2. MÉTODO
2.3. Procedimento de Coleta e Análise de Dados
A etapa de coleta dos dados teve início com a seleção dos documentos que seriam alvo de análise, o Estatuto da Cidade – Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 (BRASIL, 2001), a Política Nacional de Mobilidade Urbana – Lei nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012 (BRASIL, 2012) e o Plano Diretor Participativo do Município de Bauru-SP – Lei nº 5.631, de 22 de agosto de 2008 (BAURU, 2008). Os documentos foram identificados e compilados em três diferentes arquivos com o objetivo de que fossem estudados separadamente.
A ordem de leitura e análise dos três documentos foi: 1) Estatuto da Cidade, 2) Política Nacional de Mobilidade Urbana e 3) Plano Diretor Participativo do Município de Bauru. A escolha por essa ordem quanto à sequência de análise deu-se de forma arbitrária, uma vez que se preferiu observar inicialmente uma legislação federal (e mais ampla) e em seguida àquelas que nela se basearam. Tal disposição será a mesma adotada, oportunamente, na seção de Resultados e Discussão.
A estratégia de pesquisa foi baseada em Todorov et al. (2004) e consistiu em um procedimento similar aplicado em cada um dos três documentos. Inicialmente realizou-se uma leitura do documento legal na íntegra, seguindo a ordem em que o conteúdo estava disposto e apresentado. Ou seja, foi feita uma leitura geral de todo o documento. Nessa etapa, foram identificadas as partes (títulos, capítulos, artigos, parágrafos, incisos e alíneas) constituintes dos documentos, tendo como base a Lei Complementar nº 95, de 26 de fevereiro de 1998 (BRASIL, 1998), que dispõe sobre a forma como os documentos legais devem ser estruturados. Essa etapa foi importante por possibilitar ao pesquisador adquirir um conhecimento geral e amplo do teor dos documentos.
Em seguida, foi realizada nova leitura e ao ser identificado algum título, capítulo, artigo, parágrafo, inciso e alínea que descrevesse um contexto antecedente (situações ambientais que descrevem o contexto em que os comportamentos ocorrem), este era sinalizado e uma nova consulta ao documento era realizada, com o objetivo de identificar trechos da lei que descrevessem ação ou ações (respostas) esperadas diante do contexto antecedente. Posterior à identificação das respostas, uma nova leitura foi feita, buscando identificar trechos que prescrevessem consequências às respostas anteriormente identificadas.
A seguir, descreve-se um breve exemplo desse procedimento aplicado ao Plano Diretor Participativo do Município de Bauru (BAURU, 2008), em contingência que trata da implementação de políticas públicas de mobilidade urbana no município. Nesse exemplo, contexto antecedente, resposta e consequência estão “distribuídos” em diferentes artigos, mas, em muitos casos (de contingências descritas), foi possível encontrar essas três instâncias em um mesmo artigo ou na conjunção de seu caput com parágrafos, incisos ou alíneas. No exemplo em questão as contingências foram identificadas nos artigos 170, 171 e 172 da lei, como especificado a seguir:
Art.170 - A política de mobilidade urbana é instrumento da política de
desenvolvimento urbano de que tratam os art. 21, inciso XX, e 182, da Constituição Federal, e tem como objeto à interação dos deslocamentos de pessoas e bens com a cidade.
Art.171 - A política de mobilidade urbana tem como objetivo contribuir para
o acesso amplo e democrático à cidade, por meio do planejamento e organização do sistema de mobilidade urbana e a regulação dos serviços de transportes urbanos.
Art.172 - Criação de um Conselho Municipal de Mobilidade com a
finalidade de assegurar a participação comunitária na elaboração de diretrizes para a implantação de políticas voltadas à mobilidade urbana do Município, sendo que este conselho deverá ter representantes dos órgãos municipais, da comunidade e da universidade.
Como dito, a contingência trata da implementação da política de mobilidade urbana no município. O contexto antecedente pode ser identificado nos artigos 170 e 171, onde é dado que a política de mobilidade urbana é um instrumento favorecedor do deslocamento tanto de pessoas como de bens no território municipal, sendo que seu objetivo é o de contribuir para que ocorra amplo e democrático acesso à cidade por meio da regulamentação dos diferentes sistemas e serviços de transportes urbanos. O artigo 172 apresenta as ações (Respostas) esperadas dos governantes municipais, é disposto que deverá ocorrer a criação de um Conselho Municipal de Mobilidade para que se assegure a participação de diferentes segmentos da sociedade no processo de elaboração do planejamento urbano. Quanto à consequência não foram identificados artigos que façam menção direta as consequências para o cumprimento ou não das ações esperadas do poder público, entretanto a leitura do documento como um todo nos leva a concluir possíveis consequências implícitas como, por exemplo, que a criação do Conselho Municipal de Mobilidade possibilitaria a participação da população na elaboração das políticas de mobilidade urbana de modo que o acesso à cidade ocorra de forma ampla e democrática. Há ainda a possibilidade de que se façam outras inferências de possíveis consequências, como no caso de os agentes públicos
não se comportarem de acordo com a lei, o que poderia afetar o referido acesso à cidade, ou ainda a possibilidade de que os governantes sofram sanções pelo não cumprimento de suas atribuições. Tais relações serão melhor aprofundadas na seção de Resultados e Discussão.
A partir da leitura e identificação dos termos de contingência três termos presentes nos três documentos, os dados foram sistematizados e organizados em tabelas, onde foram categorizados funcionalmente, detalhando se descreviam função de contexto antecedente, resposta ou consequência.
Após essa etapa, as contingências descritas nos documentos foram categorizadas em contingências completas (que apresentavam os três termos da contingência) e incompletas (que apresentavam parcialmente os termos da contingência) e tiveram suas frequências de ocorrência quantificadas. É importante destacar que uma contingência que apresentasse apenas “resposta” e “consequência” era classificada como completa, pois as leis permitiam a identificação de artigos (e outros dispositivos) que serviam de contexto antecedente geral, cujas disposições permeavam todo o documento.
Quando o texto não descrevia de forma explicita a consequência de uma resposta específica, optou-se por “completar” essas contingências com descrições que estariam implícitas na contingência, como ocorreu no exemplo apresentado anteriormente. No exemplo, são dispostos o “contexto antecedente” e a “resposta” esperada dos governantes municipais, entretanto não é descrita de forma explícita em um artigo qual a consequência para o cumprimento, ou não cumprimento, da ação. Nesse caso é descrito no texto qual a ação esperada por parte do munícipio, bem como o modo com que ela deve ser conduzida, porém não é disposta a consequência resultante dessa ação, mas a leitura e interpretação da contingência e do documento como um todo possibilita a conclusão sobre possíveis consequências implícitas; essas consequências foram utilizadas para completar a contingência.
Com base nos conceitos anteriormente apresentados, essas contingências foram classificadas em temas/assuntos com base na relação que estabelecem com o planejamento e gestão urbana, mais especificamente com a mobilidade urbana e o seu desenvolvimento sustentável. Também se procurou analisar e comparar as contingências entre si, objetivando avaliar a existência de entrelaçamentos entre elas, ou seja, observando se uma determinada contingência previa relação com outra contingência da mesma lei ou se previa relação com as contingências presentes nos outros documentos de lei.