Sérgio Pitombo (1984) já salientava há muito tempo que “costuma-se levantar conhecida objeção aos pareceres periciais criminológicos”. Ele observa que os críticos dos laudos e pareceres criminológicos apontam que “inexistem equipes interdisciplinares disponíveis; não há estabelecimentos próprios; nem aparelhamento para afeiçoá-los em muitas comarcas”, porém todos eles costumam “queixar-se da correção difícil
do sentenciado e da reincidência potencial ou atual, deslembrados de que a questão acha-se na concreta individualização executória”.
Conforme observado, é muito fácil criticar e reclamar do que não vem dando o resultado desejado. No entanto, críticas vazias e de cunho puramente ideológicas não podem simplesmente serem aceitas sem refutação. Quanto às objeções levantadas contra o exame criminológico, Alvino de Sá (2010, p. 197) salienta para a inconsistência de algumas delas, pois, segundo ele, possuem cunho predominantemente “ideológico’ e não se fundam em “substrato técnico”. Ele considera que algumas criticas contra o exame criminológico não passam de “chavões”, que por serem repetidos continuamente tornam-se “verdades”. Dentre elas, Alvino de Sá destaca que são precárias as afirmações de que:
“o exame criminológico é marcado por subjetivismo, é um tiro no escuro, não tem validade, não é confiável, pois, não existe bola de cristal que nos possibilite adivinhar o futuro” (2010, p. 197);
“o exame parte de um pressuposto positivista, de uma concepção ontológica de crime e de uma relação intrínseca entre o condenado e o crime” (2010, p. 199);
“é um absurdo pretender-se avaliar a periculosidade de alguém” (2010, p. 200);
“o exame criminológico é uma invasão à privacidade e intimidade do outro”
(2010, p. 200).
Ao refutar as críticas quanto à alegada “subjetividade” do exame criminológico, Alvino de Sá (2010, p. 198) observa que afirmar que o mesmo “é imprestável, por seu caráter de subjetivismo, devendo a decisão judicial pautar-se unicamente nos chamados critérios objetivos, ou seja, o lapso temporal e a conduta carcerária, é querer enxergar a objetividade e segurança onde elas também não existem”. Ele critica os critérios objetivos definidos na LEP, pois em sua visão a avaliação da conduta prisional como boa e o lapso temporal não são garantias de que o apenado está preparado para a progressão. Para ele, não há explicação cientifica para se adotar um sexto da pena como o lapso temporal necessário para se conceder a progressão de regime, e pergunta: “e por que não um quarto? E porque não um décimo? Existe garantia de que, com um sexto, o apenado está preparado para a promoção?” (SÁ, 2010, p. 198)
A respeito da avaliação de conduta, Alvino de Sá (2010, p. 198) considera que afirmar que determinado preso tem boa conduta significa apenas dizer que este condenado não infringiu nenhuma norma do regulamento, de acordo com as informações do Diretor do estabelecimento penitenciário. Ele observa que os presos conhecidos como
“cadeeiros” e que exercem liderança sobre os demais não são costumeiramente punidos por faltas disciplinares. Estes presos exercem uma forma de comando paralelo sobre parte “mais frágil” da massa carcerária e os obrigam a praticar crimes e/ou a assumir a responsabilidade pelas faltas disciplinares. Desse modo, quando há uma falta, ela geralmente recai sobre esses presos “mais frágeis”, os quais “continuarão a purgar sua cadeia” enquanto que os “cadeeiros”
acabam por se beneficiar da progressão de regime.
O autor também salienta que, mesmo que o Diretor saiba com certeza quem são os verdadeiros “cadeeiros”, ele não poderá agravar a avaliação da conduta a partir de “seu saber penitenciário”. Assim, ele afirma que se o diretor se utilizasse desse “saber”
passaríamos a ter como critério objetivo para a progressão o “saber penitenciário do diretor” e não mais a avaliação da boa conduta carcerária. Por fim, Alvino de Sá (2010, p. 198) questiona “onde está a objetividade de tudo isso?”
