47 Os principais resultados estão apresentados nos itens a seguir: (a) Problemas de adequação do material e baixa qualidade; (b) Adaptação espacial (reformas); (c) Conforto térmico interno;
(d) adaptação comportamental; (e) Pobreza de energia.
48 o Ferro nas esquadrias – pode ser inadequado para o clima úmido, pois, com a umidade do local e o contato com a chuva, as esquadrias enferrujam e o uso é impossibilitado18 (Figura 13 – a, b);
o Porta semi-oca com laminado de madeira – o material não é resistente, quebram facilmente e não proporcionam segurança (Figura 13 - c);
o Ferro e vidro nas esquadrias – pode ser um material inadequado para o clima, com a oxidação o fechamento e abertura da janela é impossibilitado, com o agravamento de comprometer a sustentação do vidro (Figura 13 - d). Além de perder a funcionalidade da esquadria, a perda do fechamento transparente compromete a segurança da unidade habitacional e traz riscos aos usuários (acidentes e perda da privacidade).
No geral, a melhor opção observada em campo foi utilizada em TNV1, com uso de janelas (de giro) de madeira e bandeira em vidro e, portas de madeira.
"Troquei as portas porque eram de lata (ferro)". (Morador)
“As portas estavam todas fofas (madeira). Ali atrás só tinha a armação (janelas de ferro e vidro), os vidros caíram, por isso coloquei aquela (alumínio e vidro)”. (Morador)
“Essa porta daqui uns dias vai ficar aberta de vez (porta da sala).
Queria trocar minhas portas, estão todas esburacadas. As outras janelas não abrem mais, estão enferrujadas”. (Morador)
“Tiraria essas janelas tudinho. Essa não corre ventilação (do tipo que corre). Colocaria madeira”. (Morador)
Diante desse cenário de esquadrias danificadas e sem funcionalidade, os dados do questionário evidenciaram que 56,4% da amostra realizou a troca de algumas esquadrias. Os resultados mostraram que a troca de esquadrias está correlacionada com o nível de vulnerabilidade econômica das famílias, uma
18Segundo a Secretaria de Habitação da Cidade, nos novos Conjuntos habitacionais não está sendo mais utilizada a esquadria de ferro, porém não há um Programa governamental ou ação destinada para manutenção dessas habitações. Os problemas decorrentes ao longo do uso são repassados para a população vulnerável.
Fonte – Autora, 2022.
Figura 13 – Baixa qualidade das esquadrias.
49 relação moderada (Correlação de Sperman S = 111.12, p<0,05 (0,034), rho 0,611) (Figura 14 - a). Ou seja, pode-se afirmar com um aumento da condição financeira da família (menor vulnerabilidade econômica) aumenta o número de casas que realizaram troca de esquadrias (Figura 14 - a).
Esquadrias externas foram priorizadas na troca, muitas trocas não são realizadas porque as expansões deixam esquadrias, antes externas, apenas com comunicação entre ambientes (Figura 14 - b). O menor número de troca observado foi no tipo TNV1, onde o material utilizado é madeira (Figura 14 - b).
Assim, o mesmo padrão de troca de esquadrias foi observado nos 4 tipos arquitetônicos, portas de madeiras e janelas de vidro e alumínio (de correr, algumas vezes, janela de madeira - giro) é a troca mais realizada (Figura 15).
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Fonte – Autora, 2022.
Figura 14 – (a) Casas que realizaram troca de esquadrias, (b) esquadrias trocadas.
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Figura 15 – Padrão de alteração das esquadrias.
Fonte – Autora, 2022.
51 2. Cobogó como janela – é utilizado nos sanitários e nas cozinhas, exceto em TNV2, onde foram utilizadas janelas basculantes, porém, em ferro. A quantidade de cobogó utilizada não favorece o aproveitamento da ventilação e da iluminação natural. Os moradores rejeitam essa solução, com ações de: fechamento do cobogó (Figura 16 - a), obstrução do cobogó com utensílios e móveis (Figura 16 - b), retirada do cobogó (Figura 17).
