5 METODOLOGIA
5.4 PROCEDIMENTO DE COLETA E ANÁLISE DOS DADOS
As pesquisas qualitativas, cada vez mais, têm se utilizado de análises textuais, com o intuito de aprofundar a compreensão dos fenômenos investigados, a partir de uma análise rigorosa e criteriosa das informações, reconstruindo conhecimentos existentes (MORAES; GALIAZZI, 2011).
A análise dos dados coletados por meio da pesquisa de campo foi realizada de acordo com a abordagem proposta por esses autores em que a análise textual discursiva (ATD) tende, principalmente, para a:
[...] construção ou reconstrução teórica, numa visão hermenêutica, de reconstrução de significados a partir das perspectivas de uma diversidade de sujeitos envolvidos
nas pesquisas. Ainda que podendo assumir teorias a priori, visa muito mais a produzir teorias no processo da pesquisa. Mais do que navegar a favor ou contra a correnteza, visa a explorar as profundidades do rio (MORAES; GALIAZZI, 2011, p. 145).
A definição pela Análise Textual Discursiva (ATD) ocorreu em função de corresponder a uma metodologia de análise de dados e informações de natureza qualitativa, com a finalidade de produzir novas compreensões e reflexões sobre as manifestações e narrativas dos sujeitos pesquisados. Nesse sentido, Moraes (2003, p.192) compreende a análise textual discursiva como:
[…] um processo auto-organizado de construção de compreensão em eu os novos entendimentos emergem de uma sequência recursiva de três componentes: desconstrução do corpus, a unitarização, o estabelecimento de relações entre os elementos unitários, a categorização, e o captar do novo emergente em que nova compreensão é comunicada e validade.
Assim, esta metodologia de análise de dados é um processo de desconstrução, seguida da reconstrução, levando a novos entendimentos sobre os fenômenos e narrativas investigados. Para isso, envolve identificar e isolar enunciados dos materiais submetidos à análise, categorizar esses enunciados e produzir textos, integrando, nessa descrição e interpretação, utilizando, como base de sua construção, o sistema de categorias construídas.
Para realizar a Análise Textual Discursiva (ATD), seguiram-se três etapas do ciclo, como proposto por Moraes e Galiazzi (2011).
Na primeira etapa da ATD, a unitarização, que caracteriza por uma leitura cuidadosa e profunda dos dados, em um movimento de separação das unidades significativas. Segundo Moraes e Galiazzi (2011, p. 132), os dados são recortados, pulverizados, desconstruídos, sempre a partir das capacidades interpretativas do pesquisador. Nesta fase, uma condição necessária é o estabelecimento de uma relação íntima e próxima do pesquisador com os dados coletados. Esse é o momento em que o pesquisador olha de várias maneiras para os dados, descrevendo-os incessantemente; constrói várias interpretações para um mesmo registro escrito e, a partir destes procedimentos, surgem as unidades de significados. Como ressalta Moraes (2003), essa fase se aproxima do caos em um processo de extrema desorganização.
A segunda etapa, a categorização, caracteriza-se por um processo de comparação constante entre as unidades definidas no processo inicial de análise, levando ao agrupamento de elementos semelhantes (MORAES, 2003, p.197). De forma criteriosa e em razão dos objetivos do trabalho, constrói-se as categorias de análise por meio dos elementos
semelhantes, sendo que, a todo momento, elas podem ser modificadas e reorganizadas em um processo em espiral. Dessa forma, Moraes e Galiazzi (2011, p. 125) asseveram que “[...] as categorias não saem prontas, e exigem um retorno cíclico aos mesmos elementos para sua gradativa qualificação. O pesquisador precisa avaliar constantemente suas categorias em termos de sua validade e pertinência”.
Os autores expõem sobre o trabalho criterioso do pesquisador na elaboração das categorias de análise e acrescentam que as categorias podem existir “a priori” ou poderão emergir durante a construção de novas compreensões, e, ainda dependendo da complexidade dos dados, podem-se construir vários conjuntos de categorias e subcategorias (MORAES, 2003).
Desta forma, neste trabalho de tese, conforme já descrito anteriormente, a pesquisadora se apropriou “a priori” de duas principais categorias de análise, em função do foco da pesquisa e por ter percebido, desde o projeto do estudo, a carência de estudo abordando a temática. Essas categorias são “acesso” e “permanência”.
No primeiro momento, optou-se por recolher dados referentes à trajetória dos estudantes antes de sua formação acadêmica, em função da relevância dessas informações para análise da primeira categoria deste estudo, que é analisar as condições de acesso na IES investigada. Para isso, se apropriou da categoria “acesso”, que se subdividiu nas seguintes subcategorias: a oferta de recursos e apoio especializado durante avaliações acadêmicas e processos seletivos de ingresso, desafios e conquistas e quanto às barreiras encontradas pelos estudantes.
No segundo momento, objetivou analisar as condições de permanência dos estudantes com deficiência na IES pesquisada, e, para isso, deteve-se o olhar investigativo sobre as condições vividas por eles após o ingresso na instituição, se apropriando da categoria “permanência”, que se subdividiu nas seguintes subcategorias: Prática docente, convivência acadêmica e interação social, atividades e avaliações acadêmicas, locomoção e mobilidade e, dificuldades e/ou facilidades encontradas pelos estudantes.
