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Problemas e conflitos de usos dos recursos hídricos

Domínio Aqüífero Fraturado

2.4. Problemas e conflitos de usos dos recursos hídricos

No conjunto da Bacia, a situação de disponibilidade hídrica é confortável, atendendo aos usos múltiplos atuais e futuros da Bacia. No entanto, algumas áreas localizadas de conflitos podem ser identificadas, conforme apresentado na Figura 18. Os conflitos de grande relevância

referem-se àqueles já instalados, enquanto os de menor relevância se referem às áreas onde existem pontos que podem se traduzir em conflitos potenciais.

Corrente Paracatu Urucuia Pajeú Alto Grande Pará Verde e Jacaré Médio/Baixo Grande Salitre Verde Grande

rio das Velhas

Brígida Pacuí Curaçá Carinhanha Macururé Moxotó Pontal

Paramirim, Santo Onofre, Carnaíba de Dentro Paraopeba Jequitaí Pandeiros, Pardo e Manga Garças Margem esquerda do Lago de Sobradinho Terra Nova Entorno da represa de Três Marias Alto Ipanema Afluentes mineiros do Alto S.F. Curituba Alto Preto Baixo SF (SE) Rio de Janeiro e Formoso Talhada Baixo Ipanema Baixo SF

Conflito destacado - grande relevância Conflito com importância - menor relevância Conflito secundário - sem relevância, quando comparado aos demais Divisão Fisiográfica Divisão Estadual Hidrografia LEGENDA N 80 0 80 160 km

Figura 18. Níveis de conflitos entre usos da água na Bacia do rio São Francisco.

Como se verifica na Figura 18, salvo em áreas localizadas, os conflitos ainda são incipientes na Bacia. As principais áreas onde ocorrem conflitos de grande relevância são as sub-bacias: dos rios Paraopeba, das Velhas, Alto Preto, Alto Grande, Verde Grande, Salitre e Baixo São Francisco. De forma geral, esses conflitos envolvem a agricultura irrigada, a geração de energia (instalação das barragens e operação de reservatórios), o uso da água para o abastecimento humano, a diluição de efluentes urbanos, industriais e da mineração e a manutenção dos ecossistemas.

Na região do Alto São Francisco, nas sub-bacias do rio das Velhas e Paraopeba, os problemas identificados têm origem na mineração e na alta concentração populacional, que exercem forte pressão sobre os recursos hídricos. Nesse caso, a diluição de efluentes concorre com outros usos mais nobres, tais como abastecimento de água, piscicultura e recreação de contato primário.

Na sub-bacia do rio Verde Grande, a pressão deve-se à forte expansão da irrigação, sem planejamento e ordenamento mais adequados do uso do solo e da água. Atualmente, a área instalada com infra-estrutura de irrigação é maior do que a Bacia pode suportar. Algumas medidas, como a criação do Comitê da Bacia do rio Verde Grande e a organização do uso da

água na bacia através da campanha de cadastramento dos usuários, estão em curso para, entre outros objetivos, minimizar os conflitos na área.

A expansão da irrigação também levou a fortes impactos sobre os recursos hídricos e disputas entre usuários nos afluentes do Paracatu, na sub-bacia do Alto Preto. A mineração de ouro em Paracatu é outro fator de forte pressão sobre a qualidade de água, principalmente no que se refere ao transporte de sedimentos e assoreamento.

A expansão da ocupação do solo provocada pelo crescimento da agricultura na sub-bacia do rio Grande, no oeste da Bahia, e pelo aumento do uso da água para irrigação, coloca a região com vulnerabilidades quanto a conflitos entre usuários da água. No caso da sub-bacia do rio Salitre, além da expansão da irrigação, observa-se a limitação de disponibilidade hídrica e a baixa capacidade de diluição de efluentes em seus cursos d’água como fatores de geração de conflitos entre os usuários. Observa-se que o problema de escassez crônica de água também dificulta o abastecimento e a diluição de efluentes em grande parte da região semi-árida da Bacia.

Apesar da relevância da produção de energia na Bacia, existem conflitos entre a operação dos reservatórios e a navegação. A operação da barragem de Três Marias é determinante para a manutenção das condições de navegabilidade no trecho entre Pirapora e São Francisco. A oscilação brusca das vazões provoca a instabilidade dos bancos de areia e impede que as rotas delineadas pela sinalização apresentem a confiabilidade desejada. Entre Pirapora e Ibotirama, a navegação sofre contínuos reveses, devido ao intenso e continuado processo de assoreamento que o rio vem apresentando.

Com relação à barragem de Sobradinho, os seguintes conflitos com a navegação são evidenciados:

• No trecho superior do lago de Sobradinho, vem ocorrendo intenso processo de assoreamento formando o efeito delta, o que torna a rota imprecisa, desacreditando a sinalização indicativa do canal de navegação e promovendo freqüentes encalhes;

• Irregularidade da liberação de descargas pela barragem de Sobradinho vem provocando contratempos para a navegação no trecho entre a barragem e as cidades de Petrolina e Juazeiro (às vezes, as descargas atingem 1.100 m³/s, incompatíveis com os calados praticados pelas embarcações);

• Aproveitamentos para geração de energia, desencadeados com a construção da barragem, também modificaram as condições de escoamento no Baixo São Francisco, onde a navegação comercial praticamente desapareceu.

A construção da barragem de Sobradinho também provocou mudanças na atividade econômica no Baixo São Francisco, a qual era função das oscilações do nível do rio, entre o período de cheias e vazantes, e da coincidência com a estação chuvosa, para exploração da rizicultura e para procriação dos peixes. Mesmo com a adoção de medidas artificiais para tentar restabelecer as condições anteriores à construção do reservatório, por meio de proteção das grandes várzeas com diques e bombeamento, ora para levar água do rio para elas, ora para drená-las, a base econômica não foi restabelecida. Posteriormente, com a construção da barragem de Xingó, pela falta de carreamento de sedimentos, a situação da ictiofauna se agravou, e praticamente extinguiu a pesca como atividade econômica sustentável.

De forma geral, os conflitos apontados coincidem com aqueles explicitados durante as reuniões do GTT e das Câmaras Consultivas Regionais do CBHSF. Além desses conflitos, de natureza técnica, conflitos potenciais de ordem político-institucional foram destacados durante os Encontros de Mobilização para criação do Comitê, em 2002, e se referem à

operação de reservatórios (envolvendo a ANA e a ONS) e à multiplicidade de atribuições e competências de diversos órgãos federais com ações em recursos hídricos (ANA, ANEEL, MMA e MI).