1 SEMIÓTICA E DIREITO
1.5 O plano semântico
1.5.1 Semântica e interpretação
A Semântica é, na definição de Charles Morris, “o ramo da semiótica que estuda a significação dos signos”129. Frise-se que o signo, sob a óptica husserliana adotada no presente trabalho, possui status lógico de uma relação triádica que se estabelece entre o suporte físico, a significação e o significado. Toda linguagem, enquanto conjunto sígnico, oferece esses três ângulos de análise, quer dizer, compõe-se de um substrato material de natureza física que lhe sirva de suporte; uma dimensão ideal na representação que se forma na mente dos falantes (plano da significação); e o campo dos significados (objetos referidos pelos signos e com os quais eles mantêm relação semântica).130
A significação é o processo que relaciona um objeto, um ser, uma noção ou um acontecimento a um signo capaz de evocá-los.131 Para Pierre Guiraud, a significação “é um processo psíquico, tudo se passa no espírito”132. Na mesma diretriz, Kelsen sustentara que “uma significação não se pode, porém, perceber materialmente; apenas se pode entendê-lo,
127 FERRAZ JR., Tercio Sampaio. Teoria da norma jurídica: ensaio de pragmática da comunicação
normativa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 97.
128 IVO, Gabriel. Norma jurídica: produção e controle. Op. cit., p. 202. 129 Apud NÖTH, Winfried. A semiótica do Século XX. Op. cit., p. 189.
130 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, linguagem e método. Op. cit., p. 186.
131 GUIRAUD, Pierre. A semântica, 5ª ed. Trad. Maria Elisa Mascarenhas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, p. 10.
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i.e., apreender mentalmente. Este procedimento é um processo interior que precisa ser
diferenciado também da percepção material da expressão, do ouvir ou do ver a expressão”133. Na perspectiva de Peirce, o sentido de um signo é outro signo pelo qual ele pode ser traduzido.134 Clarice von Oertzen afirma que “um signo refere-se a seu objeto através de uma relação expressa por outro signo, denominado interpretante do primeiro”135. Assim, o processo gerativo de sentido consubstancia-se numa semiose, compreendida como a produção de novos signos. Na lição de Lúcia Santaella, que estudou profundamente a obra peirciana, “o signo, por sua própria constituição, está fadado a germinar, crescer, desenvolver-se num interpretante (outro signo) que se desenvolverá em outro e assim indefinidamente”136.
Limitando esta análise à linguagem idiomática (verbal ou escrita), que é a aquela que interessa ao direito, tem-se a “palavra” como o signo mínimo (mais precisamente na modalidade símbolo). É certo que, a rigor, essa unidade mínima é o morfema. As palavras vêm organizadas em frases. Os textos, por sua vez, são formados por frases. Por fim, forma-se o sistema a partir do conjunto de textos.
Desta forma, conforme salienta Guilherme Mendes, as questões de âmbito semântico não se restringem à significação de meras palavras ou simples frases, mas a todo e qualquer texto, independentemente da sua extensão e complexidade137. Ademais, como bem observou o autor, “o significado de um texto depende do significado de suas partes [...]. De igual sorte, o significado das partes (palavras e textos) sofre influência do próprio texto no qual estão inseridas”138. Em síntese, na construção do sentido, as partes agem sobre o todo e, por sua vez, o todo atua sobre as partes. Trata-se de uma visão sistemática de produção do sentido que concebe, nas palavras de Diana de Barros, “o texto, e não mais a frase, como unidade de sentido e que consideram, portanto, que o sentido da frase depende do sentido do texto”139.
Vilém Flusser, na mesma diretriz, estabelecera que “o significado de cada símbolo torna-se compreensível somente dentro do conjunto do sistema inteiro”140. Essa constatação foi feita anteriormente por Wittgenstein, ao afirmar que “só a proposição possui sentido; só
133 KELSEN, Hans. Teoria geral das normas. Trad. José Florentino Duarte. Porto Alegre, Fabris, 1986, p. 44. 134 JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. Op. cit., p. 38.
135 ARAUJO, Clarice von Oertzen de. Semiótica do direito. Op. cit. , p. 70.
136 SANTAELLA, Lúcia. A teoria geral dos signos: como as linguagens significam as coisas. Op. cit., p. 29. 137 MENDES, Guilherme Adolfo dos Santos. Extrafiscalidade: análise semiótica. Op. cit., p. 116.
138 Ibid.
139 BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 1997, p. 6. 140 FLUSSER, Vilém. Língua e Realidade. Op. cit., p. 43.
38 em conexão com a proposição um nome tem denotação”141. Sob esta óptica, a palavra só tem significação enquanto membro de uma frase, e não mais independentemente dela, como era na doutrina tradicional da linguagem. Caminhando da frase (enunciado) para o texto (conjunto de enunciados), uma frase só tem significação enquanto elemento de um texto. Por fim, o texto só terá significação enquanto componente de um sistema. Em última análise, o significado do símbolo sofre influência do sistema no qual está inserido.
O texto, que ocupa o tópico do suporte físico na relação trilateral, é o ponto de partida para a formação das significações e, ao mesmo tempo, para a referência aos entes significados. A atividade utilizada para tanto é a interpretação, pois interpretar é atribuir valores aos símbolos, isto é, adjudicar-lhes significações e, por meio dessas, referências a objetos.142 De acordo com Eduardo Bittar, “a interpretação tem lugar onde existem signos”143 e “é em busca do sentido que o destinatário de qualquer produção sígnica se vale da interpretação”144.
