4. METODOLOGIA
4.3. PROCEDIMENTO, COLETA DE DADOS, VARIÁVEIS E FORMA
Foi realizada, principalmente, a análise de dados quantitativos e qualitativos sobre as demandas judiciais e seus atores, além de revisão de literatura, legislação, pesquisas, relatórios e orientações dos órgãos institucionais quanto à questão da judicialização da saúde. Sendo assim, os processos judiciais em saúde movidos contra o Município de Vitória da Conquista, entre janeiro de 2013 e dezembro de 2014, são as fontes primárias escolhidas como objeto de pesquisa, mas também houve análise de outros documentos institucionais, tais como relatórios e orientações do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
O trabalho de campo foi executado pessoalmente pela pesquisadora, na Justiça Comum Estadual e Federal de primeira instância, principalmente no sítio eletrônico dos Tribunais. Nesta primeira verificação foram delimitados os processos ainda em tramitação no primeiro grau, excluindo-se os processos físicos já em grau de recurso ou arquivados – se físicos. Os processo não digitalizados da justiça comum foram também excluídos em face da maior dificuldade na coleta e pouca representatividade numérica (oito processos no total).
Na Justiça Comum, todas as demandas digitalizadas ajuizadas no período puderam ser examinados, mesmo aqueles em grau de recurso ou extintos, pois o acesso continua sendo possibilitado pela internet.
A análise exploratória foi feita com os processos sobre saúde ajuizados entre 2013 e 2014 contra o Município de Vitória da Conquista, individualmente ou em litisconsórcio passivo com Estado e/ou União.
Como marco temporal para inclusão/exclusão dos processos foi considerado o ajuizamento da demanda a partir de 01 de janeiro de 2013 como início e a citação do Município de Vitória da Conquista até 31 de dezembro de 2014 como data final.
A primeira dificuldade da pesquisa apresentou-se com a impossibilidade de coletar os dados diretamente em todos os processos em tramitação na Justiça Federal, vez que quando da coleta os autos já não se encontravam mais em primeira instância ou estavam arquivados. Além disso, o TRF 1 ainda não conta com sistema que ofereça acesso integral aos autos de forma eletrônica. Sendo assim, dos 11 processos ajuizados em litisconsórcio contra a União, no período acima estipulado, apenas um pôde ser incluído no estudo.
Outra intercorrência deu-se quanto às demandas sob segredo de justiça. Inicialmente pensou-se em excluí-las da análise. Todavia, ao iniciar a coleta foi verificado que este critério acabaria por inviabilizar a análise dos processos em tramitação na Vara da Infância e Juventude. Sendo assim, foi solicitada ao órgão judicial autorização específica para essa coleta, com compromisso expresso de que os dados serão utilizados apenas para fins científicos e nenhum indivíduo será identificado. E assim, após deferimento, houve a inclusão destas demandas, num total de mais de 50 processos.
A relação dos números dos processos foi obtida nos arquivos de controle da Procuradoria da saúde, ligada à Procuradoria Geral do Município de Vitória da Conquista.
Desta forma, chegou-se a um total de 174 processos examinados.
Os dados foram colhidos dos autos desde a petição inicial até a decisão interlocutória que analisa o pedido de urgência e integralmente coletados no primeiro grau de jurisdição.
Nesta instância estão melhor concentradas quase todas as informações pertinentes à avaliação do fenômeno, pela maior proximidade com a análise da demanda do peticionante, seu representante jurídico inicial, o médico prescritor, o gestor de saúde e o magistrado. Sendo assim a primeira instância parece demonstrar a relação de melhor custo-benefício para a pesquisa. (SHÜTZ e OLIVEIRA, 2010).
O software utilizado para a construção do banco de dados foi o EpiInfo®. A análise estatística foi feita com utilização do software SPSS®. Os dados estão representados sob forma de tabelas e gráficos para possibilitar a análise do tema em estudo.
Basicamente, foram seguidos os seguintes procedimentos: de início breve revisão da evolução legal, bem como do posicionamento teórico e jurisprudencial
referente ao tema. Após, uma leitura sistemática e fichamento dentro de uma contextualização histórica dos acontecimentos. Finalmente, foi realizado o levantamento e análise dos processos judiciais a partir das variáveis indicadas no instrumento de coleta.
4.3.1 PROCEDIMENTO ESPECÍFICO DA COLETA DE DADOS NO INSTRUMENTO E ANÁLISE DAS VARIÁVEIS
Foram coletadas informações sobre variáveis quanto às partes e seus procuradores, aos processos e às decisões proferidas em seu curso, conforme apresentado no Quadro 01.
