CAPÍTULO 3- ESTADO DA ARTE
4.3 Procedimentos de análise
Feitas a coleta de dados e a formação do corpus, gravações de aproximadamente 70 vídeos, durante o período compreendido entre os meses de outubro de 2015 e março de 2016, a etapa seguinte foi a de transcrição desses vídeos, no decorrer de um período de trinta dias alternados, que compreendeu os meses de abril e maio de 2016, utilizando-se de aproximadamente 60 horas de transcrição.
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Fotos da disposição dos objetos e dos equipamentos nas salas durante a construção do corpus podem ser visualizadas no anexo 6.
Entendemos, pois, que, dada a riqueza sintática e semântica permitida pelos recursos espaciais tridimensionais da LS e das expressões facial e corporal (componentes não-manuais nessa língua), é possível o registro, na forma gráfica, entendido como uma aproximação dos significados permitidos pela língua.
Essa etapa de transcrição dos vídeos contou com a participação de um tradutor/intérprete de LS77 e, nela, foi utilizado o sistema de notação em palavras em português (FELIPE, 2009; FERREIRA, 2010)78. O uso de palavras da LP vem sendo adotado por pesquisadores de línguas de sinais no Brasil e em outros países porque “as palavras de uma língua oral-auditiva são utilizadas para representar aproximadamente os sinais” (FELIPE, 2009, p. 24). Quadros e Karnopp (2004, p. 37), em suas ilustrações em sinais, optaram por utilizar glosas com palavras do português nas transcrições, visando a “apresentar mais detalhes referentes à estrutura das línguas de sinais”. Ferreira (2010, p. 207 – 209) também optou por esse sistema de notação, usando a palavra em português para “transcrever enunciados e textos maiores em língua de sinais”.
É importante ressaltar, neste momento, que não é do nosso interesse utilizar o sistema de escrita de uma língua oral auditiva e fonoarticulatória, como a LP, para corresponder à língua sinalizada, pois sabemos que a LS apresenta complexidade própria, e a pessoa com surdez tende a recorrer às propriedades visuais e quiroarticulatórias79 que constituem a forma de sua sinalização interna (CAPOVILLA e RAPHAEL, 2008, p. 1492). Também é preciso esclarecer que as convenções utilizadas podem não dar conta de apresentar a riqueza de detalhes que uma língua visuoespacial apresenta.
Nesse sentido, as convenções de uso da palavra em LP, adaptadas, utilizadas na transcrição do corpus deste trabalho, representam tentativas de maior aproximação do sentido expresso, por meio da Libras. Portanto, julgamos adequadas, apesar de existirem outras formas de transcrição de Libras80. Segundo Felipe (2009, p. 27), estas convenções podem ser
77Justifica-se a presença do profissional de apoio tradutor/intérprete de língua de sinais no procedimento
metodológico de transcrição das falas, em Libras, visto que, mesmo registradas em vídeos, há informações que não poderiam ser perdidas, como o movimento, a mudança na direção do olhar, as expressões facial e corporal etc.
78 O sistema de transcrição de Libras para língua portuguesa (adaptado) é encontrado nos elementos pré-textuais. 79 quiro, do grego mão (CAPOVILLA e RAPHAEL, 2008).
80 Quadros e Pizzio (2009 apud Machado, 2012, p. 88), apresentam vários softwares que possibilitam a
transcrição da língua de sinais. São eles: Filemaker pro; ANVIL (anotações de vídeo e dados de linguagem), CLAN (Análise Computadorizada da Linguagem); TRANSANA; ELAN; Signstream e Berkeley Transcription
utilizadas para “representar, linearmente, uma língua gestual-visual, que é tridimensional”, neste caso, a Libras.
Com essa perspectiva, não optamos pela tradução/interpretação da LS para a LP, por entender que o tradutor/intérprete de LS – TILS utiliza estratégias cognitivas complexas no processamento de significação de narrativas e, por isso, necessita de adequações linguísticas para fornecer informações cognitivas. A esse respeito, Machado (2012), ao tratar sobre a tarefa e o desafio do tradutor/intérprete de línguas naturais, esclarece que, no ato tradutório, principalmente na tradução simultânea81, o Tradutor Intérprete de Língua de Sinais (TILS) “obriga-se a fazer escolhas mais rápidas e imediatas que, nem sempre, expressam o sentido intencionado no discurso fonte” (MACHADO, 2012, p. 8).