Quando a condição financeira permite, o cobogó é substituído por uma abertura (Figura 16 - c);
"Coloquei a janela na cozinha, por isso está com uma melhor ventilação. A janela da cozinha ajuda muito, fechei aquele negócio (cobogó), queria não". (Morador)
Na cozinha, a retirada do cobogó está relacionada com a instalação de mobiliário suspenso, o revestimento das paredes com cerâmica ou a abertura da parede estrutural para comunicar com áreas de expansão da habitação (Figura 17). No banheiro, geralmente, a linha mais baixa de cobogó é encoberta para garantir privacidade, o preenchimento é feito com argamassa ou outra solução paliativa (papel amassado, etc.), em alguns casos onde o banheiro é revestido com cerâmica a área do cobogó é substituída pela cerâmica.
Figura 16 – Cobogó como janelas.
Fonte – Autora, 2022.
Figura 17 – Retirada do cobogó.
Fonte – Autora, 2022.
52 3. Baixa qualidade do piso (cimento queimado - sem cerâmica19) – o piso apresenta problemas de rachaduras, esfarelamento e buracos que desenvolvem logo após o uso (Figura 18 – a, 20). Os moradores, quando possível, corrigem as imperfeições e aplicam piso cerâmico (Figura 18 - b). Há poucos pisos em bom estado (Figura 18 – c). Mesmo no grupo de baixa vulnerabilidade econômica, 64,0% realizaram a inserção do piso cerâmico, esse percentual diminui nos grupos mais vulneráveis, 33,3% e 21,6%, com média e alta vulnerabilidade, respectivamente (Figura 19).
"Era o piso da casa todo fofo, só quebrado, fiz o piso da casa todinha". (Morador)
“Esse piso esfarela, suja muito” (Morador)
19A falta de cerâmica não é apenas no piso, mas também nas áreas molhadas (cozinha e banheiro). No banheiro é entregue apenas um trecho insuficiente na área do banho, ou não.
Figura 18 – Piso de cimento queimado com imperfeições.
Fonte – Autora, 2022.
Figura 19 – Inserção de piso cerâmico por grupo de vulnerabilidade.
Fonte – Autora, 2022.
53 4. Material e acabamento da cobertura de baixa qualidade. O madeiramento da cobertura é de baixa qualidade, com poucos anos de uso alguns já apresentam sinais de infestação por cupim, além disso, o desalinhamento da estrutura resultou em frestas no telhado, além da entrada de insetos e materiais em suspensão (sujeira, pó), goteiras nos dias de chuva (Figura 21 – a). A coberta de todos os tipos arquitetônicos é em telha cerâmica do tipo canal. Algumas telhas apresentam fissuras. No levantamento de campo foram encontradas 11 casas (10,6% das casas sem laje) que instalaram forro, podendo ser gesso ou PVC (Figura 21 – b) até, uma estratégia de cobrimento com tecido TNT para proteger a cama do usuário do material que cai do teto (Figura 21 - c).
“Muita sujeira vem do telhado, e tem cupim”. (Morador)
"Quero colocar gesso, porque salpica demais a chuva, goteira".
(Morador)
“Se tivesse a laje seria muito melhor, porque essas telhas vazam (telha cerâmica canal)". (Morador)
Figura 20 – Desgaste do piso.
Fonte – Autora, 2022.
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5. Ausência de forro. A colocação de forro resolve a dificuldade com o material em suspensão (sujeira, pó) que entra pela coberta. Além disso, alguns moradores questionam se a instalação do forro comprometeria o conforto térmico;
"Estou em dúvida se vou colocar forro de PVC. Estou na dúvida se vai ficar mais quente". (Morador)
6. Dimensão do beiral inadequado para o clima (0,50 m). O avanço do telhado não protege adequadamente as paredes da chuva, como também as esquadrias externas, além da entrada de água na porta de acesso das unidades do pavimento superior do tipo duplex (acúmulo de água da chuva no patamar de chegada da escada no tipo T). Algumas soluções adotadas pelos moradores são: inserção de telha na área de janela (Figura 22 – a) e complemento do beiral frontal para proteção do patamar de chegada – realizado em 70,0% das unidades do pavimento superior de T (Figura 22 – b, c).
