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Procedimento do caso Garibaldi perante a Corte

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CAPÍTULO III A CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS:

3.3 Os trâmites do procedimento contencioso

3.4.3 Procedimento do caso Garibaldi perante a Corte

O caso foi enviado à Corte, pela Comissão Interamericana, no dia 24 de dezembro de 2007. Depois da devida análise preliminar, a Secretaria da Corte notificou o Estado e os representantes da vítima no dia 11 de fevereiro de 2008. Mediante Resolução, a presidenta da Corte ordenou o recebimento de declarações de testemunhas, assim como o parecer de um perito, que fossem rendidas perante um agente dotado de fé pública.

A audiência pública foi marcada para os dias 29 e 30 de abril de 200926. Três escritos na qualidade de amicus curiae foram apresentados: um em 15 de maio de 2009, pela Clínica de Direitos Humanos do Núcleo de Prática Jurídica da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, referente ao contexto de violência no campo no Brasil;

24 Foram juízes do caso: Sergio García Ramírez (presidente), Arlirio Abreu Burelli (vice-presidente),

Antônio Augusto Cançado Trindade, Cecilia Medina Quiroga, Manuel E. Ventura Robles e Diego García-Sayán.

25 Os dados foram extraídos da sentença proferida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos,

disponível em www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_203_por.pdf, acesso no dia 10 de maio de 2010.

26 Foram juízes do caso: Cecilia Medina Quiroga (presidenta), Diego García-Sayán (vice-presidente),

Sergio García Ramírez, Manuel Ventura Robles, Leonardo A. Franco, Margarette May Macaulay, Rhadys Abreu Blondet e Roberto de Figueiredo Caldas (juiz ad hoc).

outro, em 18 de maio de 2009, apresentado pela Coordenação de Movimentos Sociais do Paraná, referente ao contexto de violência contra trabalhadores rurais sem-terra do Paraná; e um terceiro, em 27 de maio de 2009, pelo Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, sobre o alcance da proteção do artigo 4º da Convenção Americana no caso em questão.

Interessante, aqui, é que o Estado, junto com sua contestação, interpôs quatro exceções preliminares, a saber: incompetência ratione temporis da Corte; descumprimento pelos representantes dos prazos previstos no Regulamento da Corte para apresentar o escrito de petições, com argumentos e anexos; impossibilidade de alegar violações não consideradas durante o procedimento perante a Comissão Interamericana; falta de esgotamento dos recursos internos.

Segundo a Corte, ao analisar a primeira exceção preliminar, o Brasil reconheceu a jurisdição obrigatória da própria Corte em 10 de dezembro de 1998, sob reserva de reciprocidade e para os fatos posteriores a essa data, sem mencionar o princípio da irretroatividade dos tratados previsto no artigo 28 da Convenção de Viena. É verdade que a morte da vítima ocorreu antes dessa data, mas também é verdade que, em decorrência dessa morte, violações continuadas foram além da data em questão. Ora, a Corte tem competência para conhecer violações continuadas sem que seja infringido o princípio da irretroatividade. Os representantes, por sua vez, deixaram claro que a obrigação estatal de respeitar os direitos previstos na Convenção Americana já existia antes mesmo da data de reconhecimento da competência contenciosa da Corte pelo Brasil. Em função do exposto, a Corte houve por bem admitir a primeira exceção de forma preliminar.

No tocante à segunda exceção, o Estado destacou o fato de que se deve preservar o equilíbrio processual e que o mesmo tratamento dispensado a ele, Estado, deve ser dispensado aos representantes da vítima. Ao analisar as provas, a Corte entendeu terem os representantes da vítima cumprido os prazos determinados pelo Tribunal, preservando o equilíbrio processual necessário.

