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Procedimentos de análise

No documento Dissertação Carina Versão final (1) (páginas 73-79)

CAPÍTULO IV – METODOLOGIA

IV. 2 Procedimentos de análise

O material que faz parte do estudo foi delimitado segundo critérios de pesquisa de que, primeiramente, deveriam constar como resultado do uso da ferramenta de busca do site ao serem utilizados os termos “mulher” e “mulheres”. Após essa etapa, foram inseridos mais critérios para que fosse criado um corpus coerente com o objetivo traçado: ter no mínimo 500 curtidas na publicação do Facebook9; fazer referência direta, ou indireta, ao tema de relacionamentos amorosos; ser em formato de artigo, ou conter trabalho editorial, que indicasse a criação de um conteúdo opinativo, e assim foram descartados aqueles que faziam somente referência a outro material – como ensaios fotográficos, pesquisas, infográficos, promoções e divulgações de produtos.

O corpus final consiste em 83 textos colhidos em outubro de 2017, que abrangem o período de 6 de abril de 2011 a 28 de junho de 2017, ou seja, seis anos de publicações; praticamente a totalidade da existência do site. O blog foi monitorado constantemente e desde então não houve mais nenhuma publicação que se enquadrasse nos critérios e propósitos deste estudo.

Para o objetivo proposto, foram eleitas como metodologias a serem utilizadas para observação dos textos, a análise de conteúdo (AC) – segundo Bardin (2011) - e a análise crítica do discurso (ACD) – segundo Van Dijk (2008), levando em conta a perspectiva foulcaultiana sobre discursos. A AC, segundo Bardin (2011, p. 48) é:

[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção [...] destas mensagens[...].

O processo se compõe em três etapas: 1) a pré-análise; 2) a exploração do material; 3) o tratamento dos resultados e interpretações (Bardin, 2011). Pode-se dizer, que o contato com os materiais empíricos que compõem o corpus, iniciou-se entre a adolescência e fase adulta da autora desta pesquisa, pois como mulher e jovem, observava as constantes trocas e publicações dos textos do blog nas redes sociais, além de perceber certas incoerências entre discursos e ações referentes aos relacionamentos amorosos na contemporaneidade.

Mas especificadamente para este estudo, a pré-análise se concentrou nos meses de setembro e outubro de 2017, em que a recolha dos textos, especificadamente, deu-se no mês de outubro. Durante a coleta, e concomitante com a revisão bibliográfica, aconteceu a segunda fase da pesquisa, referente à exploração do material. Essa fase foi crucial para se perceber questões que dariam origem ao índice de codificações utilizado, particularmente, para a análise de conteúdo.

O codebook10 foi pensado a partir do conteúdo teórico revisado e pesquisado, e das campanhas de prevenção contra violência realizadas por órgãos oficiais brasileiros, bem como pelas dadas no contexto da internet, como citadas no capítulo I11. Foram necessárias

algumas versões, conforme se avançava a pesquisa bibliográfica indispensável a este estudo. Dessa forma, mesmo durante a fase de análise com a ferramenta Nvivo12, foram demandadas algumas inserções de índices, e/ou exclusões. E mesmo uma categoria que se mostrou crucial para este estudo – sobre a culpabilização da mulher – só foi introduzida em um segundo momento, após o início das codificações. Entende-se, dessa forma, que uma grelha de análise conveniente e produtiva só pode ser finalizada conforme se desenvolve a pesquisa, admitindo-se os equívocos, ou faltas.

Nessa fase de pré-análise também se contatou certas questões referentes às imagens usadas pelo editorial para ilustrar os textos. Dessa forma, ao longo da apresentação e discussão de resultados no capítulo V, será apresentada brevemente essas observações, em que se considerou fatores quanto à representatividade social, segundo aspectos sobre a diversidade dos indivíduos retratados. Também se deu destaque à figura da mulher conforme a posição em que foi colocada e mostrada. Como o foco da pesquisa são as construções discursivas – e não é de fato um trabalho com fotografia documental – não se dá demasiada ênfase a essa categoria, mas se entendeu a necessidade de apresentar e pontuar algumas questões. Devido a esse fato, não se fez necessária nenhuma metodologia de análise específica das imagens.

A hipótese até este momento observada é a de que os conteúdos publicados pelo blog não têm contribuído para um debate relevante e enriquecedor, referente às transformações da intimidade na contemporaneidade. Mesmo que inscritos em uma ordem pretensamente não moralista, podem estar a se reduzir a textos de autoajuda e aconselhamentos amorosos obedientes à ordem já imposta pelas estruturas sociais vigentes,

10 Um codebook é um um índice de códigos que descrevem o conteúdo e a estrutura de uma coleta de dados. 11 Chega de Fiu Fiu; #meuamigosecreto; #meuprimeiroassédio; #NãoMereçoSerEstuprada.

não incidindo de forma positiva para avanços nas temáticas feministas, que objetivam a igualdade de gêneros, a emancipação legítima das mulheres e a garantia de seus direitos na sociedade civil.

