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A TEMÁTICA

1.2 SOBRE QUAL EJA IREMOS FOCAR E SUAS FUNÇÕES

Em nossa pesquisa focaremos a Educação de Jovens e Adultos, com especial atenção para a área de Matemática, direcionada aos estudantes do ensino fundamental e médio. São os jovens e adultos destacados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN n.9394/96), também conhecida como Lei Darci Ribeiro.

Art. 4º O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de:

I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;

(...)

VII - oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola; (...) (BRASIL, 1996).

Klinke e Antunes (2008) destacam que essa lei, de certa forma, institucionaliza a ideia de que a EJA é uma escolarização imprópria, uma vez que concebe uma idade própria para se escolarizar na educação básica. O significado “idade própria” é no mínimo inadequado, pois pode ser interpretado como se existisse uma inconveniência na escolarização de jovens e adultos, e legitimar a existência de grupos sociais diferentes na sociedade que devem ser tratados de modos diferentes no ambiente escolar.

Em nossa pesquisa, consideramos como “jovens” o conceito utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO (2004), como sendo um período da vida em que as pessoas passam da infância à condição de adulto e, “durante o qual se produzem importantes mudanças biológicas, psicológicas, sociais e culturais, que variam segundo as sociedades, as culturas, as etnias, as classes sociais e o gênero” (p.23). Em nossos dias os jovens1experimentam o que é denominado como um “processo

de adultização” (ibid., 2004) acelerado, pois precisam estar preparados para um projeto globalizante, em diversas áreas, com destaque para a econômica, o que em geral lhes causa dificuldades de incorporação no mercado de trabalho quando não possui grau de instrução adequado à sua idade.

Embora a LDB de 1996 tenha reduzido para 15 anos a idade mínima para a conclusão do ensino fundamental e de 18 anos para a do ensino

1 Consideramos que a utilização do termo no plural - jovens - seja uma forma de indicar os significados e

características distintas que essas pessoas provenientes de diferentes instâncias geográficas e diferentes extratos socioeconômicos apresentam. Mas, talvez possamos destacar elementos comuns a todos, pois de acordo com a UNESCO (2004), existem, pelo menos, cinco elementos cruciais para a definição da condição juvenil em termos ideais: “i) a obtenção da condição adulta, como uma meta; ii) a emancipação e a autonomia, como trajetória; iii) a construção de uma identidade própria, como questão central; iv) as relações entre gerações, como marco básico para atingir tais propósitos; e v) as relações entre jovens para modelar identidades, ou seja, a interação entre pares como processo de socialização. A expectativa de usufruir a condição adulta, garantindo oportunidades de autodesenvolvimento, constitui meta social básica, processando da melhor maneira possível esse trânsito entre a infância e a condição adulta que todo jovem deve fazer”. (p.26).

médio2, não apresentou a idade mínima necessária para o ingresso em cursos oferecidos na modalidade EJA, o que foi feito posteriormente por pareceres do Conselho Nacional de Educação3.

Podemos então, diante do exposto, delimitar a EJA de que trataremos nessa pesquisa como sendo um modelo educacional direcionado para o jovem, adulto e também para o idoso, que pretende dar garantias de um direito que lhes foi negado anteriormente: a escolaridade básica. Essa EJA de que trataremos é também apresentada nas palavras de Fonseca (2007):

Estamos falando de uma ação educativa dirigida a um sujeito de escolarização básica incompleta ou jamais iniciada e que acorre aos bancos escolares na idade adulta ou na juventude. A interrupção ou o impedimento de sua trajetória escolar não lhe ocorre, porém, apenas como um episódio isolado de não-acesso a um serviço, mas num contexto mais amplo, de exclusão social e cultural, e que, em grande medida, condicionará também as possibilidades de reinclusão que se forjarão nessa nova (ou primeira) oportunidade de escolarização. (p. 15).

Consideramos que, embora a nomenclatura “Educação de Jovens e Adultos” possa nos remeter a uma gama de estudantes “selecionados” por sua idade, na realidade, será de uma forma geral a sua caracterização sociocultural, sua história de exclusão e de falta de oportunidades anteriores, que servirão de “corte” para a entrada nessa modalidade.

A permanência desses estudantes nessa modalidade de ensino é, muitas vezes, marcada por grandes tensões, acusadas nas pesquisas desenvolvidas por Haddad (2000), tais como o dilema vivenciado pela EJA de pretender oferecer a escolarização básica e ao mesmo tempo levantar expectativas de mudanças no cotidiano de seus alunos, em especial na questão profissional, que não dependem apenas da escola. Os estudantes de EJA ouvidos pelo pesquisador relataram sua percepção da importância da escola para sua ascensão social e econômica, porém indicaram perceber certo distanciamento entre os conhecimentos transmitidos por ela e a sua vivência

2 Antes vigorava a Lei 5692 (BRASIL, 1971) que considerava como idade mínima para a conclusão do

ensino supletivo era de 18 anos para o ensino de 10 grau e de 21 anos para o ensino de 20 grau (essas

nomenclaturas foram substituídas por Ensino Fundamental e Ensino Médio, respectivamente).

