1 SEMIÓTICA E DIREITO
1.5 O plano semântico
1.5.3 Problemas semânticos: vaguidade e ambiguidade
O sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma frase e até mesmo de todo um texto pode ser comprometido por fenômenos conhecidos como vaguidade e ambiguidade.169
É fato incontroverso que a linguagem – exceto a linguagem da lógica – é, de certo modo, ambígua, uma vez que as expressões não possuem uma significação definitiva. Ademais, existe um espaço de vaguidade, essencial aos conceitos da linguagem comum, o que Stegmüller chama de “abertura de conceitos”170.
Para Manfredo Oliveira é possível, por meio de regras, diminuir o campo de vaguidade dos conceitos empíricos ou dos conceitos de linguagem comum, mas é impossível afastar toda e qualquer vaguidade, pois isso pressupõe conceitos cuja significação está estabelecida de modo definitivo e não se pode, a priori, estabelecer regras para todos os casos. Nas palavras do filósofo cearense: “nossos conceitos são essencialmente abertos por admitirem a possibilidade de aplicação a casos não previstos”171.
No direito positivo, como corpo de linguagem, tais fenômenos estão presentes. Aliás, podem ser identificados com o que Hart denominou “textura aberta do direito”. Nas palavras do jurista inglês:
Qualquer que seja a estratégia escolhida para a transmissão de padrões de comportamento, seja o precedente ou a legislação, esses padrões, por muito facilmente que funcionem na grande massa de casos comuns, se mostrarão imprecisos em algum ponto, quando sua aplicação for posta em dúvida; terão o que se tem chamado de textura aberta.172
168 IVO, Gabriel. Norma jurídica: produção e controle. Op. cit., p. XXXIX.
169 MENDES, Guilherme Adolfo dos Santos. Extrafiscalidade: análise semiótica. Op. cit., p. 125. 170 OLIVEIRA, Manfredo A. de. Reviravolta lingüístico-pragmática ... Op. cit., p.131.
171 OLIVEIRA, Manfredo A. de. Reviravolta lingüístico-pragmática ... Op. cit., p.131.
172 HART. H.L.A. O conceito de direito. Trad. Antônio de Oliveira Sette-Câmara. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p.166.
44 Da mesma forma, Eros Grau observou que “se torna indispensável à consciência, também, de que o direito porta em si a ambigüidade”173.
Ambiguidade e vaguidade são problemas semânticos distintos. Na ambiguidade, que se relaciona a um problema designativo, há dúvida sobre a qual conjunto de objetos o signo se refere. Assim, há mais de um conjunto de propriedades designativas aplicável. Por sua vez, a vaguidade, que se refere a um problema denotativo, dá-se sempre que não houver certeza sobre a aplicação de um conceito a determinado caso.174 Ante um termo vago, sob o aspecto
denotativo, há três zonas ou áreas. A zona de certeza positiva – composta por objetos em que não há nenhuma dúvida em relação à inclusão no espaço denotativo –; a zona de certeza negativa – composta por objetos ou situações que não se incluem no espaço denotativo –; e a zona de incerteza – na qual existem dúvidas legítimas sobre a sua inclusão ou não no espaço denotativo.175
Kelsen, ao definir a interpretação como uma operação mental que acompanha o processo de aplicação do Direito no seu progredir de um escalão superior para um escalão inferior, indicou uma relativa indeterminação do ato de aplicação do Direito. Para o jurista de Praga, essa indeterminação pode ser intencional ou não intencional.176 No primeiro caso, a indeterminação está na intenção do órgão que estabeleceu a norma a aplicar. Na indeterminação não intencional, há, segundo o autor, “pluralidade de significações de uma palavra ou de uma seqüência de palavras em que norma se exprime: o sentido verbal da norma não é unívoco, o órgão que tem de aplicar a norma encontra-se perante várias significações possíveis”177.
Nas situações de indeterminação, o Direito a aplicar forma, para Kelsen, “uma moldura dentro da qual existem várias possibilidades de aplicação, pelo que é conforme Direito todo ato que se mantenha dentro deste quadro ou moldura, que preencha esta moldura em qualquer sentido possível”178. Sob essa óptica, à interpretação jurídico-científica tão somente cumpre estabelecer as possíveis significações (a moldura) da norma jurídica. A partir daí, defende Kelsen, “a produção do ato jurídico dentro da moldura da norma jurídica
173 GRAU, Eros Roberto. O direito posto e o direito pressuposto. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 113. 174 MENDES, Guilherme Adolfo dos Santos. Extrafiscalidade: análise semiótica. Op. cit., p. 126-7.
175 SILVA, Beclaute Oliveira. Dimensões da linguagem e a efetividade dos direitos fundamentais: uma abordagem lógica. Revista do Mestrado em Direito da Universidade Federal de Alagoas, ano 2, n. 02, 1º Semestre 2006, p. 184.
176 KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Op. cit., p. 387-9. 177 KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Op. cit., p. 389. 178 Ibid., p. 390.
45 aplicanda é livre, isto é, realiza-se segundo livre apreciação do órgão chamado a produzir o ato”179. Em síntese, há uma moldura na qual podem ser inseridas múltiplas significações.
O certo é que essa indeterminação, conforme lição de Beclaute Oliveira, “deve ser solvida no momento da aplicação sob pena de, para aquele caso, não ser possível construir-se norma, pois tanto o antecedente como o conseqüente são proposições, e estas são significados”180.
Em síntese, como o direito positivo não está isento de vaguidade e ambiguidade, a significação de muitos enunciados prescritivos não está fixada de forma definitiva. Entretanto, o fato de não se poder conhecer, de modo definitivo, a significação desses enunciados não implica dizer que estes sejam desprovidos de sentido, mas que este há de ser construído pelo intérprete, à luz do caso concreto, dentro de seu universo de linguagem. Nas palavras de Barros Carvalho:
Segundo os padrões da moderna Ciência da Interpretação, o sujeito do conhecimento não ‘extrai’ ou ‘descobre’ o sentido que se achava oculto no texto. Ele o ‘constrói’ em função de sua ideologia e, principalmente, dentro dos limites de seu ‘mundo’, vale dizer; do seu universo de linguagem.181
Nessa construção de sentido, os princípios aparecem como linhas diretivas que iluminam a compreensão de setores normativos, imprimindo-lhes caráter de unidade relativa e servindo de fator de agregação num dado feixe de normas.182 No próximo capítulo, aborda-se o tema “princípios jurídicos”.