Quadro 01- Variáveis identificadas nos processos judiciais em saúde ajuizados contra o município de Vitória da Conquista, 2013 e 2014
BLOCO A
PARTES E PROCURADORES Dados do Autor
A.1. Município de origem A.2. Sexo Biológico A.3. Idade
A.4. Diagnóstico A.5. Ocupação
A.6. Pedido de Assistência Judiciária? A.7. Polo Passivo
A.8. Representação jurídica do autor A.9. Declaração de renda do autor
BLOCO B DADOS PROCESSUAIS B.1. Data de ajuizamento
B.2. Ano
B.3. Competência
B.4. Natureza da ação (Individual / Coletiva)
B.5. Tipo de ação (Mandado de segurança / Obrigação
de fazer / Ação civil pública / Outra)
B.6. Origem Médico prescritor (Rede própria / Rede
conveniada / Rede privada)
B.7. Município do atendimento médico (Vitória da
Conquista / Outro)
B.8. Bem de saúde requerido B.9. Descrição do pedido principal B.10. Suporte probatório da Petição Inicial
Prescrição
B.11. Denominação do medicamento: (Nome Comercial
/ Princípio Ativo)
B.12. Indicação de marca ou prestador específico do
bem/serviço
B.13. Serviço/Medicamento da política nacional SUS? B.14. Programa de Atenção (básica / média / alta) B.15. Medicamento com registro ANVISA? B.16. Medicamento das listas da A.F.? B.17. Lista Oficial: (RENAME / REMUNE)
B.18. Existe fármaco/tratamento substitutivo no SUS? B.19. Fundamentação Jurídica do pedido da inicial
BLOCO C. AS DECISÕES
C.1. Tempo entre o ajuizamento e a decisão liminar: C.2. Liminar (Integralmente concedida / Não concedida /
Concedida em parte)
C.3. Em face: (União / Estado / Município) C.4. Prazo para cumprimento da medida liminar: C.5. Multa:
C.6. Manifestação prévia do Poder Público?
C.7. Consulta prévia a Núcleo de Assessoria Técnica ou
similar?
C.8. Parecer N.A.T.:
C.9.1 Houve juntada de novos subsídios pelas partes? C.9.2 Houve retorno ao NAT para nova análise? C.10. Fundamentação da liminar concedida C.11. Fundamentação da liminar não concedida
4.3.1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DAS VARIÁVEIS
Para facilitar a compreensão da metodologia utilizada no preenchimento do instrumento de pesquisa (Anexo I), seguem algumas considerações sobre as variáveis analisadas.
No Bloco A, procurou-se inserir o contexto socioeconômico da parte autora, além de identificar quais entes federativos foram incluídos no polo passivo da demanda. Assim, foi registrado o município de origem; sexo biológico; idade; qual diagnóstico principal gerou a necessidade do tratamento demandado; sua profissão, renda e eventual situação de hipossuficiência que levaria ao pedido de assistência judiciária. A representação jurídica do autor também foi considerada nesta contextualização.
Outras várias discussões poderão ser tangenciadas acerca dos dados colhidos neste bloco, entre elas o ajuizamento contra ente municipal diverso do de residência do usuário ou os impactos da aplicação de outros instrumentos normativos, tais como o E.C.A ou o Estatuto do Idoso, na organização do SUS. Além, é claro, de importante análise sobre o litisconsórcio passivo dos entes federativos nas ações de saúde.
Para o preenchimento dessas variáveis, foram considerados os dados afirmados na petição inicial e os documentos anexados ao processo, dando prioridade a estes últimos em caso de conflito de informações.
No Bloco B estão reunidos os dados referentes ao processo judicial em si, como o período de ajuizamento; a competência material, o tipo e a natureza da ação. Estas informações permitem a análise sobre eventual sazonalidade de pedidos, bem como comparativo entre demandas individuais e coletivas.
Também neste Bloco registrou-se o conteúdo médico-sanitário da demanda. Considerando o local a natureza da vinculação do atendimento médico que gerou a prescrição do tratamento requerido, além de todos os pedidos apresentados pelo autor, destacando-se os principais. Também aqui foram identificados os principais documentos destinados ao suporte probatório da petição inicial.