Em relação à terceira exceção, o Estado sustentou não ser possível a inclusão, no âmbito da Corte, de uma violação não apreciada durante o procedimento perante a Comissão. Trata-se, na verdade, do descumprimento do artigo 28 da Convenção Americana, relativo à ³FOiXVXODIHGHUDO´6HJXQGRR(VWDGRRDFUpVFLPRGHssa violação no âmbito da Corte subtraiu do próprio Estado a oportunidade de defesa quando do processamento do caso perante a Comissão. A Corte, porém, entendeu que tal inserção não caracteriza violação alguma e que, curiosamente, o descumprimento referente ao artigo 28 só passou a ser considerado após uma

menção feita pelo próprio Estado. E mais: nenhum dos artigos da Convenção Americana que tratam dos requisitos necessários para a apresentação de uma petição exige que os peticionários especifiquem os artigos que consideram violados. Desse modo, a Corte também rejeitou essa exceção preliminar.

Quanto à quarta exceção apresentada, o Estado alegou que, no momento da apresentação da denúncia perante a Comissão, a investigação policial ainda estava em trâmite. Ainda segundo o Estado, o prazo aproximado de quatro anos e cinco meses de trâmite do inquérito policial é perfeitamente razoável, dada a natureza complexa das investigações, não havendo indício algum de que os peticionários estivessem impossibilitados de esgotar os recursos internos. Já para a Comissão Interamericana, a insatisfação do Estado se deve ao que foi decidido no âmbito da Comissão. Ainda segundo a Comissão, em nenhum momento o Estado alegou em sua contestação que a decisão de admissibilidade se baseou em informação errônea ou resultou de um processo em que as partes não atuaram com igualdade de armas ou em que houve violação do direito à defesa. Para os representantes da vítima, no momento da apresentação da denúncia perante a Comissão, o inquérito, no Brasil, já se prolongava por quatro anos, sendo que a legislação brasileira prevê que um procedimento assim deve ser concluído em trinta dias. Por seu lado, a Corte destacou o fato de o Estado ter interposto esta exceção preliminar ante a Comissão dois anos e quatro meses depois de haver sido, pela primeira vez, requerido a apresentar informação sobre a petição. Em função do exposto, a Corte desconsiderou mais essa exceção preliminar interposta pelo Estado.

Em sua sentença, a Corte entendeu ter o Estado violado os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial (artigos 8.1 e 25.1 da Convenção Americana). Houve, ainda, violação do artigo 1.1 da Convenção, que dispõe:

Os Estados-partes nesta Convenção comprometem-se a respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma, por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social.

Quanto à cláusula federal, a Corte entendeu não ter o Estado descumprido a mesma. Para se entender melhor esse ponto, cabe reproduzir o artigo 28, parágrafos 1º e 2º, da Convenção Americana:

Artigo 28

1. Quando se tratar de um Estado-parte constituído como Estado federal, o governo nacional do aludido Estado-parte cumprirá todas as disposições da presente Convenção, relacionadas com as matérias sobre as quais exerce competência legislativa e judicial.

2. No tocante às disposições relativas às matérias que correspondem à competência das entidades componentes da federação, o governo nacional deve tomar imediatamente as medidas pertinentes, em conformidade com sua Constituição e com suas leis, a fim de que as autoridades competentes das referidas entidades possam adotar as disposições cabíveis para o cumprimento desta Convenção.

Em relação a essa questão, a Comissão argumentou que o governo federal e o governo estadual devem adotar as medidas necessárias para assegurar o cumprimento das obrigações contidas na Convenção. Desse modo, governos federal e estadual deveriam trabalhar em harmonia e de forma coordenada. A Corte entendeu não ter havido violação nessa questão.

A Corte entendeu ser a sentença uma forma de reparação. Além da questão indenizatória, no valor total de US$179.000,00, deve o Estado conduzir, de forma eficaz e em prazo razoável, o Inquérito Policial, bem como qualquer processo que for aberto a respeito do caso. Deve, ainda, o Estado realizar uma investigação séria para verificar possíveis falhas e/ou omissões funcionais de seus agentes, aplicando as sanções correspondentes. A sentença deste caso data de 23 de setembro de 2009. O Brasil ainda não cumpriu as disposições da sentença.

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