3Atualmente em vigor, a resolução CNE/CEB no3 de 15 de junho de 2010 (BRASIL, 2010b), considera a

idade mínima para os cursos de EJA e para a realização de exames de conclusão de EJA do Ensino Fundamental a de 15 anos (completos). Para o Ensino Médio, a idade mínima para matrícula em cursos de EJA e realização de exames de conclusão é de 18 anos (completos).

cotidiana. Haddad destaca o problema de uma trajetória histórica da EJA que a desvia de seus objetivos maiores, “quando esta passa a ser uma simples repassadora de certificados de conclusão de níveis de ensino” (p.49), quando na realidade deveria desenvolver outras funções tidas como básicas e fundamentais.

De acordo com Cury4 (BRASIL, 2000), uma das funções básicas da EJA

é a Função Reparadora, que consiste em proporcionar a todos o acesso a uma plena cidadania por meio da restauração de um direito ontológico que anteriormente lhes fora negado: o direito a uma escola de qualidade. Porém, ressalta que

O término de uma discriminação não é tarefa exclusiva da educação escolar. (...) Contudo, dentro de seus limites, a educação escolar possibilita um espaço democrático de conhecimento e de postura tendente a assinalar um projeto de sociedade menos desigual. (ibid., p.234).

Outra função da EJA, que deve se apresentar de forma articulada com a anterior, é a Função Equalizadora, que significa a busca pelo direito fundamental de igualdades perante a lei, posta em prática por meio de atos que signifiquem igualdade de oportunidades e formas de dar cobertura para todos os brasileiros que não tiveram uma adequada correlação idade/ano escolar - o direito básico à educação; afinal, sabemos que educação trata-se de um “direito de todos e dever do Estado” (BRASIL, 1988).

A equidade é a forma pela qual se distribuem os bens sociais de modo a garantir uma redistribuição e alocação em vista de mais igualdade, consideradas as situações específicas. (...) Neste sentido, os desfavorecidos frente ao acesso e permanência na escola devem receber proporcionalmente maiores oportunidades que outros. Por esta função, o indivíduo que teve sustada sua formação, qualquer tenha sido a razão, busca restabelecer sua trajetória escolar de modo a readquirir a oportunidade de um ponto igualitário no jogo conflitual da sociedade. (BRASIL, 2000, p.236).

Para analisarmos o entendimento de equidade e justiça, recorreremos àquele que é considerado como um dos grandes criadores das bases fundamentais do pensamento humano, Aristóteles. Encontramos em seu

4 Carlos Roberto Jamil Cury foi o parecerista do documento 11/2000 do CNE/CEB, aprovado em

trabalho “Ética a Nicômaco”5 dois sentidos de justiça: i) o justo pelo respeito à

lei, e ii) o justo por respeito à igualdade. Para Aristóteles, a equidade é a correção da lei quando ela se apresenta de forma deficiente em razão de sua universalidade, de forma a adaptá-la aos casos particulares, dando a cada um o que lhe é devido, de modo a promover sua dignidade humana. Para Bobbio (2004), o reconhecimento dessa promoção (e proteção) da dignidade humana e o reconhecimento de seus direitos são a própria base das constituições democráticas.

Na continuação das análises das funções básicas da EJA, destacamos que segundo Cury (BRASIL, 2000), além das duas funções anteriormente elencadas, existe ainda a que visa propiciar aos estudantes da EJA uma atualização constante de conhecimentos. É a denominada Função Permanente ou Função Qualificadora. Para Cury, ela é o próprio sentido da EJA.

Ela tem como base o caráter incompleto do ser humano cujo potencial de desenvolvimento e de adequação pode se atualizar em quadros escolares ou não escolares. Mais do que nunca, ela é um apelo para a educação permanente e criação de uma sociedade educada para o universalismo, a solidariedade, a igualdade e a diversidade. (Ibid., p.228).

O sentido da palavra “qualificadora” nesse caso não deve ser tomado como uma qualificação profissional, em nível técnico, mas a possibilidade de o ser humano descobrir campos de atuação como realização de si. Nesse sentido, caberia à EJA a criação de oportunidades para a emergência de um artista, de um intelectual ou da descoberta de uma vocação pessoal.

A função qualificadora pode proporcionar ao estudante uma série de conhecimentos (ou autoconhecimentos), que poderiam ter sido abandonados ou mantidos adormecidos, devido à vivência em uma sociedade na qual as necessidades básicas relativas à sobrevivência acabam se sobrepondo fortemente a outras necessidades tão importantes ao ser humano, tais como a igualdade e a liberdade.

Ao se propor que a EJA ofereça de forma indissociável as funções de reparação, equalização e qualificação, pretende-se que sejam oferecidos a cada estudante dessa modalidade educacional, espaços de capacitação para

um novo mundo, reconhecendo e valorizando as experiências socioculturais trazidas por eles6.

1.3 UMA RESTROSPECTIVA DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE