PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
CAPÍTULO 2 – A Adaptação Psicossocial na Adolescência
2.3. Problemas de Adaptação Psicossocial e o Abandono Escolar
Como foi mencionado no capítulo anterior, os adolescentes que abandonam o ensino ou estão em risco de fazê-lo apresentam determinadas características individuais, familiares e escolares que afetam o seu desenvolvimento e delimitam a sua adaptação psicossocial.
Segundo Brito (1992, cit. por Oliveira, 2009), cabe à escola proporcionar ao aluno um desenvolvimento, global e equilibrado, dos aspetos intelectual, socioeducativo, psicomotor e cultural,
permitindo, assim, uma plena integração na comunidade. Além disso, a trajetória desenvolvimental do indivíduo e a sua história precoce, incluindo as suas experiências escolares, vão influenciar o seu desenvolvimento psicossocial.
De acordo com Stevanato, Loureiro, Linhares e Marturano (2003), quando os alunos atribuem o seu fracasso escolar à incompetência pessoal, geralmente, manifestam sentimentos de vergonha, dúvidas sobre si próprio, baixa autoestima e desinteresse pela aprendizagem, desencadeando, assim, problemas emocionais e comportamentais.
Por outro lado, quando estes atribuem o seu fracasso escolar à escola apresentam sentimentos de raiva e desinteresse pela escola, expressando hostilidade face aos outros (Stevanato et al., 2003). Em consequência, estes sentimentos associados ao insucesso escolar podem, facilmente, levar o aluno a sair precocemente da escola. Assim, para estes alunos, o abandono escolar surge como o caminho mais fácil (Amado & Freire, 2002, cit. por Melo, 2008).
No estudo conduzido por Bandeira e colegas (2006), os dados mostraram que os alunos que apresentam um maior sucesso escolar têm menos problemas de comportamento, enquanto os adolescentes que manifestam mais problemas de comportamento têm um mau desempenho académico.
De acordo com Marturano e Loureiro (2003, cit. por Bandeira et al., 2006), os problemas de comportamento levam aos problemas de aprendizagem em crianças, devido aos défices na atenção, memória e humor. Nesta situação, os jovens tenderão a manifestar problemas de internalização. Por outro lado, quando os problemas de aprendizagem contribuem para a ocorrência de problemas de comportamento, as crianças tenderão a apresentar problemas de externalização.
A evidência indica que os problemas de atenção estão correlacionados positivamente com os problemas de comportamento (Bandeira et al., 2006; D’Abreu & Marturano, 2010). Além disso, outros estudos mostram que os problemas de atenção influenciam diretamente o desempenho académico durante a adolescência (D’Abreu & Marturano, 2010; Hofstra et al., 2001; Projeto “Integrar Para Educar”, 2006). Os autores verificaram que os problemas de atenção, na ausência de problemas de comportamento, estão associados a um maior risco de fracasso escolar, constituindo-se assim um forte preditor.
Os problemas de comportamento só potenciam o fracasso escolar, e consequente abandono escolar, quando estão associados aos problemas de atenção (D’Abreu & Marturano, 2010). Assim, na opinião dos autores, os problemas de comportamento não têm influência direta no desempenho académico dos adolescentes.
No que diz respeito aos problemas de externalização, alguns estudos sugerem que os adolescentes que apresentam comportamentos antissociais, delinquência e uso frequente e/ou abuso
de álcool e drogas, têm uma maior probabilidade de insucesso ou abandono escolar (Aloise-Young & Chavez, 2002; Perkins & Borden, 2003; Sweeten et al., 2009). Por outro lado, outros estudos mostraram que o insucesso e o abandono escolar pode levar à ocorrência de problemas de externalização, nomeadamente, os comportamentos antissociais, a delinquência e o uso e/ou abuso de álcool e drogas na adolescência (Herrenkohl et al., 2000; Jimerson, 1999;Perkins & Borden, 2003).