“A coberta na frente é porque a água da chuva entrava e enchia a casa, tinha que acordar de madrugada para tirar a água”.
(Morador)
Fonte – Autora, 2022.
Figura 21 – Coberta com madeiramento ruim e sem laje.
Figura 22 – Reduzido beiral e falta de impermeabilização nas paredes externas.
Fonte – Autora, 2022.
55 7. Ausência de impermeabilização nas paredes externas (sem revestimento cerâmico,
apenas pintura);
8. Ausência de muro e da definição de parcelamento no lote, com exceção do Conjunto TNV2, que foi entregue com pequena mureta (Figura 23 - a). Além do custo da construção do muro (Figura 23 – b), conflitos relacionados com a divisão das áreas não edificadas ocorrem entre os moradores. Os grupos mais vulneráveis utilizam restos de materiais, portas descartadas e materiais encontrados na reciclagem para o fechamento do lote (Figura 23 – c);
"Fazendo muro por parte, porque dinheiro ninguém tem".
(Morador)
"Eu fiz esse muro para mim, aqui é uma favela (conjunto de reabilitação de assentamento de risco) e para minha segurança".
(Morador)
9. Local inadequado e baixa qualidade do tanque de lavar-roupa. A peça se quebra rapidamente com o uso (Figura 24 – c) e, no Conjunto Timbó, a localização é inadequada - na área de passagem do morador do pavimento superior (Figura 24 – a). É comum encontrar estratégias de suporte do tanque (Figura 24 – b), ou troca por tanque mais resistente (Figura 24 – d). Além disso o espaço é descoberto e não há previsão da máquina de lavar-roupa, apesar de ser um equipamento muito presente nos lares (58,9%). Por isso, é comum a instalação do equipamento na cozinha e corredor, e nas casas acessíveis é instalada dentro do sanitário;
Figura 23 – Sem construção de muro.
Fonte – Autora, 2022.
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“O tanque é fraco demais, não forço para não quebrar". (Morador)
10. Ausência de proteção solar do reservatório superior e dificuldade de acesso para manutenção. Os moradores reclamam que os banhos são quentes (quando deveriam ser refrescantes), além da dificuldade de acesso para limpeza e manutenção (não há escada de acesso) (Figura 25 – a, b). Acentuando a dificuldade nos tipos duplex (Figura 25 – b), pela necessidade de solicitar a permissão do morador do pavimento superior para acessar o local. Por isso, 18,0% dos reservatórios foram desinstalados (no tipo geminado em fita [G] não foi possível visualizar) e colocados no piso do quintal fazendo apenas um armazenamento sem ligação direta com a casa (Figura 25 - c).
“Tinha que pedir para entrar no apartamento da vizinha (moradora do pavimento superior). Eu tirei e coloquei no chão.
Quando falta água eu pego lá. Era para cada um ter a sua separada”. (Morador)
Figura 24 – Posição e baixa qualidade do tanque de lavar roupa.
Fonte – Autora, 2022.
Figura 25 – Reservatório superior descoberto e de difícil acesso.
Fonte – Autora, 2022.
57 No geral, a qualidade dos materiais construtivos entregues à população é de baixa qualidade.
Dependendo do nível de vulnerabilidade econômica da família, a casa é mais ou menos reformada, recebe materiais de melhor qualidade, troca de esquadrias, inserção de piso cerâmico, ampliação e reforma da cobertura e expansão da unidade. As famílias em alta vulnerabilidade (pobreza extrema) não conseguem realizar as melhorias necessárias, por isso, vivem diariamente com os problemas decorrentes da inadequação dos materiais e baixa qualidade da habitação social construída em construção em série. Os grupos mais vulneráveis somam 44,9% da amostra, sendo 23,7% em extrema pobreza (alta vulnerabilidade econômica) (Figura 26).