Entretanto, para existir texto, necessariamente deve haver contexto. Desse modo, conforme ressalta Guilherme Mendes, “é obrigatório o processo de significação extrapolar as fronteiras do texto para encontrar o que não é texto; com o texto, porém, jamais perde contato”145. Assim, o texto deve ser analisado em relação ao contexto sócio-histórico que o envolve e que lhe atribui sentido.
No campo específico do direito positivo, devem-se diferenciar enunciados prescritivos (textos na acepção de suporte material) de normas jurídicas. Aqueles se apresentam como frases, plenas de sentido, porém sem encerrar uma unidade completa de significação deôntica. Para se formar as normas jurídicas em sentido estrito, conjugam-se as significações dos enunciados, na estrutura lógica de um juízo implicacional. Portanto, o texto legislativo atua na condição de suporte físico que veicula um conteúdo de significação: as normas jurídicas.146
No prisma semântico da linguagem do direito positivo, situam-se estudos das denotações e conotações dos termos contidos nos enunciados prescritivos.147 Entretanto, a
141 WITTGENSTEIN, Ludwing. Tractatus logico-philosophicus. Trad. José Arthur Giannotti. São Paulo: Companhia Editora Nacional - Editora da Universidade de São Paulo, 1968, p. 65.
142 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, linguagem e método. Op. cit., p. 180. 143 BITTAR, Eduardo C. B. Linguagem jurídica. Op. cit., p.115.
144 Ibid., p. 118.
145 MENDES, Guilherme Adolfo dos Santos. Extrafiscalidade: análise semiótica. Op. cit., p.119. 146 ARAUJO, Clarice von Oertzen. Semiótica do direito. Op. cit, p. 104.
39 semântica sozinha não leva à significação, já que o sentido dependerá da função pragmática utilizada na mensagem. Como ensina Gregorio Robles, “para entender um elemento concreto de um texto não se pode perder de vista a função pragmática do conjunto”148. Deste modo, na construção da significação, mister ingressar também no plano pragmático. Nesse sentido, a lição de Manfredo de Oliveira:
a Semântica só atinge sua finalidade chegando à Pragmática, pois seu problema central, o sentido das palavras e frases, só pode ser resolvido pela explicitação dos contextos pragmáticos. Uma consideração lingüística que não atinge o contexto pragmático é, nesse sentido, essencialmente abstrata, como é o caso da teoria da significação no pensamento tradicional, para quem a linguagem é, em última análise, puro meio de descrição do mundo, sem a percepção de que a significação de uma palavra resulta das regras de uso seguidas nos diferentes contextos da vida.149
Para encerrar este subitem, cumpre mencionar que Barros Carvalho aponta dois axiomas da interpretação: a intertextualidade e a inesgotabilidade do sentido. Nas palavras do jurista em apreço:
A intertextualidade é formada pelo diálogo que os textos mantêm entre si, sejam eles passados, presentes ou futuros, pouco importando as relações de dependência estabelecidas entre eles. Assim que inseridos no sistema, iniciam a conversação com outros conteúdos, intra-sistêmicos e extra-sistêmicos, num denso intercâmbio de comunicações. [...] A inesgotabilidade, por sua vez, é a idéia de que toda a interpretação é infinita, nunca restrita a determinado campo semântico. Daí a inferência de que todo texto poderá ser sempre reinterpretado.150
A intertextualidade configura procedimento basilar que, partindo de duas ou mais materialidades textuais, desenha e atualiza o sentido na situação específica de interdiscursividade. Trata-se, portanto, de um processo de relação dialógica. Nesse sentido, têm-se, por exemplo, enunciados de leis ordinárias dialogando com enunciados constitucionais. De acordo com Paulo de Barros Carvalho, a intertextualidade no direito se apresenta em dois níveis: (a) a intertextualidade interna ou intrajurídica, que se estabelece entre os vários ramos do ordenamento, e (b) a intertextualidade externa ou extrajurídica, que abrange todos os setores que têm o direito como objeto, embora o considerem sob o ângulo externo e com outras propostas cognoscentes (Sociologia do Direito, a História do Direito, a Antropologia Cultural do Direito, etc.).151
No que toca à inesgotabilidade, há mutações semânticas, ou seja, alterações no plano da significação, sem nenhuma modificação no plano da expressão (dos enunciados
148 ROBLES, Gregorio. O direito como texto.... Op. cit., p. 32.
149 OLIVEIRA, Manfredo A. de. Reviravolta lingüístico-pragmática ... Op. cit., p.139. 150 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, linguagem e método. Op. cit., p. 193. 151 Ibid., p. 195.
40 prescritivos). Normalmente, tal alteração decorre de mudança nos fatores pragmáticos. Na lição do autor em exame:
Os signos do direito surgem e vão se transformando ao sabor das circunstâncias. Os fatores pragmáticos, que intervêm na trajetória dos atos comunicativos, provocam inevitáveis modificações no campo de irradiação dos valores significativos, motivo pelo qual a historicidade é aspecto indissociável do estudo das mensagens comunicacionais.152
Exemplo desse fenômeno são as chamadas mutações constitucionais, originadas da conjugação da peculiaridade da linguagem constitucional, polissêmica e indeterminada, com os fatores externos, de ordem econômica, social e cultural, que a Constituição intenta regular e que, dialeticamente, interagem com ela, produzindo leituras sempre renovadas das mensagens enviadas pelo constituinte.153