CAPÍTULO II A RELAÇÃO ENTRE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE
2.7 Análise de casos concretos
2.7.4 Procedimento do caso Escher perante a Comissão
O caso diz respeito à possível interceptação e monitoramento ilegal das linhas telefônicas de Arley José Escher, Dalton Luciano de Vargas, Delfino José Becker, Pedro Alves Cabral, Celso Aghinoni e Eduardo Aghinoni, membros das organizações ADECON (Associação Comunitária de Trabalhadores Rurais) e COANA (Cooperativa Agrícola de Conciliação Avante Ltda.). O fato se deu entre os meses de abril e junho de 1999.
A denúncia foi recebida pela Comissão no dia 26 de dezembro de 2000, sendo peticionários a Rede Nacional de Advogados Autônomos Populares (RENAAP) e o Centro de Justiça Global. No dia seguinte, a Comissão enviou cópia da denúncia ao Estado brasileiro para que o mesmo apresentasse suas observações no prazo de 90 dias.
Em agosto de 2001, os peticionários solicitaram à Comissão a realização de uma audiência a fim de se discutir sobre as questões de admissibilidade da denúncia, a qual ocorreu no dia 14 de novembro de 2001. Em seguida, o Estado apresentou por escrito sua posição a respeito da admissibilidade da denúncia.
Uma reunião de trabalho com as partes ocorreu no dia 15 de outubro de 2002. Depois de um longo período de ausências, os peticionários voltaram a ofertar nova comunicação no dia 20 de maio de 2005. O Estado, por sua vez, reiterou sua posição sobre a admissibilidade do caso no dia 12 de outubro de 2005. Para reforçar a tese dos peticionários, houve a apresentação de um memorial de amicus curiae pelo Center for Human Rights, do Robert F. Kennedy Memorial, isso em 25 de outubro de 2005.
Interessante a contribuição de Galli, Krsticevic e Dulitzky (2000) sobre o instituto do amicus curiae:
O instituto do amicus curiae, derivado do direito anglo-saxão, é uma intervenção de terceiro autorizado a participar do procedimento com o objetivo de fornecer informação para a Corte. O terceiro interessado atua em defesa do interesse geral que vai além do interesse das partes, apresentando argumentos jurídicos favoráveis a uma das partes da demanda. No sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, tal modalidade de intervenção tem sido utilizada para trazer informação (com conotação probatória) sobre o direito aplicável aos fatos contidos na demanda. Segundo a Corte, o seu papel é de colaborar com a Corte no estudo e resolução dos assuntos submetidos à sua jurisdição. (GALLI; KRSTICEVIC; DULITZKY, 2000, p. 93).
18 Os dados foram extraídos da sentença proferida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, disponível no
site http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_200_por.pdf, com acesso no dia 13 de maio de 2010, bem como de informações dadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, disponíveis no site http://www.cidh.oas.org/demandas/12.353%20Arley%20Escher%20y%20otros%2020%20diciembre%202007% 20PORT.pdf, com acesso no dia 14 de maio de 2010.
Apesar de o texto fazer referência à Corte Interamericana, o mesmo se aplica em relação ao instituto do amicus curiae, ao trabalho da Comissão Interamericana.
O caso em comento só foi admitido formalmente pela Comissão Interamericana no dia 02 de março de 2006, ou seja, praticamente cinco anos e dois meses após a apresentação da denúncia pelos peticionários. Mais uma vez se percebe, de forma bastante nítida, a questão da morosidade na atuação da Comissão Interamericana de proteção dos direitos humanos.
Apesar de o caso ter sido admitido formalmente em março de 2006, o Relatório de Admissibilidade só foi transmitido às partes interessadas no dia 19 de abril de 2006, momento em que a Comissão colocou-se à disposição para uma possível solução amistosa, concedendo, ainda, o prazo de dois meses aos peticionários para a devida apresentação das alegações sobre o mérito.
Sobre a questão da tentativa de solução amistosa, Piovesan (2007) acrescenta:
Feito o exame da matéria, a Comissão se empenhará em buscar uma solução amistosa entre as partes ± denunciante e Estado. Se alcançada a solução amistosa, a Comissão elaborará um informe que será transmitido ao peticionário e aos Estados partes da Convenção, sendo comunicados posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. Esse informe conterá uma breve exposição dos fatos e da solução alcançada. (PIOVESAN, 2007, p. 95-96). No caso em análise, não houve solução amistosa, não sendo elaborado, portanto, nenhum informe nesse sentido.
