A pesquisa seguiu os preceitos éticos preconizados pela Resolução Nº466/12 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012). O projeto n° CAAE 37593620.0.0000.8527, foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos e somente após a aprovação, iniciamos a coleta de dados. Os dados coletados pela equipe serão resguardados em um local seguro no período de cinco anos e as informações dos participantes mantidas em anonimato, não sendo possível identificação por terceiros.
8 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A amostra inicialmente seria composta por 15 participantes, entretanto pelas condições atuais de pandemia do Covid-19 a instituição CAPS-ad (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas.) está trabalhando e atendendo em capacidade reduzida a fim de evitar risco a saúde dos membros da equipe bem como seus pacientes. Além do mais é uma população de difícil acesso, por muitas vezes foi realizado contato telefônico com usuários do CAPS-ad, entretanto sem sucesso, sendo uma característica dessa população, trocas constantes de números de telefone e endereço, vários convidados a participar da pesquisa mostraram-se indisposto a falar da dependência química e do seu tratamento, por outro lado alguns entrevistados relataram não ter vergonha de falar sobre esses aspectos.
A amostra obtida continha 12 participantes sendo 5 mulheres e 7 homens, a maioria da amostra possui educação básica, onde 5 participantes tem o ensino médio completo, 4 apenas o ensino fundamental, e 3 apenas a educação infantil. A respeito do estado civil, 7 tem uma união estável, 4 são solteiros, e apenas um divorciado, entretanto todos apresentaram problemas de relacionamento com o seu parceiro, muitos deles devido ao uso da substância. A faixa etária vária entre 32 anos e 65 anos, muitos conheceram a substância e começaram fazer uso muito precoce, ainda sem completar a maior idade, entre 9 a 14 anos, entretanto um participante começou a fazer uso só aos 23 anos.
Visando a preservação da identidade e da integridade dos participantes da pesquisa, optou-se por substituir o nome dos participantes por paciente numerando- os de 1 a 12, conforme ordem das entrevistas. Após a análise dos dados pelo método de Análise de Conteúdo, os resultados e discussões foram estruturados em três eixos e suas respectivas categorias.
8.1 EIXO I: PERCEPÇÃO DO TRATAMENTO
A partir do Eixo 1 foi possível compreender a percepção do tratamento, bem como a responsabilidade do paciente para a eficácia do mesmo e obtenção de resultados e melhorias, todos reconhecem que seus esforços particulares aliados ao tratamento ofertado são de suma importância, entretanto foi constatado uma adesão incorreta, havendo muitas desistências e recaídas, outro dado importante é a
alteração da rotina da medicação por conta própria, todos os pacientes fazem uso de medicação, onde muitos deles decidem suspender ou aumentar o uso sem autorização médica, caracterizando assim mais uma forma de uma não adesão correta.
8.1.1 Categoria 1: Responsabilidade sobre a Adesão
Occhini e Teixeira (2003) asseguram que, independente da intervenção usada no tratamento é de suma importância o desejo do paciente em se tratar, sendo considerado pelos autores um poderoso elemento para a adesão correta ao tratamento, os participantes da pesquisa demostraram consciência sobre sua responsabilidade frente ao tratamento, para que possam se ajudar devem ter disciplina e perseverança como ficou claro em uma das falas: “Eu acho que ajuda
muito, ajuda muito, mas depende da pessoa também, né? Se ela quiser, quiser mudar depende dela, tudo depende da pessoa...” (Paciente 1). O tratamento contra
dependência química sendo realizado de forma involuntária mostra-se pouco eficaz, não consegue obter êxito, obrigando o usuário e expondo ele as diferentes intervenções, mesmo que isso parta de familiares, onde se tem um nível de afetividade considerável como podemos identificar na fala de um dos usuários do CAPS-ad que, sendo dependente químico sabe a importância que a responsabilidade do indivíduo tem para o tratamento em si, demostrando interesse para que outros dependentes químicos da família tenham adesão: “Eu entendo que
ajuda muito, e a minha ex-mulher bebe, sábado, domingo é sagrado pra ela, mas se for pra ela vir aqui, a gente não perde a oportunidade de uma briga” (Paciente 11).