Ao refutar a objeção de que o exame criminológico é realizado “a partir de um pressuposto positivista”, Alvino de Sá (2010, p. 199) salienta que o verdadeiro pressuposto básico do exame é que “existe uma relação entre as suas condições pessoais (históricas, familiares, sociais, psicológicas ou até mesmo orgânicas, não necessariamente e nem igualmente todas) e seu comportamento que o direito penal tipifica como crime”. O exame então procura diagnosticar a influência de cada um desses fatores na dinâmica criminal para subsidiar a CTC na proposição das medidas recuperadoras individualizadas, pois somente assim é possível ajustar melhor os estágios de execução da pena às particularidades e antecedentes do apenado.
Quanto à possibilidade de avaliação da periculosidade do condenado por meio do exame criminológico, Alvino de Sá (2010, p. 200) salienta que não podemos confundir o exame criminológico com o exame de sanidade mental ou com um parecer de cessação de periculosidade. Para ele, é um erro crasso o técnico responsável pela confecção do exame criminológico apresentar a sua conclusão em termos de periculosidade do examinando.
Por fim, ao refutar a afirmação de que o exame criminológico é uma
“invasão à privacidade e intimidade à pessoa” do condenado, Alvino de Sá (2010, p. 200) afirma que, inicialmente, o interno deve ser cientificado que não é obrigado a se submeter ao exame criminológico e também deve ser informado de que tudo que fizer ou disser durante a realização do mesmo poderá ser usado em seu desfavor. Para o autor o que deve ser combatido é a prática de fazer o interno aceitar a se submeter ao exame com receio de que sua negação seja utilizada pelo técnico como argumento contra a concessão do beneficio pleiteado.
Por outro lado, Alvino de Sá (2010, p. 197) salienta que o exame criminológico enfrenta um conjunto de críticas realmente sérias, que possuem um substrato técnico, e não ideológico e se referem principalmente aos exame destinado á instrução de pedidos de benefícios legais como a progressão de regime e livramento condicional.
Quanto ao núcleo diagnóstico, o principal problema apontado por ele seria como poderíamos “garantir que as características psicológicas apontadas no atual exame estavam presentes quando da prática criminosa, há dois, três, ou mais anos atrás? [...] e como garantir que elas foram fatores psicológicos motivadores do crime?” (SÀ, 2010, p. 201).
Já com relação ao prognóstico e à conclusão do exame criminológico sobre a probabilidade de reincidência por parte do condenado, o autor afirma que a garantia de validade do prognostico criminológico é prejudicada em razão de que “algumas das características psicológicas comumente levantadas e tidas com particularmente relevantes costumam ser estáveis. Alem disso, os dados do passado são irremovíveis” (SÁ, 2010, p.
203).
Podemos notar que o exame criminológico é um procedimento realizado com objetivo de levantar informações constitutivas e subjetivas para subsidiar a CTC na propositura do programa individualizador no inicio da execução e também era realizado no momento de concessão de benefícios para informar o magistrado a respeito das condições gerais do apenado de passar a cumprir sua pena em regime de menor restrição ou em liberdade condicional. Desse modo, consideramos que, apesar das diversas críticas e limitações apresentadas pelo exame criminológico e de demais avaliações de cunho psicológico previstas pela sistemática original da Lei de Execução Penal, é que será possível
se trilhar um caminho rumo a uma melhor individualização da execução da pena privativa de liberdade.
Alvino de Sá (2010, p. 210-211) indica que a realização das três avaliações (exame criminológico, exame de personalidade e parecer da Comissão Técnica de Classificação), respeitadas a especificidade e particularidades de cada uma delas, é de fundamental importância para a implantação mais eficiente dos regimes progressivos de cumprimento da pena em conformidade com critérios mais técnicos e mais científicos e com consequentemente otimização da eficácia da pena privativa de liberdade imposta ao condenado.
No próximo capitulo do texto passamos a tratar das modificações introduzidas pela Lei 10.792/2003 nos requisitos de natureza subjetiva a serem cumpridos pelo condenado e que vieram por extinguir a obrigatoriedade do exame criminológico e do parecer da Comissão Técnica de Classificação para a concessão da progressão de regime de execução da pena.