Os peticionários apresentaram suas alegações sobre o mérito em julho de 2006, isso em função do prazo concedido pela própria Comissão, a qual enviou cópia ao Estado, no dia 25 de julho de 2006, concedendo um prazo de dois meses para que ele se pronunciasse. No entanto, em setembro do mesmo ano, o Estado solicitou prorrogação do prazo, o que foi concedido pela Comissão em 29 de setembro de 2006. Em função da prorrogação concedida, o Estado só apresentou suas respostas no dia 30 de novembro de 2006, o que só foi confirmado pela Comissão e encaminhado aos peticionários no dia 07 de dezembro de 2006. Os peticionários tiveram um mês de prazo para apresentarem novas observações.
Em 08 de março de 2007 a Comissão, finalmente, aprovou o Relatório de Mérito do caso (nº 14/07), com uma série de recomendações ao Estado, transcritas abaixo:
1. Realização de uma investigação completa, imparcial e efetiva dos fatos, com o objetivo de estabelecer as responsabilidades civis e administrativas com respeito aos fatos relacionados com as interceptações telefônicas bem como com as gravações
realizadas de maneira arbitrária nos números (044) 462-1418, da COANA, e (044) 462-1320, da ADECON, bem como sua divulgação posterior.
2. Reparação plena a Arley José Escher, Dalton Luciano de Vargas, Delfino José Becker, Pedro Alves Cabral e Celso Aghinoni, bem como aos familiares de Eduardo Aghinoni, no aspecto tanto moral quanto material, pelas violações de direitos humanos determinadas neste relatório.
3. Aprovação e implementação de medidas destinadas a preparar funcionários da justiça e da polícia, a fim de evitar ações que impliquem violação do direito de privacidade em suas investigações.
4. Aprovação e implementação de ações imediatas para assegurar o cumprimento dos direitos estabelecidos nos artigos 8.1, 11, 16 e 25 da Convenção Americana, de maneira que se tornem efetivos os direitos à proteção especial da privacidade e à liberdade de associação das pessoas físicas no Brasil.
O Relatório de Mérito foi repassado ao Estado brasileiro em 10 de abril de 2007, sendo concedido um prazo de dois meses para que o Estado se pronunciasse. O mesmo prazo foi dado aos peticionários, só que quanto à possibilidade de envio do caso à apreciação da Corte Interamericana.
No dia 24 de maio, o Estado solicitou prorrogação do prazo, o que foi concedido pela Comissão no dia 05 de junho. O período concedido foi de três meses. Em setembro, o Estado enviou um relatório à Comissão demonstrando que as recomendações haviam sido cumpridas de forma parcial. Em função disso, e demonstrando boa-fé no cumprimento das recomendações, o Estado solicitou uma nova prorrogação do prazo, só que agora de seis meses.
Os peticionários apresentaram suas observações sobre o relatório de cumprimento parcial ofertado pelo Estado no dia 27 de setembro. A Comissão, no dia 08 de outubro, concedeu a segunda prorrogação solicitada pelo Estado, só que, em vez de seis meses, concedeu apenas dois meses de prazo. Nova reunião de trabalho com as partes aconteceu em outubro de 2007.
Em meados de novembro de 2007, os peticionários enviaram uma informação adicional muito importante à Comissão, informação essa que segue transcrita abaixo:
Em 14 de novembro de 2007, os peticionários enviaram informação adicional à CIDH ressaltando que, em 11 de outubro de 2007, a Assembléia Legislativa do Estado do Paraná decretara, e o Governador do Estado aprovara, a Lei nº 15662, na qual se concede o título de Cidadã Honorária do Estado do Paraná à Magistrada Elisabeth Kather, envolvida nos fatos deste caso. Acrescentaram os peticionários que, conforme a Lei nº 13.115/2001, do Estado do Paraná, o título de cidadão honorário somente é concedido a pessoas que tenham prestado relevantes serviços ao estado federado. Segundo os peticionários, esse ato promove a impunidade quanto à responsabilidade que pudesse recair sobre a conduta da magistrada, distanciando-se, por conseguinte, o Estado do cumprimento das recomendações formuladas pela Comissão.
O Estado, no dia 10 de dezembro de 2007, solicitou uma nova prorrogação do prazo, sendo concedido pela Comissão apenas dez dias. Em face da omissão do Estado depois disso, a Comissão entendeu pelo envio do caso à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Observa-se que mais uma vez se teve um longo período entre a apresentação da denúncia e a decisão de envio do caso à Corte. A denúncia foi apresentada em dezembro de 2000 e o caso só foi enviado à Corte em dezembro de 2007, ou seja, sete anos depois. Em função de tanta concessão de prazo, impera a necessidade de uma reformulação no Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o que veio a ocorrer em outubro e novembro de 2009, só entrando em vigor no dia 31 de dezembro de 2009.