Scaduto (2010) assegura que os pacientes anseiam em exercer a responsabilidade e autonomia, em sua pesquisa os participantes apresentaram mecanismos baseados na idealização, muitos entrevistados relataram que o primeiro passo para buscar e realizar o tratamento, partiram de iniciativa própria, e somado ao apoio familiar é de fato um diferencial para o tratamento, podemos observar claramente esse apontamento através desta fala: “E agora eu to vendo que
minha família também tá me apoiando, pra vim pra cá, minha família toda apoia, viu, quem quis vir pra cá fui eu, a minha mãe, a minha família nem sabia, que eu tinha ido atrás, eles ficaram surpresos quando eu cheguei com o papel e falei que eu queria vir pra cá” (Paciente 7). A responsabilidade pela adesão do tratamento além
de contar com a iniciativa própria necessita de decisão e objetivo em cessar o uso, isso deve ser trabalhado no tratamento, contendo elementos que contribuam para isso, entretanto é um fator subjetivo de cada indivíduo, isso pode ser compreendido nas seguintes falas: “Eu estou decidido dessa vez agora que não vou voltar beber
mais” “Eu tenho que parar, eu tenho que, eu tenho que me mandar, não deixar a bebida me mandar” (Paciente 6 e 12).
8.1.2 Categoria 2: Não adesão correta
No item anterior podemos identificar o nível de consciência sobre a responsabilidade frente ao tratamento para que o mesmo obtenha resultados, contudo o índice de recaídas é muito alto, pois a maioria dos entrevistados não adere corretamente ao tratamento. Existem inúmeros motivos que contribuem para a não adesão, onde foram constatadas faltas constantes no cronograma de tratamento. Para Occhini e Teixeira (2003) é necessário uma não punição do reincidente, estimular a falar sobre a recaída e trazer novamente os faltantes para a semana seguinte, sendo por meio de uma convocação automática ou por meio do grupo, pode-se perceber as faltas constantes na fala de um dos entrevistados:
“Então na quinta, semana passada não deu pra eu vir participar das aulas, são duas, três, três semanas” (Paciente 1).
Outro fator de não adesão correta identificado trata-se do uso dos fármacos, alguns não seguem a recomendação médica deixando de tomar os medicamentos por contra própria ou negligenciando sua rotina de medicação, segundo Occhini e Teixeira (2003) devido aos efeitos colaterais que geram os fármacos administrados, podem ocasionar um abandono à intervenção medicamentosa, em muitos casos evitavam ingerir o medicamento para poder usar a substância, para que assim não ocorra uma mistura no organismo, evitando efeitos indesejáveis, essa ideia é evidente nas seguintes falas: “Só que daí eu fico um dia sem tomar esse
comprimido, até dois dias sem tomar ele, aí eu tomava bebida de álcool, para não misturar o álcool com esse comprimido”; “Tava dando problema aí eu peguei tomava um dia sim, outro não depois comecei tomar a cada três dias, quatro dias depois foi indo foi indo tomei ainda uns 6 meses ai parei, parei por conta.” (Paciente 4 e 6).
Segundo Occhini e Teixeira (2003) o tratamento contra a dependência envolve reincidência do uso, sendo assim a forma como o paciente é recebido e
tratado pelos profissionais, pode se reestabelecer o vínculo com a equipe a fim de recomeçar o tratamento gerando segundo os autores um encorajamento, os participantes que apresentaram uma melhor adesão recaíram anos depois de finalizado o tratamento, com isso podemos ver que o trabalho contra a dependência química deve ser constante na criação de intervenções a posteriori, devendo ser realizado como uma espécie de manutenção, podemos observar esse contexto na fala do paciente: “Aí depois de três anos que eu fiz tratamento aqui, eu comecei a
tomar sem álcool, quando eu vi eu tava dentro do litro de novo.” (Paciente 11).
8.2. EIXO II: MEDICAÇÃO
Todos os pacientes entrevistados fazem uso da medicação para controle de comorbidades psiquiátricas, entre elas as mais comuns são os transtornos de ansiedade e transtorno de depressão. Entretanto muitos não tem conhecimento sobre a medicação da qual fazem uso, quais efeitos adversos e para que servem, em muitos casos desconhecem até o nome do remédio. Há uma melhora obtida relacionada ao uso contínuo da medicação, muitos dos entrevistados atribuíram a diminuição da fissura pela substância aos efeitos da medicação, afirmando que também houve queda nos sintomas de abstinência. Contudo há também uma dependência medicamentosa, hoje os pacientes não se veem mais sem a medicação, muitos aumentam a dosagem por conta própria, outros agendam consultas com médicos psiquiatras a fim de conseguir receita médica com uma dosagem maior.