Relativamente aos problemas de internalização, nomeadamente, o isolamento, os adolescentes que abandonam o ensino sentem-se mais isolados do seu ambiente escolar, dos seus pares e dos seus professores, acabando por relacionarem-se, preferencialmente, com outros jovens de perfil similar e onde apresentam, no geral, dificuldades de integração na rede social escolar (Lagana, 2004). Outros estudos mostraram que os adolescentes com baixos rendimentos académicos reportam mais depressão (Deković, 1999).
Outra investigação, com adolescentes portugueses, revelou associações significativas entre a ansiedade e depressão e os rendimentos escolares (Crisóstomo & Matos, 2008). Segundo os autores, os adolescentes com melhores notas e maior facilidade de aprendizagem, sobretudo as raparigas, apresentam níveis elevados de ansiedade e depressão.
Além disso, o fracasso escolar persistente associado a outros fatores de risco presentes no meio familiar e social pode ter um impacto negativo no desenvolvimento do menor e na sua adaptação às fases subsequentes. Como foi referido no primeiro capítulo, algumas características familiares, nomeadamente, a estrutura familiar, o envolvimento e apoio parental na vida escolar dos filhos e o nível socioeconómico, podem influenciar o desempenho e o percurso escolar dos adolescentes.
No que diz respeito à estrutura familiar, Størksen e colegas (2006) verificaram que os problemas escolares são mais acentuados em adolescentes com pais divorciados, cujo apoio parental nas tarefas escolares é extremamente menor. Assim, o baixo rendimento escolar e os problemas de comportamento, nomeadamente, a delinquência e os comportamentos desviantes, têm sido constantemente associados à ausência da figura paterna no meio familiar (Simons et al., 1999).
Além disso, a falta de envolvimento parental nas tarefas escolares, como ajudar nos trabalhos de casa e participar em atividades escolares, tem sido associada aos problemas de comportamento (Gerard & Buehler, 1999). Segundo os autores um fraco envolvimento parental pode incentivar o mau comportamento na sala de aula e contribuir para a ausência de relações entre pais e professores, acabando por potenciar os problemas de comportamento.
No entanto, Hoffmann e Dufur (2008) verificaram que a qualidade do ambiente escolar pode compensar a falta de envolvimento parental nas tarefas escolares, sobretudo em menores que têm um menor rendimento académico ou uma menor valorização escolar, como também, atenuar o progresso de comportamentos delinquentes dos mesmos.
As famílias com baixos níveis socioeconómicos apresentam, frequentemente, um menor envolvimento e apoio parental nas atividades escolares dos filhos. Por exemplo, Ferreira e Marturano (2002) verificaram que os menores que provêm de meios socioeconómicos mais baixos apresentam mais problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem, dada à menor exposição a fatores promotores de um desenvolvimento psicossocial saudável, destacando, como exemplos, o envolvimento e suporte parental. Segundo Feitosa e colaboradores (2005), estes jovens têm piores oportunidades de desenvolvimento físico, emocional e intelectual devido a piores condições físicas e sociais na estimulação das suas capacidades.
Para além da falta de envolvimento e de apoio parental nas tarefas escolares, Feitosa e colegas (2005) referem que as crianças de meios socioeconómicos desfavorecidos estão sujeitas a outras condições ambientais ainda mais restritas para o sucesso académico, nomeadamente, a falta de espaço e a ausência de rotinas que possibilitam o estudo e a realização dos trabalhos de casa.
Na opinião de Fonseca (1995, cit. por Feitosa et al., 2005), a prevalência de problemas de aprendizagem e de insucesso escolar em crianças provenientes de meios socioeconómicos desfavorecidos gera um ciclo vicioso entre as dificuldades de aprendizagem e a inadaptação à escola, acabando por levar à ocorrência de problemas de adaptação durante a adolescência. Assim, os adolescentes de famílias desfavorecidas têm menos recursos que possibilitam um percurso académico bem-sucedido e, consequentemente, as dificuldades económicas associadas ao fracasso escolar levam aos problemas de comportamento (Gerard & Buehler, 1999).