Na segunda etapa do processo, que consiste na codificação desse conteúdo, os textos foram primeiramente classificados, em uma tabela geral (Apêndice B) segundo seu título, autor, data de publicação, número de curtidas pelo Facebook e a classificação segundo as colunas do blog: sexo, amor, atitude, listas e lifestyle. Após essa fase de catalogação, foi utilizado o software Nvivo12, sugerido pelo orientador deste trabalho, que organiza de forma sistemática as informações fornecidas pelo pesquisador – neste caso, os próprios textos – a fim de que se consiga ter uma visão abrangente e clara dos conteúdos, além de identificar e agrupar “nós” semelhantes e de interesse consoante ao que foi proposto. Para utilizar o Nvivo12 foi criado um codebook – detalhado no Apêndice A – que contêm dez itens de análise, e suas subsequentes categorias. O codebook consiste em:

1. Quanto à autoria dos textos: - Editorial

- Gênero não binário - Homem cisgênero - Homem transgênero - Mulher cisgênero - Mulher transgênero

2. Orientação sexual do autor, quando exposta no texto: - Bissexual - Heterossexual - Homossexual - Indiferente - Não Identificada - Outra 3. Tom do texto: - Conservador - Crítico - Feminista - Liberal - Machista - Neutro

4. Estereótipos das mulheres: - Chata

- Culta/Inteligente - De Atitude

- Difícil de ser conquistada

- Experiente/sabe tudo/provedora de conhecimento - Frágil - Idealizada/endeusada - Independente -> financeiramente -> sentimentalmente - Insegura - Interesseira/ oportunista - Liberal -> liberal sexualmente - Masculinizada - Não há estereótipo - Outro - Promíscua - Romantizada - Segura

- Sem comprometimento com a aparência/ não vaidosa - Sexy

- Vaidosa

5. Presença de imperativos pós-modernos: - Ausência de planos a longo prazo

- Indivíduo com múltiplas identidades/plural - Primazia do indivíduo

- Realização de objetivos próprios sem considerar os d@ parceir@ - Relacionamento descartável

6. Se há presença de relatos de um relacionamento, com qual teor é abordado: - Abusivo

- Normal - Perfeito

- Sem compromisso - Violento

7. Presença da ideia de amor romântico

- Copresença de conceitos românticos e pós-modernos - Confusão do conceito de paixão com o de amor - Homem conquistador

- Homem provedor

- Mulher perfeita/idealizada

- Não há relato de relacionamento romantizado - Par perfeito

- Romance que vence tudo

8. Quais pistas indicam relacionamento abusivo: - Alusão a uma receita de vida ideal

-> liberdade individual -> vida a dois

- Criar oposição entre mulheres - Culpabilização da mulher

- Desdenho às questões particulares do indivíduo -> modo de ser

-> opiniões -> vontades

- Ditar normas quanto ao comportamento - Generalização das características das mulheres

- Interferência/comentários sobre a liberdade do indivíduo -> corpo

-> estilo de vida/ gastos financeiros -> sensibilidade feminina

-> sexualidade -> vestuário

- Mulher mudar algo para conquistar o homem - Objetificação da mulher

- Valorização da beleza da mulher - Desvalorização do plano de vida - Referência a determinado padrão - Xingar a mulher

9. Relações sexuais e prazer:

- Autorresponsabilidade pelo prazer - Normalização do não gozar - Posição liberal

- Posição liberal em detrimento da satisfação masculina - Prazer solitário

- Valorização do prazer a dois - Valorização do sexo casual 10. Conclusão do texto: - Conformista - Conquista - Final Feliz - Perda - Revolta - Sonhador - Transgressor

A terceira etapa dos processos referentes à AC consiste em categorizar e classificar os elementos até então encontrados nas primeiras fases da análise. No próximo capítulo serão apresentados os resultados, além de serem debatidos e interpretados pela perspectiva da ACD, que, segundo Van Dijk (2008, p. 113), “é um tipo de investigação analítica discursiva que estuda principalmente o modo como o abuso de poder, a dominação e a desigualdade são representados, reproduzidos e combatidos por textos orais e escritos no contexto social e político”. Para Foucault:

Trata-se, portanto, de levantar a sério estes dispositivos e de inverter a direção da análise: ao invés de partir de uma repressão geralmente aceita e de uma ignorância avaliada de acordo com o que supomos saber, multiplicadores de discursos, indutores de prazer e geradores de poder. É necessário segui-los nas suas condições de surgimento e de funcionamento e procurar saber de que maneira se formam, em relação a eles, os fatos de interdição ou de ocultação que lhes são vinculados. Em suma, trata-se de definir as estratégias de poder imanentes a essa vontade de saber. E no caso específico da sexualidade, constituir a “economia política” de uma vontade de saber. (Foucault, 2017, p. 82).

O que se pretende averiguar neste trabalho é como as narrativas sobre relações íntimas vêm sendo construídas na contemporaneidade, e de que forma o amor é visto e colocado nessas estruturas. A partir desse ponto, pretende-se analisar como esses discursos se posicionam, ou se articulam, com a ideia de relacionamento abusivo, ou seja, se de alguma forma há a normalização de padrões abusivos por meio dessas representações online – neste caso, nos textos publicados pelo Casal Sem Vergonha. Sob essa perspectiva se teve especial atenção às construções textuais que envolviam o termo mulher/mulheres; ela (s); minha(s), pois a ideia é compreender a posição conferida ao feminino nessas elaborações. A partir disso, verificou-se também as construções que envolviam descrições, para se perceber como se dava o uso dos estereótipos; como também as narrações de situações e momentos para se perceber se havia presença de conceitos de amor romântico e/ou pós-modernos e, dada a circunstância, encontrar os padrões abusivos implícitos nessas elaborações textuais.

No documento Dissertação Carina Versão final (1) (páginas 73-79)