8.2.1 Categoria 1: Desinformação Sobre a medicação
A dependência química é considerada um transtorno biológico e psicológico, além do mais há um índice grande de comorbidades relacionadas ao uso de substâncias, de acordo com o CID 10 (Classificação dos transtornos Mentais e de comportamentos – CID 10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas, 1993) a dependência é considerada um distúrbio mental e comportamental, posto isso, o uso de medicação faz-se necessário no tratamento contra dependência química, conduto o desconhecimento a cerca da medicação por parte dos pacientes é grande, muitos não conhecem desde a nomenclatura correta da sua medicação como podemos ver
na fala de um dos paciente “Tô tomando a medicação daqui. Há não lembro, é bem
complicado o nome, são 4 tipos de remédios, são bem complicados. Pra ansiedade, pra dormir, e pra depressão, eu tenho duas tentativas de suicídio.” (Paciente 7).
A literatura a cerca dessa informação é escassa, poucas pesquisas abordam o conhecimento dos pacientes sobre o uso da medicação para o tratamento de dependência química, Xavier et. al. (2014) afirma que, os usuários que utilizam psicofármacos têm um determinado conhecimento a respeito da medicação, entretanto isso é algo aprendido. A grande maioria dos entrevistados faz uso de mais de um remédio, sendo eles destinados ao tratamento da dependência química e sua comorbidades, ou então para outras patologias, o que pode gerar confusão entre as medicações, como por exemplo, qual a finalidade, horários e afins. Esse contexto pode ser observado na seguinte fala: “Feloxitina, acho que é, é diurético
né? E outro, eu não tô lembrado bem o nome, mas esses, é esse daí, um pra cabeça, outro pra controlar, outro pra pressão outro pra não dar ataque.” (Paciente 1).
Alguns dos entrevistados não sabiam definir qual a função dos remédios dos
quais fazem uso, apenas seguem a prescrição médica, muitas vezes confundindo especialidades médicas, e atribuindo outras patologias a dependência química:
“Faço, não sei pra que serve.” “Tomo. Tomo remédio pra dormir e pra pressão, tenho pressão alta.” (Paciente 3 e 11). Segundo Xavier et.al. (2004) a orientação quanto à
medicação é um tema abordado por profissionais bem como familiares de pacientes, permitindo que eles formulem suas opiniões, sendo assim a conduta da terapia medicamentosa é vista pelos autores como uma conduta aprendida, aliadas as vivências do paciente, e não deve ser vista apenas como simplesmente falta de conhecimento por parte do mesmo.
8.2.2 Categoria 2: Melhora Obtida Após Uso de Medicamento.
Com o uso da medicação os participantes da pesquisa, relataram obter melhoras, muitos afirmaram que os sintomas de abstinência foram reduzidos, bem como a fissura pela substância, podemos identificar esse fator em uma fala onde foi perguntado se obteve melhoras com o uso da medicação: “Melhorou 100%, assim
acalma, meu, Deus me livre. Hoje graças a Deus eu não sinto mais vontade de beber.” (Paciente 11). A substância que os entrevistados relataram ser mais
dependentes é o álcool, e para tratamento é utilizado o fármaco Acamprosato, que pode mitigar os sintomas de abstinência, outro fármaco possível de contribuir para diminuição da fissura é a naltrexona “A naltrexona é um antagonista que competem com os agonistas de opioides no sistema nervoso central (snc). Ela promove a abstinência e diminuiu a fissura por álcool, e seu consumo excessivo” (FLEUR; JOHNSON, 2015, pag. 216).
Fleur e Johnson (2015) afirma que, estudos regulatórios, apontam que o uso de fármacos estimula a abstinência, entretanto aliados a aspectos e apoio motivacionais, ainda segundo os autores, quando utilizado antidepressivos, sendo principalmente os tricíclicos, uma grande quantidade de pacientes mostrou uma tendência a alcançar a abstinência, este fator é muito importante, alguns dos entrevistados, apesar de apresentarem recaídas, atribuíram a diminuição da frequência do uso, devido ao uso constante da medicação, como pode ser identificado na fala de um dos paciente: “99%, tá ajudando, comecei terça feira a
tomar, e ela diminuiu bastante meu uso, dos dois né?” (Paciente 7).