Num estudo com adolescentes portugueses, realizado por Feitosa e colaboradores (2005), o sucesso académico e o desempenho social destes jovens estavam relacionados com as condições socio-emocionais (i.e., suporte social) e materiais (i.e., nível socioeconómico), como também apresentavam correlações negativas com as dificuldades de aprendizagem e os problemas de comportamento. Por outras palavras, as carências no suporte social associadas à pobreza socioeconómica afetam não só o desempenho académico e social do menor, como ainda, potenciam os problemas de adaptação psicossocial.
Assim, o impacto do nível socioeconómico familiar no sucesso académico, nos percursos escolares e nos problemas de comportamento dos adolescentes, é evidente. Em geral, estudos têm demonstrado que os adolescentes de meios socioeconómicos inferiores apresentam um maior insucesso escolar e, consequentemente, mais problemas de comportamento (D’Abreu & Marturano, 2010; Feitosa et al., 2005; Fergusson & Woodward, 2000; Ferreira & Marturano, 2002; Gerard & Buehler, 1999).
Além disso, o nível socioeconómico, como também, os problemas de comportamento e o envolvimento parental, são preditores do abandono escolar em adolescentes (Jimerson et al., 2000).
Aliás, os autores verificaram que os problemas de comportamento, no 6º ano de escolaridade, foi o melhor preditor de abandono escolar.
De modo semelhante, Fergusson e Woodward (2000), num estudo longitudinal, evidenciaram que as raparigas que apresentavam problemas de comportamento aos 13 anos, posteriormente, na adolescência tardia (i.e., aos 18 anos), tinham um menor rendimento académico, comparativamente às raparigas sem problemas de comportamento. Segundo os autores, a maioria provinha de meios caracterizados por múltiplas desvantagens sociais, familiares e individuais, sendo estes os fatores que estão associados aos problemas de comportamento. Além disso, os investigadores evidenciaram que a maioria, aos 18 anos, tinha abandonado a escola.
Segundo Sweeten e colaboradores (2009), os adolescentes que abandonam o ensino estão mais propensos a envolverem-se em comportamentos delinquentes e criminais. Os adolescentes que abandonaram a escola têm uma longa história de dificuldades escolares e de comportamento antissocial. No entanto, os autores verificaram que os rapazes que abandonaram o ensino por razões económicas, com a expectativa de arranjar um emprego e assegurar uma maior autonomia, apresentam menos comportamentos delinquentes e criminais.
No entanto, Santos (2011), numa amostra com alunos de turmas PIEF, verificou que as retenções escolares (indicador de insucesso escolar) não estavam associadas aos problemas de externalização nem de internalização. Além disso, a autora constatou que os índices de problemas de comportamento geral, como também, os de adaptação interna e externa, eram relativamente semelhantes aos da população geral.
De modo geral, os problemas de adaptação geral têm sido frequentemente associados ao insucesso e abandono escolar. Relativamente aos problemas de externalização, estudos transversais e longitudinais têm demonstrado que os comportamentos antissociais e delinquentes na adolescência estão positivamente associados ao mau desempenho escolar (Farrington, 2005; Herrenkohl et al., 2000), ao insucesso escolar, como a retenção ou o abandono escolar (Farrington, 2004; Herrenkohl et al., 2000; Jimerson, 1999; Perkins & Borden, 2003; Projeto “Integrar Para Educar”, 2006; Sweeten et al., 2009), às baixas expectativas e aspirações educacionais (Herrenkohl et al., 2000; Perkins & Borden, 2003) e à inadaptação escolar (Jiménez et al., 2009).
No que diz respeito aos problemas de internalização, estudos têm demonstrado que o rendimento escolar está relacionado com a depressão (Crisóstomo & Matos, 2008; Graber, 2004), o isolamento (Lagana, 2004) e a ansiedade (Crisóstomo & Matos, 2008).