Diante dessa questão, ressaltamos que também utilizamos uniformidade notacional da LC82, conforme Duque (2015); Duque e Costa (2012). Entendemos que sinais em Libras são expressões linguísticas indexadas e apontam domínios conceptuais, acionando frames ou esquemas. Desse modo, são grafados entre aspas duplas, por exemplo, na expressão linguística “joaninha voar”, e em versalete, por exemplo, no domínio conceptual INSETO. Tal
convergência corrobora a perspectiva de que a Libras é expressão e transformação do pensamento, de modo complexo.
Em alguns momentos, durante as transcrições das narrativas, ocorrem descrições livres de sinais da Libras, na língua portuguesa escrita.
Na análise de frames conceptuais básicos, estes são representados em forma de grafos, que, conforme Duque (apud Araújo, 2017, p. 44), “é uma estrutura reticulada usada para representar relações entre as coisas. Essas coisas são chamadas de nós (ou vértices) do grafo. Cada relacionamento entre nós, por seu turno, é denominado de aresta”. Nas ilustrações gráficas (composta por grafos), os nós são representados por círculos e as arestas por linhas que conectam esses círculos. Além disso, Duque (apud Araújo, 2017, p. 44) mostra que, no caso dos frames, “[...] os nós da estrutura correspondem aos componentes (papéis) do frame e as arestas correspondem ao tipo de ligação entre esses papéis (PARTE-TODO, CENTRO-PERIFERIA,
System – BTS. Dentre os softwares disponíveis Machado (2012) utilizou o ELAN, sistema criado pelo Instituto Max Planck de Psicolinguística.
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Na tradução simultânea, o TILS ouve/vê uma língua-fonte e passa-a para outra língua no tempo da enunciação.
CONTÊINER-CONTEÚDO, TRAJETOR-MARCO etc.)”. Esse autor também esclarece que cada nó
(componente), se focalizado, pode constituir um grafo (frame) em si.
Cumpre esclarecer que analisamos dados retirados de um corpus rico em informações acerca de uma língua visuoespacial e tridimensional. Para tanto, mencionamos os participantes durante a análise dos dados da seguinte maneira: FSL1, FSL2, FSL3, FSL4 e FSL5 (para os falantes surdos da Libras) e FOL1, FOL2, FOL3, FOL4 e FOL5 (para os falantes ouvintes da Libras) . Em virtude de sua dimensão, o corpus é utilizado parcialmente, visto que as sinalizações apresentadas atendem às análises em questão.
Por fim, apresentamos, de forma livre, a narrativa do vídeo 1 (encontrado em: https://archive.org/details/Minuscule), retirado do corpus, tendo em vista que foi exibido sem discurso oral e está sendo utilizado para fins de análise e discussão acerca de frames, metáforas e metonímia.
A narrativa fictícia, ocorrida no ambiente rural, trata sobre três insetos: joaninha, aranha e mosca. A protagonista, a joaninha, fura a teia da aranha três vezes consecutivas, parecendo uma ação intencional de malvadeza. Na primeira vez, ela observa a aranha presa na teia e, em seguida, voa passando pela teia, furando-a. Na segunda vez, ela provoca muitas moscas que estão numa lixeira e é perseguida por elas, passando novamente pela teia que está sendo tecida pela aranha. E, na terceira vez, após ela novamente provocar outras moscas que estão em outro local (aparentemente, um depósito com lixo), estas, na ação de persegui-la, passam pela teia que está sendo novamente reorganizada pela aranha. No primeiro momento de provocação e de perseguição das moscas, uma delas bate em uma placa de aviso, cai, rola e morre. A narrativa termina com a joaninha sendo perseguida pelas moscas num ambiente composto por árvores e matas” (narrativa escrita pela pesquisadora a respeito do vídeo 1).
Encerrados os aspectos referentes à metodologia, prosseguimos com momentos de análises dos dados coletados e discussões.