• Nenhum resultado encontrado

O primeiro problema a ser abordado é a questão da importância da busca pela verdade tanto na filosofia quanto no direito. Qual seria a importância entre a teoria sobre a verdade adotada e a teoria jurídica que irá guiar o posicionamento judicial?

O que se pretende com este questionamento é deixar evidente que decisões e teorias jurídicas são pautadas por escolhas filosóficas que nem sempre são deixadas à mostra, mas estão lá e podem ser encontradas.

A análise que se pretende realizar no presente trabalho opta pelas teorias sobre a verdade como paradigmas filosóficos desenvolvidos diante de uma teoria da linguagem não analítica ou pós-analítica, abordando o paradigma da linguagem sob a tutela de Heidegger e será diante dessa perspectiva de filosofia não analítica que serão tecidos os entrelaçamentos da presente obra.

31

Diante da premissa citada, defende-se que existem teorias que substanciam a verdade, a tomam como uma propriedade real e importante dos elementos linguísticos aos quais se aplica o predicado “verdadeiro”: essas são as teorias substancialistas da verdade. Do outro lado, estão as chamadas teorias deflacionistas da verdade que não colocam o assunto verdade em termos substantivos. (GHIRALDELLI, 1999, p. 34).

Existem três principais teorias substancialistas sobre a verdade: a primeira teoria é a teoria sobre a verdade como correspondência que trabalha com a correspondência entre uma asserção linguística e um estado de coisas no mundo, já a segunda teoria sobre a verdade é a teoria da verdade como coerência que enxerga a verdade como uma qualidade que pode ser aplicada a relações mutuamente convergentes entre um conjunto de asserções linguísticas.

Por fim, existe a teoria da verdade pragmática, teoria que abrange uma infinidade de posicionamentos que criticam as teorias tradicionais sobre a verdade, rejeitando tanto a teoria da verdade como correspondência como a teoria da verdade como coerência e é uma das influências para o posterior desenvolvimento da teoria da verdade como redundância.

Contudo, importa explicar que a teoria da verdade como redundância, é integrante das teorias deflacionistas sobre a verdade, ou seja, está situada em um campo oposto ao campo das teorias substancialistas sobre a verdade.

Adotando essas premissas, Rorty delineia a crítica ironista liberal que está abarcada pelo o que se chama de teorias deflacionistas sobre a verdade que também abarca a teoria da verdade como redundância.

As teorias deflacionistas se contrapõem frontalmente à teoria da verdade como correspondência que é uma teoria substancialista sobre a verdade e defende que a verdade é representada pela correspondência entre um enunciado e um estado de coisas no mundo, fundando-se no dualismo realidade/aparência: uma sentença “p” é verdadeira, se “p” corresponde a “p” no mundo.

Por sua vez, a teoria deflacionista sobre a verdade defende que a verdade não tem natureza e que a questão sobre a verdade deve ser observada em razão da utilidade do predicado verdade, rejeitando qualquer possibilidade de diferenciação ontológica.

Cabe ressaltar que uma teoria deflacionista sobre a verdade é quase uma não teoria, de fato. Logrando desenvolver-se a partir de influências da teoria de verdade pragmática, a teoria da verdade como redundância desenvolvida por Richard Rorty acredita que quando se deseja ir além de uma verdade contextual, o pragmatismo oferta

32

conceitos como “verdade é assertabilidade garantida” ou “assertabilidade ao fim da investigação.

Para Rorty, todas essas expressões são meramente efeitos retóricos que no fim evocam que qualquer verdade que se defenda sempre, sempre será uma verdade contextual, temporária, falibilista e fruto de uma dialética ou confrontação.

Adotando as ideias de Rorty, Bauman explica que James, um dos fundadores do pragmatismo, em 1912 já dizia que o verdadeiro é somente um expediente na nossa maneira de pensar. (BAUMAN, 1997, p. 142) e Rorty explicou que esse expediente seria o uso elogioso ou endossador de certas crenças visando indicar uma certa atitude que se considera correta, elogiável e que se espera que outros adotem e não uma relação de correspondência com a realidade. Rorty acrescenta à ideia de James a ideia do uso descitacional e a função admonitória: uma função de alertar, como a da palavra perigo.

Bauman associa a ideia de Rorty um conceito muito importante: a função de controvérsia do termo verdade. Para Bauman, a noção de verdade pertence à retórica do poder e só ganha sentido na oposição, no desacordo, quando se torna uma disputa entre quem está certo e quem está errado e quando é preciso insinuar que o outro lado está contra “a verdade”. Por isso Bauman diz:

Sempre que a veracidade de uma crença é asseverada é porque a aceitação dessa crença é contestada, ou se prevê que seja contestável. A disputa acerca da veracidade ou falsidade de determinadas crenças é sempre simultaneamente o debate acerca do direito de alguns de falar com a autoridade que alguns outros deveriam obedecer, a disputa é acerca do estabelecimento ou reafirmação das relações de superioridade e inferioridade, de dominação e submissão, entre os detentores de crenças. (BAUMAN, 1997, p. 143)

É por isso que Bauman esclarece que uma teoria sobre a verdade trata de estabelecer superioridade sistemática e portanto, constante e segura de determinadas espécies de crenças, sob o pretexto de que a elas se chegou graças a um determinado procedimento confiável, ou que é assegurado pela espécie de pessoa em que se pode confiar que o sigam. (BAUMAN, 1997, p. 143). Para Bauman, essa situação de oposição é essencial na questão de se vislumbrar o que motiva uma teoria sobre a verdade.