Os resultados apontam que há diferenças estatísticas entre as medianas de 3 grupos de vulnerabilidade econômica e o número de reformas realizadas (ampliação, troca de portas, troca de janelas, inserção de piso cerâmico, construção de coberta, construção de muro, entre outros) (Kruskal-Wallis chi-squared=24.695, df=2, p-valor<0,05 (<0,001)) (Tabela 4, Figura 27 – a). O grupo que mais reformou foi o de menor vulnerabilidade econômica, e o contrário, o de baixa vulnerabilidade, o que confirma a hipótese que existem diferentes níveis de vulnerabilidade (Figura 27 – a). A Correlação de Spearman (S) evidenciou que o aumento do número de
Figura 26 – Nível de vulnerabilidade econômica das famílias entrevistadas.
Fonte – Autora, 2022.
58 reformas está relacionado com a diminuição do nível de vulnerabilidade econômica (S= 389560, p-valor<0,05 (<0,001), rho 0,384) (Tabela 4).
Observação: A1 e B1 (alta vulnerabilidade econômica), A2 e B2 (média vulnerabilidade econômica), A3 e B3 (baixa vulnerabilidade econômica). Nível de significância = 0,05 e *p-valor<0,05 - Ho é rejeitada, medianas dos
grupos são diferentes.
Resultado do teste (p-valor) – Kruskal-Wallis test, Dunn test e, Correlação de Spearman (S)
Kruskal-Wallis test Dunn test
[G+TNV1+T+TNV2]
Nível de vulnerabilidade econômica e número de reformas realizadas na habitação
chi-squared = 24.695, df=2, p-valor<0,05 (<0,001)*
A1≠A2 (p-valor <0,05 (0,002*) A1≠A3 (p-valor <0,05
(<0,001*)
A2=A3 (p-valor >0,05 (0,059) Spearman's rank correlation rho
S = 389560, p-valor<0,05 (<0,001)* rho 0,384 [G+TNV1+T+TNV2]
Nível de vulnerabilidade econômica e número de reformas desejadas na habitação
chi-squared = 6.4064, df=2, p-valor<0,05 (0,041)*
B1=B2 (p-valor >0,05 (0,252) B1=B3 (p-valor >0,05 (0,054) B2≠B3 (p-valor <0,05 (0,009*) Spearman's rank correlation rho
S = 714295, p-valor<0,05 (0,031)* rho -0,174
Fonte – Autora, 2022.
Tabela 4 – Relação do nível de vulnerabilidade econômica e reformas realizadas e desejadas na habitação.
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Figura 27 – Relação do nível de vulnerabilidade econômica familiar com o número de reformas realizadas (a) e desejadas (b).
Fonte – Autora, 2022.
60 O nível de vulnerabilidade econômica está associado à convivência com os problemas acumulados no uso da habitação.
Sobre o desejo de realizar reformas na habitação, os resultados apontam que há uma associação negativa com a redução do nível de vulnerabilidade econômica, o que pode estar associado ao grande número de reformas já realizadas pelo grupo menos vulnerável (Kruskal-Wallis chi-squared = 6.4064, df=2, p-valor <0,05 (0,041); Correlação de Spearman S = 714295, p-valor <0,05 (0,031), rho -0,173) (Figura 27 – b, Tabela 4). Apesar do grupo menos vulnerável já ter realizado muitas reformas, o desejo de reforma ainda alcançou a mesma mediana do grupo em alta vulnerável econômica (Figura 27 – b, B1=B3). A real impossibilidade de executar todas as reformas por causa da severa situação financeira de muitas famílias de baixa renda, pode ter limitado as ações apenas para os desejos mais urgentes de manutenção na moradia (Tabela 4, Figura 27 – b, B1=B3).
As evidências confirmam as duas primeiras hipóteses delineadas: 1) a existência de distintos níveis de vulnerabilidade econômica; 2) o grupo de alta vulnerabilidade econômica realizou menor quantidade de reformas, porém apresenta igual desejo no número de reformas em relação ao grupo que já muito reformou a habitação (rejeita a hipótese 3). O grupo de menor vulnerabilidade econômica foi responsável pela maior quantidade de reformas, enquanto, o outro grupo com maior vulnerabilidade econômica precisa conviver com todos os problemas decorrentes da baixa qualidade da habitação, em muitos aspectos, é uma forma de retorno à condição de risco (Figura 28).
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Figura 28 – Ciclo de pobreza – alta vulnerabilidade.
Fonte – Autora, 2022.
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