Apêndice I – Letra da música “Maria, Maria”
3. PROCEDIMENTOS DE PESQUISA
3.4. Procedimentos éticos
Além de um cuidado especial na preparação do pesquisador, teórica e emocionalmente, para a pesquisa – segundo Johnson (2014), o melhor remédio, ou vacina, contra riscos de ordem ética, durante o shadowing, é um minucioso e adequado preparo antes de se ir a campo – esta pesquisa seguiu as normas e procedimentos do Comitê de Ética, da UFU. Para tal, foram cumpridas as etapas de preenchimento do processo de submissão de seu projeto ao Comitê de Ética, segundo a instruções vigentes, via o portal da Plataforma Brasil (<http://plataformabrasil.saude.gov.br/login.jsf>).
Durante o contato com os restaurantes, com base na documentação exigida pelo Comitê de Ética, foram apresentados os seguintes documentos, com as devidas coletas de assinaturas da equipe de pesquisa, dos representantes do restaurante e dos funcionários participantes da pesquisa:
• Informativo para O Restaurante sobre a Pesquisa Pretendida – documento elaborado para orientar o restaurante na decisão de participar ou não da pesquisa (Apêndice C);
• Declaração da Instituição Coparticipante – termo de aceite firmado pelo restaurante em caso de adesão à pesquisa (Apêndice D);
• Termo de Compromisso da Equipe Executora com os Funcionários – termo elaborado a partir do Termo de Consentimento e Livre Escolha (TCLE), sem prejuízo da finalidade e exigência deste, assinado pela equipe executora da pesquisa, reiterando seu compromisso ético com a organização e seus funcionários participantes da pesquisa e entregue (cópia) a cada deles, assegurando a preservação
da confidencialidade e anonimato da organização e de seus funcionário, mediante o uso de pseudônimos e procedimentos que protejam suas imagens. Ele foi elaborado pelo pesquisador, em termos coloquiais, para melhor compressão e segurança dos funcionários, em vista de sua baixa escolaridade, sendo entregue uma cópia assinada pelo pesquisador a cada funcionário participante da pesquisa. Concomitantemente, foi assinada uma cópia pelo representante legal da organização coparticipante confirmando esse procedimento e o recolhimento da assinatura do TCLE (Apêndice E), conforme procedimento ético padrão exigido pela UFU;
• Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – termo apresentado a cada funcionário e membro da organização participantes da pesquisa, sendo recolhida uma cópia com sua respectiva assinatura (Apêndice F).
• Carta de despedida e agradecimento – carta em nome do pesquisador e do PPGA, da FAGEN, UFU, entregue à direção dos restaurantes visitados, agradecendo a cooperação, reafirmando o compromisso ético com a preservação da confidencialidade e anonimato da organização e de seus funcionário (mediante o uso de pseudônimos e procedimentos que protejam suas imagens) e buscando a manutenção de uma ponte para outras futuras cooperações (Apêndice G).
As identidades e as imagens dos participantes e da organização, a qual eles pertencem, foram mantidas anônimas. Para tal foram observados cuidados que assegurassem a confidencialidade e a privacidade dessas pessoas e da organização, como o uso de pseudônimos e procedimentos como o cobrimento de rostos, logos ou outros elementos, em suas imagens, que pudessem servir como pistas à sua identificação por terceiras partes.
Ao mesmo tempo foram minimizadas e controladas as referências ou considerações, na análise do material empírico da pesquisa e na redação da dissertação, a fim de preservar a dignidade dos participantes e evitar quaisquer formas de estigmatização deles, da organização e de suas comunidades, em termos de suas autoestimas, prestígios e/ou aspectos econômico- financeiros. Evitaram-se potenciais pistas, ainda que indiretas, que de alguma forma pudessem conduzir à inferência de suas identidades, bem como a elaboração de argumentações que lhes ferissem tais direitos fundamentais.
Menções a locais ou datas foram criteriosamente escrutinadas pelo pesquisador na redação final da dissertação, sendo omitidos ou substituídos sempre que possível e adequado, em observância à manutenção de seu anonimato, privacidade e demais direitos fundamentais (Silva dos Santos, 2018). Decorrente desses necessários cuidados, o processo de shadowing foi procedido por uma sessão explicativa, para os participantes da pesquisa e para os representantes
da organização a que eles pertenciam, sobre os objetivos da pesquisa, a natureza do TCLE e suas implicâncias em termos da vinculação de diretos e obrigações do pesquisador e da pesquisa, bem como dos direitos e consentimentos dos participantes, da organização e de seus gestores, sobre a preservação da confidencialidade e anonimato, de todas as partes externas à UFU envolvidas na pesquisa, mediante o uso de pseudônimos e procedimentos que protejam suas imagens.
Nos primeiros contatos com a organização, com o acompanhado e com os observados, foi esclarecido que o pesquisador acompanharia os trabalhos da cozinha da organização, fazendo anotações, fazendo perguntas, mantendo conversações e coletando imagens, sem prejuízo do fluxo físico na cozinha ou da concentração dos funcionários, em suas rotinas de trabalho, durante o shadowing, sempre observando os compromissos éticos estabelecidos nos documentos de salvaguarda do anonimato, privacidade e imagens dos participantes e da organização coparticipante (Apêndices C a G).
Por fim, saturação ou qualquer que seja a razão para se dar o shadowing por encerrado, é uma questão que exige cuidado por parte do shadower. Após o período de tempo prolongado em que fiz parte, ainda que temporariamente, da paisagem da cozinha, certas formas de relacionamento foram estabelecidas com o chef, com os demais funcionários e com a própria organização. Bryman (2012) alerta que promessas, em especial de conteúdo ético, foram feitas e não devem ser esquecidas.
Conforme ainda argumenta Bryman (2012), percebi que mesmo procurando manter um distanciamento crítico – por mais tênue que essa noção possa ser, tal posicionamento se faz necessário, flexível talvez, mas certamente moral e cientificamente ético – a fim de cumprir meu objetivo (observar, anotar, analisar e inferir a partir daquele recorte da sociedade), exigiu- se, de alguma forma, minha participação na dinâmica da cozinha e a participação dos shadowees em minha pesquisa. Desde suas respostas a minhas perguntas sobre suas tarefas, ou de nossas conversas durante suas pausas para o almoço – em que compartilhamos do mesmo pão, enquanto me faziam confidências, totalmente voluntárias para minha surpresa, sobre seus percursos de vida, doídos e belos, tristes e felizes – até suas respostas sempre sorridentes, positivas e gentis aos meus pedidos para fotografá-los enquanto trabalhavam, tudo criou algumas formas de vínculos, por maior que pudesse ser minha busca por alguma forma de distância ou neutralidade científica.
Minha presença foi como uma pequena onda, que gradualmente cresceu e certamente reverberou de alguma forma na vida daquelas pessoas, ainda que por um período breve e passageiro. Certamente, posso dizer que a recíproca é verdadeira, mas dada a importância da
oportunidade que aquelas pessoas me deram, meu convívio com elas deverá continuar em minha memória por bem mais tempo.