Castro e Baltieri (2004) afirmam que, pesquisas farmacológicas pautadas nas alterações neurobiológicas revelaram promissoras descobertas, podemos constatar que de acordo com a percepção do paciente a medicação é de suma importância, apesar de muitos não saberem distinguir se esses benefícios são de fato efeitos propostos pelos remédios, devido ao desconhecimento da sua finalidade, como pode ser observado na fala de um dos pacientes, fica evidente que ele não sabe se a medicação utilizada é pra controlar seus ataques epiléticos: “Fez, fez efeito sim,
principalmente os ataques né?... Primeiramente Deus, depois o a medicação, essa que to tomando, e esse que controla também né?” (Paciente 1).
8.2.3 Categoria 3: Dependência Medicamentosa
Apesar de em muitos casos a medicação ser necessária, pode-se tornar um risco no tratamento, Fleur e Johnson (2015) afirma que os médicos estão habituados a prescrevem três classes de fármacos que causam dependência, sendo elas estimulantes benzodiazepínicos e opioides, onde muitos são utilizados no tratamento de adicção. Como citado anteriormente os pacientes que fazem uso de medicação, utiliza vários tipos de medicamentos para finalidades diferentes, atribuem as melhoras obtidas aos fármacos, todavia muitos não aderem
corretamente à rotina da medicação, onde acabam aumentam a dosagem por contra própria, isso fica claro na seguinte fala: “Sempre, eu to tomando dois, meu médico
mandou eu tomar um e não dois.” (Paciente 10). Podemos considerar essa atitude
como automedicação, a fim de aliviar os sintomas de abstinência de forma imediata, como podemos identificar no seguintes relatos: “Teve, por que corta um pouco a
abstinência se eu penso no uso e já tomo, já dá uma cortada” “To usando um comprimido que eles me deram lá no CAPS, pra abstinência, o uso é oral” (Paciente 8 e 9).
O tratamento farmacológico torna-se na grande maioria extenso, pois os pacientes fazem o uso da medicação durante meses até anos, sendo assim, quando há uma exposição suficiente para criar a dependência farmacológica o indivíduo passa a querer a substância de modo irracional e insistente (FLEUR; JOHNSON, 2015). Além de controlar os sintomas da abstinência, a medicação é vista pelos pacientes como uma substituição do uso da substância, diante do desejo de usar, a fim de evitar uma recaída muitos recorrem a medicação, de acordo com a percepção dos pacientes ela acarreta menos danos que o uso da substância em si, essa afirmação pode ser observada nas seguintes falas: “Eu não posso ficar sem tomar
esse ai, se eu não tomar, ficar dois dias sem toma, me volta tudo” “O médico falou pra eu tomar uma vez ao dia, se por acaso eu ouvir falar em droga, alguém falar em droga eu já tomo dois” (Pacientes 5 e 11).
Em outros casos apesar de não haver uma automedicação, é nítido a dependência farmacologia, pois alguns dos participantes da pesquisa durante as entrevistas nos mostraram suas cartelas de comprimidos, e até as receitas prescritas pelos médicos, frente essa atitude pode-se constatar que necessitam transportar com eles suas medicações, até porque a rotina da medicação deve ser seguida a risca, tomando os comprimidos em horários regulares, essa atitude pode ser interpretada nas seguintes fala: “É, eu tomo esse comprimido que tem de manhã
que é para cabeça” “Esse ai eu tomo um de manhã cedo, esse ai é Carbamazepina, eu tenho aqui escrito, eu tomo um de manhã cedo desse daqui” (Paciente 1 e 4).
Fleur e Johnson (2015) afirma que não é recomendável a administração de fármacos de forma isolada como tratamento definitivo em nenhum caso de adição.
Os participantes que não apresentaram uma automedicação, também apresentaram uma dependência farmacológica alta, muitos querem uma consulta com o psiquiatra para rever a rotina e quantidade da medicação a fim de aumentar o
uso da mesma: “Sinto que faz bem, aliás eu, dia 16 de novembro eu tenho médico,
então dois meses né? Vou pedir pra ele dar um mais forte pra dormir” (Paciente 11).