Neste ponto é importante destacar que nos processos com prescrições de vários médicos todos foram devidamente registrados, constando neste mais de uma possibilidade de resposta. Por outro lado, prescrições juntadas aos autos, mas que não guardassem relação com os pedidos estipulados, não foram consideradas na variável de vinculação médico prescritor/rede.
O mesmo ocorreu com laudos médicos que não indicavam o tratamento requerido. Estes foram considerados apenas como suporte probatório, mas não foram computados na questão supracitada, já que não se enquadraria o médico subscritor de relatório sobre a patologia como prescritor do tratamento que não foi por ele especificado. Em síntese: se o relatório médico prescreve o tratamento requerido pela parte no processo, a vinculação do subscritor foi considerada no preenchimento. Por outro lado, se o relatório apenas descreve a situação de saúde do autor ou mesmo se prescreve tratamento diverso do requerido não foi considerado como médico prescritor, mas apenas registrada a presença do documento no suporte probatório.
Especificamente acerca do tratamento prescrito, o objetivo de oito variáveis foi a contextualização com a política estabelecida no Sistema Único de Saúde. Para isso, consta se o medicamento foi especificado pelo nome comercial ou princípio ativo, se tem registro na ANVISA e se consta na Relação Nacional de Medicamentos e vinculado a qual Componente da Assistência Farmacêutica (básico, especializado ou estratégico). Registrou-se também se o serviço ou medicamento está incorporado na política nacional do SUS e, caso negativo, se existe ou não tratamento para a enfermidade nela estabelecido.
Em caso de mais de um pedido principal, especificou-se os dados da prescrição em relação a cada um deles, individualmente. Por isso, os itens relativos à caracterização do pedido foram replicados quantas vezes fossem necessárias em cada processo, de acordo com a quantidade de solicitações. Exceto os pedidos cumulados de indenização por danos morais, cujo objeto não se aplica a estas variáveis.
Quanto à forma de denominação do fármaco na receita médica, se o prescritor optou por especificá-lo das duas formas (nome comercial e princípio ativo) as duas opções foram registradas.
Sobre a indicação de marca ou prestador específico considerou-se tanto a designação de marca de fármaco quanto a indicação particularizada de prestador do serviço solicitado.
Em relação ao enquadramento do fármaco ou serviço à política SUS, o parâmetro utilizado foi a política nacional. Protocolos locais ou estaduais não foram considerados em virtude da necessidade de padronização do estudo.
Já quanto à inclusão do fármaco à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, à Relação Municipal de Medicamentos Essenciais e à vinculação aos componentes da assistência farmacêutica o objeto foi sempre o princípio ativo da droga
solicitada e o principal padrão aplicado foi a RENAME 2014 e REMUME 2015. Todavia, nos processos em que havia conflito de informações sobre a data de incorporação do fármaco, as RENAME/REMUME 2013 também foram consultadas.
Importante lembrar que o conceito de RENAME foi ampliado em 2011, atualmente contemplando o conjunto dos medicamentos disponibilizados no SUS por suas políticas públicas oferecidas aos usuários, para garantir a integralidade do tratamento medicamentoso. A RENAME abarca, portanto, os medicamentos e insumos oferecidos pelo SUS por intermédio dos Componentes Básico, Estratégico e Especializado da Assistência Farmacêutica, bem como determinados medicamentos de uso hospitalar. Ressalva deve ser feita sobre os medicamentos oncológicos, já que estes são ressarcidos por meio das APAC – Autorizações de Procedimentos Ambulatoriais. Sendo assim não fazem parte do elenco posto na RENAME. (BRASIL. 2015).
Quanto à existência de fármaco/tratamento substitutivo ofertado pelo SUS, foram utilizadas como fonte de pesquisa as informações constantes no próprio processo judicial pesquisado e também fichas técnicas disponibilizadas nos sítios eletrônicos pelo CONITEC ou CNJ.
No Bloco C foi examinada a decisão interlocutória e seus fundamentos. Desta forma, ficaram registrados dados quanto ao lapso temporal entre o ajuizamento da demanda e a decisão, o teor da determinação e os destinatários da determinação judicial, além do prazo e fixação de multa para seu cumprimento.
Consignou-se, ainda, a possibilidade do magistrado, antes de proferir a interlocutória, ter oportunizado a manifestação da Administração Pública, bem como a eventual consulta a Núcleo de Assessoria Técnica na área de saúde, que deve ser oferecido ao Magistrado pelo respectivo Tribunal, conforme Recomendação nº 31/2010 do Conselho Nacional de Justiça.