A terceira e última etapa da ATD diz respeito à captação do novo emergente, ou seja, a construção de um meta-texto pelo pesquisador tecendo considerações sobre as categorias que ele se apropriou durante a análise dos dados coletados. Segundo Moraes (2003, p.202):
[...] os meta-textos são constituídos de descrição e interpretação, representando o conjunto, um modo de compreensão e teorização dos fenômenos investigados. A qualidade dos textos resultantes das análises não depende apenas de sua validade e
confiabilidade, mas é, também, consequência do pesquisador assumir-se como autor de seus argumentos.
Nesta fase da análise, de acordo com o autor, a pesquisadora buscou expressar os seus argumentos e novos entendimentos a partir de rigorosa e ostensiva análise dos dados coletados.
No quadro 2, logo abaixo, são apresentadas as etapas da ATD, como também os procedimentos e objetivos de cada uma delas, de acordo com Moraes e Galiazzi (2011), no sentido de facilitar a leitura e compreensão dos leitores quanto a análise realizada.
Quadro 2 - Etapas da Análise Textual Discursiva (ATD)
ETAPAS PROCEDIMENTOS OBJETIVOS
1ª etapa: Unitarização.
Desmontagem e exame dos textos em seus detalhes, fragmentando-os.
Atingir unidades constituintes enunciadas e referentes ao fenômeno estudado.
2ª etapa: Categorização.
Estabelecimento de relações e associações entre as unidades definidas no processo de análise inicial.
Construir categorias de análise
por meio dos elementos
semelhantes, sendo que, a todo momento, elas podem ser modificadas e reorganizadas em um processo em espiral.
3ª etapa: Captação de um novo emergente.
Construção de um meta-texto tecendo considerações sobre as
categorias que foram
apropriadas durante a análise dos dados coletados.
Expressar argumentos e novos entendimentos a partir de rigorosa e ostensiva análise dos dados coletados, o que pode
resultar em criação e
originalidade.
Fonte: Arquivos da pesquisadora, de acordo com Moraes e Galiazzi (2011).
Vale ressaltar, ainda, que a pesquisadora considerou que a validade e confiabilidade dos resultados de uma análise, segundo Moraes (2003, p. 206) dependem do rigor com que cada etapa da análise foi construída, uma vez que uma unitarização e uma categorização rigorosas encaminham para metatextos válidos e representativos dos fenômenos investigados.
6 O INSTITUÍDO E O VIVIDO POR ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA VISUAL: ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Há uma variação de professor para professor, porque tem professor que dá muita atenção […] Então, seria uma conscientização geral dos professores e explicar para eles as necessidades dos alunos […] Seria uma conversa mesmo com os alunos para saber o que estão precisando e uma conversa entre os professores também eu acho que seria bom […] porque aquele professor que tem mais dificuldade de conversar com o aluno, você percebe isso, e daí eles poderiam conversar entre eles mesmos. (PEDRO)24
Na epígrafe, Pedro afirma a urgência de “diálogo” e de “interação social” entre o professor, o estudante com deficiência e a instituição para, então, brotar indicação de verdadeiras condições de acesso e de permanência de estudantes com deficiência nas instituições de Educação Superior.
Partindo desta compreensão é que serão tecidas reflexões entre o instituído e o vivido por estudantes com deficiência, na IES, nas distintas dimensões percebidas pelos estudantes, nas quais estão inseridas as condições de acesso e de permanência deles na instituição.
Durante os primeiros momentos de coleta dos dados do estudo, a pesquisadora verificou que dois dos estudantes com deficiência, previstos como sujeitos a serem investigados, não mais faziam parte do quadro de estudantes daquela instituição. Por isso, a partir daí o estudo passou a investigar seis estudantes que se encontravam matriculados à época da coleta dos dados. Dessa forma, após a coleta e análise dos dados recolhidos na pesquisa empírica realizada durante um semestre letivo junto aos sujeitos envolvidos na pesquisa, a pesquisadora passou a dedicar-se à tessitura das reflexões e análises da concepção dos seis estudantes com deficiência visual, abordando o acesso, a permanência, e os fatores que interferem no acesso e na permanência deles na IES pesquisada.
Assim, esta seção objetiva identificar o acesso, a permanência e os fatores que interferem nesse acesso e permanência de estudantes com deficiência visual na IES.
24 Codinome usado na identificação de um dos sujeitos pesquisados para ocultar a verdadeira identidade
O acesso a Educação Superior foi analisado por meio das três seguintes subcategorias: quanto à oferta de recursos e ao apoio especializado durante as avaliações acadêmicas e processos seletivos de ingresso; quanto aos desafios e às conquistas; e quanto às barreiras encontradas pelos estudantes, na IES. Já a permanência a Educação Superior, na IES pesquisada, foi analisada por meio das cinco seguintes subcategorias: quanto à prática docente; quanto à convivência acadêmica e à interação social; quanto às atividades e às avaliações acadêmicas; quanto à locomoção e à mobilidade; e, por fim, quanto às dificuldades e às facilidades encontradas pelos estudantes.