consolidada com o apoio das sociedades científicas de pesquisadores das áreas de Matemática, Física, Química, Biologia, Geologia, Saúde, Educação, Filosofia, Psicologia e áreas afins (SBEM, 2011). A Portaria da CAPES de número 83 de 06 de junho de 2011 indicou a extinção dessa área, que passou desde então a compor uma nova área denominada de “Ensino”, que abrange todas as áreas de ensino, dos diversos campos de conhecimento. Este fato vem sendo duramente criticado por pesquisadores associados à extinta Área 46 (VILLANI e
Educação Matemática voltada para a EJA, na busca a responder a seguinte questão inicial: O que tem sido produzido e publicado sobre a Educação Matemática orientada para a Educação de Jovens e Adultos?
O sentimento que nos moveu a optar por um trabalho do tipo Estado da Arte, foi o de buscar conhecer o já construído sobre Educação Matemática para, a partir desse conhecimento, analisar possíveis pontos de convergência e divergência, lacunas, consequências sociais e políticas, contribuições, divergências, generalizações e perspectivas para os futuros tempos.