Diante dessas três grandes teorias sobre a verdade citadas, a correspondentista, a coerentista e a pragmática, buscou-se compreender quais dessas teorias tiveram influência nos movimentos jurídicos do Direito Natural e Positivismo Jurídico, e por fim, qual seria a teoria adotada por Ronald Dworkin, um dos principais expoentes do neoconstitucionalismo, que com a sua teoria do direito como integridade, define

33

coerência como uma interpretação construtiva das decisões do passado, e constrói uma concepção de direito extremamente ligada à questão de princípios.

Dworkin observa que não existe situações inteiramente discricionárias em sentido forte no direito, estando o julgador sempre limitado pelo corpo de princípios juridicos. (SILTALA, pp. 78), mesma razão pela qual ele acredita que não existem situações lacunosas no direito já que princípios podem ser estendidos para todas as áreas.

Defende-se na presente obra que por vezes Ronald Dworkin flerta com a metafísica e a defesa da verdade como correspondência, alimentando um desejo por objetividade que pode levar à crença de que haveria asserções de base inquestionáveis em sua cadeia coerentista, como se ao fim e ao cabo ele rejeitasse a justificação circular.

Considerando que essa rejeição tem uma base metafísica e absolutista, questionou-se se, diante da premissa da pós-modernidade como época de falência de metanarrativas, é possível manter uma teoria de justiça e uma hermenêutica neoconstitucional que não recaia em abismos metafísicos, aceite a contingência e rejeite o essencialismo e mesmo assim não converta em lei o egoísmo.

Caminhando entre Dworkin, Rorty, Posner, Heidegger e Gadamer, busca-se defender no presente trabalho a possibilidade de rejeição de qualquer absolutismo para o direito, utilizando-se como premissa filosófica da teoria da verdade como redundância que nega a existência de qualquer asserção de base inquestionável.

Assim, qualquer questão, inclusive questões consideradas inquestionáveis como a dignidade humana serão analisadas através de uma visão histórica acumulativa, contextual e falibilista, o que permite uma ampla rejeição da metafísica e uma aceitação da contingência como algo a se lidar diuturnamente na lida jurídica.

Deste modo, é pertinente destacar que a base filosófica desta obra é antiplatonista, no sentido destacado por Habermas que explica que o antiplatonismo veio para fazer justiça às contingências reprimidas pelo platonismo e ofertar um novo esquema de interpretação que ensine a lidar de um novo modo com a ideia de contingência. (HABERMAS J., 2005, p. 57).

Diante da ideia da pós-modernidade como uma época de evidenciação de contingências, quer-se entender as contingências como parte do processo de busca pela verdade e parte do processo juridico.

Enfim, quer-se trabalhar sobre o solo das contingências e não tentar sufocá-las. Diante desse desejo de aceitação das contingências, analisou-se o antiplatonismo, donde despontaram dois movimentos que são detidamente analisados: a hermenêutica e

34

o pragmatismo que serão mais tarde unidos nas teorias formuladas por Richard Rorty que criticam fortemente a metafísica através do que pode ser chamado de crítica ironista liberal erigida com forte influência do pragmatismo e da hermenêutica filosófica.

Por conta do pragmatismo foi exigido um exame da teoria da verdade pragmática que está ligada a dois pilares principais: um auditório que aprove ou desaprove a crença ou asserção, ou seja, uma comunidade pertinente e também aos efeitos externos verificáveis dessas asserções e crenças, ligando-se ao consequencialismo e à retórica de Aristóteles e ao convencionalismo juridico, em razão de sua ênfase na aceitação ou reconhecimento de práticas sociais.

Amplamente, é a teoria de verdade pragmática que é adotada pelo pragmatismo, movimento filosófico e juridico que rejeita tanto a teoria da verdade como correspondência como a teoria da verdade como coerência.

O pragmatismo consegue abandonar completamente as aporias da metafísica quando realiza a passagem para o neopragmatismo através da adoção da virada linguística, dentro de uma corrente não analítica ou pós analítica.

É diante desse contexto que se desenvolve a linha de pensamento de Richard Rorty que compõem o quadro da teoria da verdade como redundância que faz parte do campo deflacionista de teorias sobre a verdade.

Será através da noção de verdade como redundância que serão tecidas as críticas e visualizadas as proposições para o tratamento do direito na pós-modernidade tomada como época de dissolução de metanarrativas, mudanças constantes e multiplicidade de opiniões.

Diante disso, acredita-se que uma forma de manutenção da importância do direito e da justiça e uma possibilidade de manutenção de sua autonomia passa por mudar a forma de enxergar essas estruturas, não mais apoiadas em abstrações racionalistas, mas de uma forma diversa, pois na pós-modernidade, época de segundo desencantamento com a crença na razão, na técnica e na segurança, está sempre presente a angústia com a liberdade de não se ter mais um caminho definido, plano e seguro para trilhar. 14

É através da retirada de qualquer rede de segurança e do lançamento ao abismo que se deseja perceber onde se pode chegar sem qualquer ponto que fosse inquestionável e representasse A Verdade.

35

A grande pergunta é: seria possível construir uma teoria filosófico-hermenêutica sem qualquer crença de base inquestionável e que partisse do falibilismo e da negação d’A Verdade? Ou se está apenas caminhando de mãos vazias?

2. O PLATONISMO MOSTRA COMO A VERDADE SE TORNOU META DE