Entretanto como afirmam Castro e Baltieri (2004), apesar dos fármacos serem uma importante ferramenta, não devem ser a estratégica terapêutica principal, devido aos outros fatores além do biológico, em alguns casos o próprio médico identifica a necessidade de aumentar a dosagem visando diminuir principalmente os sintomas das comorbidades, isso pode ser explicado com essa fala: “Tomo um que o médico
aumentou dois, tomo dois comprimidos pela manhã para ficar tranquilo para ansiedade, pra pressão alta e diurético, tomo esses daí, são 5 na verdade...” (Paciente 1). Rodrigues, Facchini e Lima (2006) afirmam que indivíduos que
consultam médicos com mais frequência apresentaram maior aumento no uso de fármacos.
8.3 EIXO III: PSICOTERAPIA
A psicoterapia é um fator importante no tratamento contra dependência química, entretanto muitos dos pacientes não possuem acesso a mesma em seu tratamento, devido a questões econômicas pessoais e a verba governamental destinada ao CAPS-ad (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas) onde não há condições para que todos os usuários façam acompanhamento psicológico na instituição, sendo dado prioridades para casos mais graves. Contudo, mesmo com uma inacessibilidade a psicoterapia os pacientes reconhecem a importância da mesma, deixando claro que de acordo com a percepção deles é um quesito importante no tratamento, muitos relataram que gostaria de ter acesso à
psicoterapia, além do que enfatizaram uma afetividade frente a equipe que oferecem o suporte para o tratamento.
8.3.1 Categoria 1: Inacessibilidade de Psicoterapia
O tratamento de adição é na maioria das vezes fragmentado, segundo Fleur e Johnson (2015) há durante o tratamento clínico diferentes prestando os devidos cuidados, o que cria um modelo de divisão, onde o clínico prescritor deixa de oferecer psicoterapia. A maioria dos participantes da pesquisa relatou não ter tido acesso a uma psicoterapia adequada de acordo com a necessidade do tratamento
contra dependência química, apenas realizaram consultas preliminares com psicólogos para que fosse realizado o encaminhamento até o CAPS-ad para dar início ao tratamento, como pode ser identificado nos seguintes relatos: “Nos grupos,
uma vez eu consultei com uma psicóloga, aqui uma vez só, no postinho uma vez, foi a que me encaminhou pra cá, então foi duas vezes, uma no posto de saúde e uma aqui.” “Foi bom. Fiz aqui duas vezes com, quando era outro grupo né? Que tinha antes de começar a pandemia” (Paciente 7 e 12).
A psicoterapia visa tornar o paciente mais consciente das escolhas que se está fazendo, segundo Fleur e Johnson (2015) estudos mostraram que o desfecho dos dependentes químicos com grau elevado de recaídas, está correlacionado negativamente com o grau de diretividade do terapeuta, sendo assim quando inacessível a psicoterapia torna-se ainda mais dificultoso o tratamento, em casos derivados de demandas judiciais há um acesso mais próximo a psicoterapia, entretanto para que seja de fato possível deve-se entrar com recursos o que ficou claro na fala de uma das pacientes: “Nos faz em grupo lá no CAPS, aí meu
advogado pediu pra juíza um psicólogo pra mim, fora da ALFA” (Paciente 9).
8.3.2 Categoria 2: Percepção da Importância da Psicoterapia
A integração das intervenções no tratamento de dependência química, pode proporcionar autoconhecimento, aumento da autoestima, e uma melhor percepção do tratamento, Occhini e Teixeira (2003) ressaltam que a psicoterapia é um importante facilitador na adesão correta do paciente, sendo por meio desta e também da terapia de grupo, a percepção de não está isolado na busca pela recuperação. Apesar do pouco acesso a psicoterapia, os participantes reconhecem a importância da mesma, alegaram sentir falta de ter com quem conversar sobre o uso, tratamento e outros aspectos de vida, afirmando que a escuta do profissional de psicologia também pode proporcionar conscientização, como observa-se nas seguintes falas: “Ajuda muito, muda mesmo, pois tem dia que você, chega ali cê,
fica pensando com quem eu vou desabafar, fala com Deus você desabafa mais tem que ter alguém pra conversar com você entendeu? Você conversa você se solta, então você tira aquele sufoco, também foi importante, eu gostei.”; “É que daí você se conscientiza mais né?” (Paciente 1 e 12).
A psicoterapia é o primeiro passo para a adesão ao tratamento, muitos recorrem inicialmente ao psicólogo quando decidem parar com o uso, para Maçaneiro (2008) o acolhimento e aceitação para o dependente químico é uma