2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 REDES
2.2.1 Redes Interorganizacionais
2.2.1.4 Problemas nas Redes
Na apologia da rede, como um modelo organizacional interessante, não se deve esquecer os problemas que a sua formação acarreta e que têm expressão econômica, social e organizacional (GRABHER e STACK, 1997, p.22-28).
Pelo fato de não se estar diante de hierarquias ou mercados, mas sim diante de um conjunto de inter-relações formadas e reguladas de forma tão particular, necessita-se equacionar, três domínios e, ao mesmo tempo, três tipos de problemas com os quais a rede tem que tratar:
a. A forma como é estabelecida a partilha de recursos e como é reduzido o risco que tal implica;
b. A forma como a informação é disseminada e partilhada na rede e os mecanismos utilizados para o efeito, levando em conta a existência de custos de informação e de
coordenação;
c. A forma como é aferida a partilha de resultados na rede;
Lembrando a definição de rede, em que se assume que esta é constituída por dois patamares distintos mas indissociáveis que se referem, o primeiro à sua dimensão social (a rede como uma relação entre atores) e o segundo à sua dimensão econômica (a rede como forma de partilha de objetivos e recursos estratégicos com via a ganhos de competitividade do todo), então é quase evidente que a forma como são geridas atividades e recursos, dependerá da forma como se organizam e coordenam as relações entre atores.
O fato de se definirem objetivos e se adotar como certa a partilha de recursos, que sendo individuais, passam a ser usufruto do todo, acarreta problemas de duas ordens distintas:
a. A garantia de direitos de propriedade, ainda mais se estiver perante a partilha de um bem tácito e intangível: o conhecimento;
b. A garantia e manutenção da coesão de objetivos na partilha, de modo a evitar a sobreposição de comportamentos oportunistas dos atores, àquela que é a estratégia que preside a formação da rede;
Relativamente a estes dois pontos, uma certeza existe: a da sua resolução só ser possível por via das relações sociais entre os atores.
As relações dentro da rede começam por fundar-se em pequenas transações de baixo risco onde a confiança requerida é pouca, passando depois a fases mais avançadas, onde os atores provam uns aos outros serem dignos de confiança, passando, então, a resolver-se os conflitos emergentes das trocas no interior da própria relação e não recorrendo a arbitragem exterior.
Ora, a garantia desta adaptação mútua, obtém-se por três vias no interior da rede (GRABHER, 1995, p.23):
a. Uma linguagem comum no que diz respeito a questões técnicas, regras de contratualização e padronização de processos, produtos e rotinas;
b. Um assumir de que a informação é disseminada de forma democrática e sem oportunismos, gerando clareza na rede, no sentido de que cada ator parte do princípio que conhece os restantes a ponto de se comunicar abertamente e resolver com eles os seus problemas;
c. O estabelecimento de regras mais ou menos explícitas que se formam e modificam através da interação, constituindo, ao mesmo tempo, a sua base.
Levando em consideração estas três vias, e tendo também a certeza de que as diferenças no tipo e quantidade de recursos possuídos pelos atores da rede existem e têm que ser geridas, a troca e a ajuda na rede é feita mediante as possibilidades de cada um, mas não perdendo de vista que, embora partilhado, existe muito conhecimento intrínseco a cada um, impossível de medir e que, no fundo, funciona como o elemento distintivo e diferenciador de cada ator.
No que concerne à forma como a informação é disseminada e nos custos de informação e coordenação que tal implica, é necessário levar em conta duas questões:
a. A coordenação de ações dentro da rede, pela natureza das relações de interdependência que se estabelecem, apresenta uma configuração mais complexa quando comparada com o mercado ou a hierarquia, mas o pressuposto de confiança reduz grandemente os custos de negociação;
b. A propagação da informação, embora feita de forma mais democrática, não implica necessariamente igualdade na sua apreensão, gerando, pois, diferenças de poder na rede (benéficas para a mesma), pelo que deve existir uma estrutura de coordenação que se mostra essencial no papel de facilitação das interações e que assume esse papel .
Finalmente, no que se refere à partilha de resultados, existem níveis distintos de valor: a. O valor para cada um dos atores;
b. O valor para a rede.
Uma representação dos ganhos em rede pode ser observada na figura 7.
No que diz respeito ao valor para os atores, são diversas as situações: o valor adquirido ao longo do perpetuar da relação de troca, sob a forma imaterial; O conhecimento e a aprendizagem com os outros e o próprio acréscimo de competências que esse fato implica para cada ator; E um valor que deverá ser aferido quanto às alterações estratégicas, econômicas e comportamentais que a rede provoca (JANTRANIA, 1997, op.cit, p.50-69).
Figura 7: Avaliação dos Ganhos Em Rede
Fonte: Adaptado de Wilson e Jantrania ,1997 (op.cit.), p.50-69.
O valor para a rede em si relaciona-se, com a performance da própria rede e com os seus ganhos de vantagem competitiva face à concorrência (eventualmente face a outras redes concorrentes). Jarillo (1988, p.31-41), comenta que a eficácia da rede terá que ser vista não só em termos de performance financeira, posição de mercado e satisfação dos clientes, como também do ponto de vista da flexibilidade e da redução de riscos, enquanto que Human e Provan (1997, p.368-403) distinguem como resultados da rede, resultados transacionais e resultados transformacionais.
Os resultados transacionais são os que respeitam a ganhos de recursos e performance, como é o caso de melhorias nos resultados financeiros, acesso a novo equipamento, geração de novas idéias, etc.
Os resultados transformacionais relacionam-se mais de perto, com as mudanças ao nível da gestão de cada uma das entidades participantes na rede, ao nível da aquisição de conhecimentos relacionados com novas formas de gestão, de resolução de problemas (recorrendo aos atores restantes da rede), etc. Deve-se chamar a atenção para o tempo de sucesso da rede, poder ser diferenciado, já que dependerá também da sua estrutura, do fato de as competências dos atores serem complementares ou concorrentes e do próprio objetivo que presidiu à sua criação.